9 de novembro de 2012

Prendada e agradecida

Imagem de Seu Davi Alves Correa, empalhador de cadeiras que achei na internet
Sou da época em que era divertido e útil aprender trabalhos manuais, aprendi em casa, na casa de minha Tia Nélia, na escola. Era terapêutico ainda que eu não soubesse.  Sei colar, recortar,   trançar, desenhar, criar, consertar, passar, lavar, tratar peixe. Desenvolvi habilidades manuais e sensoriais e sou grata por cada um que me ensinou e por quem ainda me ensina, pois não canso de aprender.
Muita coisa eu aprendi com meu pai, seu Guillermo, um concertador e inventor nato, além de padeiro, confeiteiro, jardineiro, conhecedor e narrador de muitas histórias de filósofos, reinos, mares e personagens clássicos da literatura espanhola e mundial.
Tão poucas crianças, meninos e meninas, pequenos e principalmente os adolescentes de hoje se interessam ou são incentivadas a aprender um trabalho manual. Ai na maior idade , imagino, seguirá esse desdém, acompanhado da falta de prática e da falta de destreza próprias da idade avançada. E então, o que fazer? Ser pessoas ranzinzas, se aventurar em aprender antes tarde do que nunca ou se limitar a ficar navegando nas redes sócias de dia e ir para baladas a noite, o que não acho que seja uma boa ideia.
Lá dos idos de muito tempo atrás, moça prendada bordava, cozinhava e outras coisinhas que preparavam suas habilidades para ser uma boa esposa, dona de casa, mãe de família e no futuro uma avó ocupada e dinâmica. Os homens sabiam sem exceção a regra, concertar coisas, faziam tarefas que representavam sua masculinidade, habilidades e ainda eram cavalheiros. Perdoem-me as feministas e toda modernidade tão suada, mas bons tempos aqueles. Uma correção aqui e outra ali, no que tange a submissão e diferenças infundadas de direitos, tudo estaria indo muito bem obrigada.
Meninos hoje não jogam gude, não empinam pipa, não tem paciência com nada, nem veem nenhuma utilidade em tais brincadeiras que não ganham bônus e não podem publicar, nem ninguém curtir. Meninas não trocam papéis de carta, pulam corda, brincam de bambolê, boneca ou casinha. Tudo coisa de menininha boba.
Não vejo mais anúncios e o ofício manual e fascinante de empalhar cadeiras, não vejo mais engraxates. Tá feio? Sujo? Passa um pano ou joga fora e compra outro, são de péssima qualidade mesmo.
Até pipoqueiros ando vendo poucos por aqui e por ai. Será que só vai existir pipoca das do cinema num futuro próximo? Aquelas que custam o preço de um sanduíche e só tem porção monstra, sem aquela manteiga derretida, sem opção de colocar coco ralado, queijo ralado, leite-moça e outras esquisitices tão prosaicas.
Cadê os amoladores de tesouras, que passavam com a máquina de fiar, tipo um monociclo, que apitavam ou tocavam uma musiquinha. Cadê os vassoureiros e os vendedores de coisas em tabuleiros na cabeça que passavam gritando pelas ruas?
Por aqui havia um tal de Acaçá. Já ouviram falar, comeram, sabem o que é?

Eu não sei o que era, mas comia, de leite e de milho e adorava. Minha não dizia que fazia mal, que não sabia de onde vinha e todos esses cuidados apocalípticos de hoje em dia. Eu também comprava picolés desses que também não vejo mais pelas ruas, vendidos em isopor, que iam muito além de sabor chocolate e morango. Tinha de tapioca, umbu, tamarindo e o preço era uma delícia.

27 comentários:

  1. Nossa, quanta lembrança boa!
    empalhar cadeira! eu tinha um vizinho que fazia isso.
    Empalhava cadeiras para ganhar uns trocados, à noite, depois do emprego.
    E pipoca no carrinho? e algodão doce feito na hora, saia quentinho daquela roda de açúcar!
    As brincadeiras então...
    sou bem mais velha que voce Tina mas vivi isso tudo com muita energia e alegria.
    Meus filhos são de sua época, creio, e tem também muitas lembranças boas de brincadeiras de rua, sorvetes no isopor, pipoca salgadinha e quentinha.
    Muito bom isso! beijos querida.

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  2. Hora da saudade? Eu também sinto falta destes tempos e vejo que as crianças hoje tem na escola pedagogas, psicopedagogas, orientadoras, etc. etc. e são incapazes de ir até a esquina comprar uma bala sozinhos. Não podem porque não sabem se defender. Não podem porque estão assistindo TV. Não podem porque os pais sempre entregam nas mãos o que eles precisam. Estas frescurinhas todas eu aprendi na escola porque tinha aula de artes. E aprendi piano também. Estes conhecimentos são úteis até hoje e me ensinaram a ser criativa.

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  3. Amei o seu texto. Foi gostoso ler até o final! Se me permitir posso depois colocar no meu blog, com seu link?
    Bjos!

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  4. Tina, a chuvinha ficou um pouco mais agressiva e derrubou nossa internet. Faz tempo que não chove por aqui e a danadinha pegou as instalações elétricas desprevenidas, rs.

    Gostei da sua inspiração para essa postagem. Muito correto tudo que escreveu. Trabalhos manuais era matéria obrigatória nas escolas. Tinha que aprender e fazer os trabalhos senão não passava para o próximo ano.
    Tina, eu sou fascinado por conversar com pessoas como o Sr. Guillermo. Sabem tudo de vida e tem o maior prazer em nos ensinar.
    Essa geração que não tem habilidades manuais vai ter problemas na "melhor" idade. Sem habilidades passarão a "ranzinzar" pelos cantos e acabarão sofrendo com isso. Serão sempre rejeitados. Ninguém gosta de ficar ouvindo "abobrinhas" a toda hora.
    Atualmente é difícil você ver uma criança construindo uma pipa com papel de seda, linha e bambuzinhos. Quando empinam compram de isopor. É mais moderno, não é?
    É tão bom "passar o tempo" com trabalhos manuais. Não só passar o tempo como se dedicar ao artesanato. É um bom fortificante para a capacidade mental e equilíbrio emocional.
    Muito boa a postagem e melhor ainda foi a "cutucada" que deu nos comodismos atuais.
    Grande abraço
    Manoel

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  5. Uau, estou aqui muito contente lendo esse texto simples, direto, verdadeiro, real, e tão necessário. Quanta verdade você escreveu querida Tina. Você consegue colocar no papel aquilo q muitos de nós pensamos.
    Que bom ter conhecido seu blog, que bom ter a chance de vir aqui e sentir q o mundo ainda vai se recuperar dessa fase consumista e superficial que está nos rodeando.

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  6. Que texto lindo Tina, amei!!

    Realmente estou em falta com as visitinhas, é que final de semestre é realmente muito complicado, finalização de trabalhos, provas...
    Desculpe pelos sumiços, mas ao mesmo tempo é bom notar que algumas pessoas sentem nossa falta né! Obrigada pelo carinho!!
    Bjãoooooooooooo

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  7. Excelente texto, querida Tina. Eu também sou da época em que, ainda muito crianças, aprendíamos tantas coisas úteis...hoje em dia se perdeu o ensinar/preparar as crianças para a vida. Eu cresci aprendendo a cozinhar, a bordar, a cozer, a varrer, a lavar, a.... tudo e mais alguma coisa, e isso me enche de orgulho, pois posso dizer que sei fazer quase tudo.
    Beijos e bom fim de semana.
    Lita

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  8. Porque parou??? escreve mais. Concordo com vc em gênero, número e grau.
    Receba meu abraço agorinha bem forte e sincero guria linda!
    Amo você.
    ;)

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  9. Que delícia te ler,Tina!Empalhador de cadeiras me fez voltar ao rio, onde perto do prédio tinha um. E os picolés? Tudo de bom e NADA fazia mal...

    Adorei,Tina!

    beijos,lindo fds!chica

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  10. Muito interessante o Blog !
    Muito difícil encontrar na “ blogosfera “ espaços originais e bacanas como este !

    Deixo aqui meu espaço, caso queria dar uma olhada, seguir...

    http://www.bolgdoano.blogspot.com.br/

    Muito Obrigada, desde já !

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  11. Muito boa tua reflexão Tina! Também tenho saudades dessas coisas, aprendi com minha mãe o ponto cruz desde pequenina, e na escola o crochê. Saudade das brincadeiras na rua. Seu texto tem gosto de infância! Adorei! .))

    Bom fim de Semana!

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  12. Tina querida,
    Você colocou em texto o que vivo dizendo aqui em casa.
    Quando a gente chega a uma determinada idade em que já tem uma sobrinha de tempo, é muito bom ocupar as mãos com trabalhos que resultem em algo bonito e que nos dê prazer.
    Tenho pena das pessoas que vão adiando a aposentadoria até sair compulsoriamente, dizendo que não querem parar de trabalhar porque não sabem fazer nada! Uma lástima!
    Eu, graças a Deus, tenho é falta de tempo para fazer tudo o que quero.
    Beijo carinhoso.

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  13. Hoje pela manhã eu lia reportagem sobre as profissões que estão sumindo: o empalhador de cadeiras, o alfaiate, o tocador de realejo...
    E assim vamos jogando fora e fazendo uma montanha de lixo...
    Mas, vamos ao doce da postagem: estou ficando determinada a fazer um tour da pipoca: Manoel garante que o melhor pipoqueiro do mundo está na terra dele e na tua terra tem pipoca com coco ralado? Troco qualquer macarron por isto. Ai minhas lombrigas!
    Beijo

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    1. Estação da Lapa. Pense num lugar povão.
      Pense num lugar cheio, de gente, de vendedores ambulantes de td que vc imagine e não possa imaginar.
      E lá ficavam carrinhos de pipocas tradicionais, com saquinhos de papel tradicionais: pequenos, médios ou grandes e o preço para tds pequeno. Com aquele mexedor de pipoca de malhar o braço, cheiro que parece não ser coisa desse mundo, vidro com o preço escrito de tinta ao lado, manteiga derretida em potinhos plásticos dos de catchup´s das lanchonetes de antigamente. Esses saquinhos de plástico de rasgar não tem a mesma graça, nem a mesma quantidade tipo entupa suas artérias a vontade.
      E a pipoca incrivelmente estava sempre saindo e hj me pergunto como um só homem fazia, empacotava, passava o troco, não reclamava e ainda sorria, colocava a tal manteiga e o coco ralado, sim senhora, coco em lascas sob a pipoca.
      Sonho de consumo: uma porção de pipoca e uma de coco, queria ser amiga de um pipoqueiro só pra pedir isso :)

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    2. Esqueci de comentar que fiquei tentada a escrever sobre os alfaiates e tocadores de realejo.

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  14. Que texto gostoso de ler Tina! É tão bom relembrar essas coisas que eram/são tão boas e que hoje em dia infelizmente estão se perdendo... Adoro pessoas como o seu pai, acho muito interessante conversar com gente assim, que apenas com conversas, nos fazem viajar sem sair do nosso lugar. É uma pena que essas coisas que você citou esteja sumindo, tenho pena dessa nova geração que só quer saber de festas, bebidas, redes sociais, relacionamentos enrolados e que não valorizam as coisas simples e verdadeiras da vida.

    Ótima reflexão! Saudades *-*
    Eu sempre passava pelo seu Blog e de algumas pessoas, só que não comentava. Eu resolvi dar um tempo mesmo, mas agora estou de volta.

    Minha linda, obg pelo carinho e por não se esquecer de mim.
    Beijo

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  15. Oi minha linda, adorei o post, tenha uma linda semana e um ótima tarde de domingo, bjs!

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  16. Tina, aqui temos ainda amolador de tesoura que passa na nossa porta, carrocinha de pipoca e algodão doce na pracinha! Pedrinho adora comprar pipoca na carrocinha!
    Com carinho
    Pedro e Amara

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  17. Muito interessante o que ressaltou, Tina. Estamos diante de mudanças nas culturas hereditárias. Não tenho interesse total em aprender o que meu avô e meu pai sabem. Mas tenho muito prazer em poder ouví-los ensinar muitas coisas que talvez possam me ajudar no futuro. Meu pai já até brincou uma vez quando eu tinha uns 10 anos: "Você precisa aprender a abrir a latinha do leite condensado mesmo que, quando tiver um filho, um robozinho faça isso por você"

    Adorei seus escritos. Um abraço (:

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    1. Adorei essa do robozinho. Eu digo ao meu filho de 12 anos, sobre a falta total dele de interesse, atitude, destreza e o pior de tudo, paciência para abrir coisas: "Faça de conta que vc está no deserto, morrendo de fome e isso é a única coisa que vc tem e ninguém para te ajudar

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  18. Que achado este seu texto, Tina!
    Pois então, tenho o maior amor pelas habilidades manuais, as "prendas" como você mencionou! Não que as tenha de sobra, acho que deixei muito a desejar em meu tempo de adolescente, perdi por exemplo a oportunidade de aprender a costurar com minha mãe... Mas aprendi a fazer crochê, tricô, ponto cruz, entre outras coisinhas, e reconheço o valor que todas essas tarefas tem. Acho maravilhosos ver jovens que, a despeito de toda tecnologia, ainda encontram tempo pra aprender algo novo - lá do tempo de seus pais ou avôs! Não precisam deixar de lado a internet, mas por que não desenvolver talentos múltiplos? Estou certa de que qualquer um de nós é capaz!
    Por coincidência, justamente no último sábado as jovens de minha igreja tiveram uma atividade intitulada Excelência das Moças. Parte do evento era justamente a apresentação de trabalhos realizados e habilidades desenvolvidas ao longo de ano, e o resultado foi INCRÍVEL! Elas fizeram coisas sensacionais com recicláveis, bordaram para doar a uma mãe de quatro criancinhas, aprenderam técnicas de decoupage, fizeram trufas em preparação para o Natal, enfim, vi tudo que você descreveu na prática!
    Encerro meu comentário parabenizando-a por abordar assunto tão interessante, buscando resgatar valores quase perdidos em nossa época, mas que deixaram muita saudade. Um beijão!

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  19. Tina, voltei para dizer que compartilhei seu texto no Facebook, pois queria que as jovens que mencionei vissem que não são as únicas neste mundo que acreditam que ser moderna e ser prendada continua, sim, na moda! rsrsrs

    Beijo de novo.

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    1. Claro que coloquei seu link, inclusive compartilhei diretamente daqui, através da ferramenta que você disponibilizou :)

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    2. Vou no seu blog, a domicílio, te conhecer, comentar, responder e agradecer :)

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  20. Tina Flor! Estou lendo sua matéria e passa o carro na sua com o alto falante gritando:"Se sua panela não pega mais pressão, seu consumo de gas aumenta. É hora de arrumar a panela no carro do conserto! Amolamos, facas tesouras e consertamos panelas!!!!"
    Então olhei pela janela e fiquei feliz por morar em cidade de interior onde temos o carro das panelas, das frutas, do churros, do sorvete, do gáz, etc...!
    Adorei Tina!
    Bjs nutellosos e um ótimo final de semana em sua casa!
    CamomilaRosa


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  21. Sim verdade mas hoje tudo fica diferente...
    Beijo Lisette.

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