18 de maio de 2013

Contos, prozas e psicanálise

Inventaram agora uma tal de adultescência definida como sendo a situação de pessoas jovens, sem idade suficiente para ser, na média dos 35 aos 45 anos, que não aceitam o fato de estarem deixando de ser jovens, não assumem suas responsabilidades e tem dificuldades de fazer escolhas.
Será que é possível fazer uma pesquisa com os adultecentes para saber se eles leram ou conhecem a história de João e o pé de feijão?
Como serão os adultos de amanhã se essa classificação se extinguir e adultecência não ser mais uma deformação e sim a faixa etária após a adolescência?
Bruno Bettelheim, em A Psicanálise dos Contos de Fadas, faz uma maravilhosa relação metafórica entre esta dificuldade de aceitar a aquisição da maturidade com a história de João e o pé-de-feijão. Como anteontem por aqui entramos no mundo dos contos de fada, resolvi aproveitar a deixa e deixar essa reflexão para o final de semana.
De forma simbólica o autor desse livro faz uma viagem, trazendo os contos para a realidade contemporânea. Soube por sinal, através do post dos contos de fadas , de uma série chamada Once Upon a Time (Era uma vez) que tem entre muitas histórias, releituras e continuaturas (eu que inventei essa palavra) de contos clássicos e apresenta personagens pós histórias dos contos, que por conta de um feitiço lançado por uma rainha má, não se lembram de seu passado. Também soube de um livro de Pedro Bandeira no qual as história pós histórias, a vida das princesas com os filhos, maridos e afazeres cotidianos são narradas em enredos recheados de criatividade. Quero!
* Vejam só quanto rendeu um prozear sobre contos e encantos!
Voltando a psicanálise, no caso de João, aquele do pé de feijão, ser enviado de encontro ao mundo significa o final da infância e isso tem que ocorrer também na adolescência, encarando-se o processo longo e difícil de se transformar em adulto e o processo paralelo dos pais em deixar, admirar e incentivar a maturidade dos filhos.
A história do menino que luta internamente para se tornar um adulto, representa o conflito psicológico de todos os jovens, que passam e devem passar por essa fase. É o rito de passagem, no qual todos os aborrecentes aprendem lições que os fazem enxergar o mundo de forma mais racional e sensorial. Crescendo fisicamente, João, como todo jovem, necessita também crescer psicologicamente e a partir dessa necessidade se dá o conto e a criação de um lugar mágico, peripécias e a busca da resolução dos seus problemas. 
A mãe de João percebe que ele não é mais uma criança, algumas mães custam a perceber e se sente incomodada como muitas e insiste em manter o filho debaixo das asas. O encontro no caminho até a feira com o senhorzinho engraçado que lhe oferece trocar a vaca por alguns grãos de feijão mágicos, é o uso clássico de uma figura auxiliar, que aparece quando o protagonista está com dificuldades.  Ser um velhinho, representa sabedoria. Os grãos são o suporte para o protagonista alcançar seus objetivos, não são a resolução do problema de forma imediata, mas um instrumento, são o símbolo das vicissitudes, pois, ao serem enterrados, os grãos, na sua forma primitiva morrem e brotam em nova vida.
João escala o pé de feijão três vezes. Na primeira vez, ele traz uma sacola cheia de ouro que com o passar do tempo, irá termina. Na segunda vez, ele já não é mais o mesmo e rouba uma galinha mágica que coloca ovos de ouro toda a vez que for solicitada, isso representa ter domínio e responsabilidade sobre algo ou alguém e a necessidade de uma fonte de recursos que não se esgote. Renda, salário, profissão.
Na terceira vez o protagonista rouba uma harpa de ouro que canta as mais belas canções e poeticamente as vibrações do instrumento representam as aspirações espirituais. Vale salientar que o herói rouba por duas vezes elementos que alimentam as aspirações materiais da vida, no entanto, espiritualmente falando, segue pobre, de espírito e de equilíbrio psicológico que precisa ser preenchido, para arrematar, para dimensionar os valores materiais.
A leitura de João e o pé de feijão é ao meu ver uma ótima leitura para adultos, além de para crianças e adolescentes. Acho que seria muito interessante inclusive, as escolas adotarem esse clássico no ensino médio.
Acho também que vou descansar a tagarela e segunda eu volto. Até!

15 comentários:

  1. Esse não conto, não é simplesmente um conto, né! Há escritores que colocam tão bem a fantasia que voamos juntos com eles, e deixamos por breves momentos a idade, seja ela de adulto, ou de adolescente! abração

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  2. Lindo te ler,Tina! Tuas colocações, sempre pertinentes e dando o recado certinho!Adorei! beijos, bom descanso! Lindo fds!chica

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  3. Oi Tina!

    Muito legal ler esses significados sóbrio João e o pé de feijão. Não havia pensado nisso. Eu conheço um par de gente que se comporta como adolescentes e me falta a paciência bater papo com eles. Tenho até pena de tal comportamento juvenil.

    Fiquei curiosa sobre o livro que você citou. Vou procurar.

    Desejo um final de semana iluminado pra ti!

    Beijos

    Selma

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  4. Ai Tina,
    Conheço váriooooos adultos assim, uma pena! E o mais engraçado que percebo é que para eles NÓS somos os chatos, os responsáveis! Não curtimos a vida .....
    Gostei do post, e assisto Once Upon a Time, adoro! Há mensagens ótimas na série, fora a linda fotografia, vale a pena! Um beijo cheio de borboletinhas a vocês,

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  5. Oportuna e interessante a sua colocação sobre este conto. Sabemos que é difícil amadurecer, mas é necessário ultrapassar as fases para que possamos crescer. E esta geração que gosta tanto de um videogame, de vencer etapas nem sempre consegue trazer esta competição para a sua vida. Os pais contribuem muito para esta realidade porque nem sempre entregam os grãos de feijão para os seus filhos e a proteção exagerada corta a sua capacidade de voar. Uma amiga veio entregar o convite de formatura do seu filho na universidade. Estava muito triste e a sua explicação foi de que o filho ia ficar independente e ela não ia cuidar mais dele. Não resisti e perguntei: como será a entrega do convite de casamento??

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  6. Amiga, só li o clássico infantil, que é logicamente reduzido. Fiquei com vontade de ler o original e atenta às ressalvas que vc fez com tanto primor! Bom fim de semana, com muitas inspirações! Beijos!

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  7. Tina, gostei da tagarela (parece tarantela, mas é bem diferente!). Descanse um pouco sim. Eu escreveria exatamente isso que está no seu texto. Tem horas que eu até assusto por pensar exatamente igual à tagarela. Coincidência?! Deve ser, mas se não for, nem interessa o que será. O importante é que acontece.
    Manoel

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  8. Tina, você sempre trazendo uma proza muito culta e agradável!
    Interessante esse simbolismo de João e o Pé de Feijão e sua aplicação tanto na adolescência quanto na adultecência. Lembro de ter feito análise de contos de fadas e de histórias infantis quando estudei literatura infanto-juvenil na faculdade... Recordo-me especialmente do trabalho que meu grupo fez a respeito de O Reizinho Mandão, que também é repleto de aplicações para adultos e crianças.
    Bom relembrar tudo isso, Tina! Por esse e outros motivos que gosto tanto de vir aqui ;)

    Beijo carinhoso, e um lindo domingo para a tagarela inteligente da blogosfera!!! rsrs

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  9. Uma reflexão tão imensa quanto o tamanho do pé de feijão. Crescer, transformar-se, rito de passagem, pais cangurus...
    Vou apenas deixar uma definição do Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento:
    Adolescente: toda criatura que tem fogos de artifício dentro dela.
    Bj

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  10. Oi Tina,
    Adoro os seus textos!
    Acho que um dos fatores que contribuem para essa dificuldade em se tornar um adulto, é que as pessoas estão se casando mais tarde e com isso demorando mais para assumirem as responsabilidades! Será?
    Beijos

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  11. Olá Tina,lendo seu blog, fiquei pensando no João do pé de feijão e acho que a maioria de nós ainda esta procurando a galinha dos ovos de ouro e muito poucos já estão buscando a arpa. Mas, tudo é uma questão de tempo a evolução tem que vir e virá, tenho fé nisto.
    Vou falar também sobre isso quando falar das minhas férias...
    Gostei muito da sua abordagem.
    Bjs.
    Vania

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  12. Tina,eu sou fã das suas tagarelices!...rss...Muito interessante a abordagem desse conto e há mesmo muito a trabalhar com os jovens em sala de aula.Boa dica!bjs,

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  13. Nossa que aula amiga!! Vou reler joão e o Pé de feijão e olhar ele com outros olhos..Abraços.Sandra

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  14. Que super,esse texto!
    Já dizia Cazuza, “... o tempo não para...”.
    Acredito que têm muito mais gente com a Síndrome do Peter Pan que eu possa imaginar. É triste essa realidade.

    Beijos!

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  15. Os contos de fadas têm muito mais do que a fantasia em si. Eles são extremamente representativos; estão cheios de mensagens que, com o tempo, serão melhor entendidas. É por isso que concordo com você que devemos lê-los em outras fases da vida. E para lê-los em outras fases, devemos ter começado desde crianças.

    Fico feliz de ver minha indicação aqui! :)

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