15 de julho de 2013

A semente e os frutos

Em um papel ofício dobrado e amassadinho vindo lá das terras portuguesas, mais precisamente da Fundação José Saramago, pelas mãos de meu irmão amado (para puxar o saco e não perder a rima), palavras de José e sobre ele, entregues na exposição permanente que há lá Fundação, chamada: A semente e os frutos.
Lembrei dos tempos de Faculdade, fiz o curso de Letras Vernáculas e havia uma matéria chamada Metodologia científica, que deveria ensinar sobre métodos de estudo e pesquisa, mas o professor dava umas viajadas além do conteúdo curricular. Lembro que em um de seus dias de inspiração ele discursou sobre sermos o que semeamos, sobre uma semente de macieira gerar invariavelmente maçãs. Simples e filosófico assim! Para se pensar e praticar.
Voltando a Saramago, das primeiras linhas do tal papel, que vou espremer como laranja cheia de sumo, separei um trechinho para trazer para cá:
"Vivemos ao lado de tudo que é negativo como se não tivesse importância, a banalização do horror, a banalização da violência, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo. E enquanto a consciência das pessoas não despertar isso continuará igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na carência de vontade, para diminuir a nossa capacidade de intervenção cívica". Palavras dele uma entrevista em 20 de fevereiro de 1994. A 19 anos atrás e tão atual, lamentável.
Tanto nós como o mundo em que vivemos é o que plantamos. E depois de pesquisar sobre a Fundação e andarilhar pelas terras, plantações, sementes e frutos desse autor que adoro, descobrir um ingrediente a mais no meu gostar dele. Amo azeitonas e Saramago amava oliveiras. Descobri que ele plantou em sua casa uma oliveira levada entre suas pernas no avião de sua terra natal. Aterrizou na ilha de Lanzarote sã e salva a viajante e ele cuidou para que ela se adaptasse vento forte e ao solo rochoso do lugar.
Numa cerimônia no primeiro ano de sua morte foi plantada uma oliveira centenária transplantada de lá de Azinhaga (sua terra natal) e ali foram colocadas suas cinzas. No local diante da Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago, há um banco de jardim e uma pedra mármore que faz as vezes de lápide, com uma frase do seu livro Memorial do Convento: “Mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia". 
A relação entre ele e a árvore foi eternizada e esse ano poeticamente reforçada com a plantação de uma oliveira de aço de cinco metros de altura em homenagem a ele, no mesmo local. As iniciais do seu nome compõe a escultura, um J no tronco e muitos S em suas copa.
Semeada a minha vontade de ir lá ver de perto, histórias Saramaguianas contadas, o recado de plantar para colher dado, deixo para finalizar meu desejo de uma frutífera semana a todos.

11 comentários:

  1. É um imortal da literatura mundial, e uma página remete a outra e sentimos o desejo de devorar seus livros! Não sabia sobre a paixão de Saramago pelas oliveiras: inusitado, ele! abraços e boa semana

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  2. Vez ou outra a gente se sensibiliza com uma morte, com uma tragédia, fatalidades em geral, que chegam aos nossos olhos. Muitas coisas dispensamos. Cada um de nós já se atarefou muito para abrir os olhos para coisas que acontecem ali do outro lado do globo ou mesmo na comunidade mais pobre da cidade. E vivemos tanto nessa normalidade, que se tornou normal. E a intervenção caminha para o lado da inércia.
    Que bom descobrir um pouco mais sobre o sr. JS!
    Abraço

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  3. Vou plantar também a semente da vontade de olhar, sentir, talvez tocar o J no tronco.
    Professores que viajam e nos carregam assim sem destino numa aula, que bem nos faz.
    Beijo

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  4. Saramago é fantástico e não sabia desse amor dele pelas oliveiras, tão portuguesas, tão terra natal. Quando der, procure uma entrevista dele sobre o Mito da Caverna de Platão. Tem a ver com o que vc escreveu! Beijinhos e ótima semana!

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  5. Não sabia que Saramago tinha paixão por oliveiras Tina ;) Bem diferente!!

    Beijos e uma ótima semana para vc!

    Nanda Pezzi

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  6. Seu texto nos leva a buscar mais de Saramago. E que de suas palavras possamos tirar lições de vida.

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  7. Tina,muita coisa não sabia sobre Saramago e achei um texto bem interessante!Infelizmente vivemos uma era de individualidade,é verdade!Precisamos de mais boas sementes!Bjs e boa semana pra vc!

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  8. Que legal Saramago gostava de Oliveiras!
    Tina, meu post da Semana Colorida da Tia Anne foi sobre frutas também!
    Um abraço e um beijo
    Pedro

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  9. Tina
    Vir aqui é sempre a certeza de que vou encontrar muitas oliveiras frutificando.
    Embora já tenha tentado ler Saramago e não terminado, sempre é bom saber mais sobre êle.E sua escultura de aço com J no tronco também me despertou a curiosidade de ver de perto.

    Lindos dias para você.
    Bjs.

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  10. Interessante vc falar sobre nossos sentimentos sobre a morte!
    Eu estava conversando aqui em casa sobre o descaso que temos com explosões no oriente medio! Já parou pra pensar quanta gente morre por dia lá e aqui vemos isso como uma noticia comum!
    Eu me sinto mal por sentir essa falta de sentimento!
    Credo, ficou estranho kkkkkkkk

    Beijao! Divaguei!

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  11. Lendo a sua crônica, eu me lembrei de um poema q escrevi e encerra assim: "que minhas cinzas sejam jogadas no encontro do Rio Grande e São Francisco, o epitáfio será escrito pelas suas águas". Bjos.

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