17 de julho de 2013

Naturezinha particular

"É por demais de grande a natureza de Deus
Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal
No quintal ia nascer um pé de tamarindo apenas
Para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves
Para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais
Eu queria que no fundo corresse um rio
Na verdade, na verdade
A coisa mais importante que eu desejava era o rio
No rio eu e a nossa turma
A gente iria todo dia jogar cangapé nas águas correntes
Essa, eu penso é que seria a minha naturezinha particular
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar"
Poemas rupestres é o nome do livro de Manoel de Barros onde foi publicada essa poesia ai de cima, chamada: O lápis, da qual foi retirada a frase bordada por uma passarinha chamada Helga na almofadinha de meu sobrinho que apareceu na foto que postei sábado aqui.
Os escritos do livro são fruto da infância do autor, inspirados na natureza e que a retratam poeticamente, falando de pedras, árvores, bichos, água, terra, sentimentos e sensações, de uma maneira pulsante, simples e metafórica. 
Acho quintais poeticamente e vivencialmente sensacionais e defendo que devia estar no estatuto da criança, do adolescente e do idoso, direito a um quintal. No do poema de Mané o pé de tamarino é dos pássaros e o rio, a parte mais importante, é símbolo de diversão e quem sabe não seja de treino para vida.
Uma curiosidade (que eu não sabia e pesquisei) é sobre o tal Cangapé que nada mais é do que uma brincadeira de pega-pega no rio, de onde alguém brota do fundo das águas determinado a derrubar quem está ao alcance. Estudiosos e leigos referenciam as brincadeiras de infância a lições e treinos para vida e um treino dessa brincadeira bem pode ser o de se preparar para situações daquelas que aprecem do nada, prontas a nos darem rasteiras, a testar e surpreender nossas habilidades, destreza, astúcia, medo. Na brincadeira e na vida, do leito a corrente, cada um tem que se defender e quem se prepara, quem treina brincando tem mais chances de sucesso quando não for brincadeira.
Nadando até o final do poema, declaro que amo cotocos de lápis para desenhar e escrever, de preferência com pontas gastas. E é com a pequenice da ponta do lápis que Manoel define a grandeza de se ter uma naturezinha particular, criadora, inventiva, fértil. Que assim plantemos e colhamos nossos canteiros, hortas, florestas particulares e o infinito ao nosso redor.

10 comentários:

  1. Como não sei usar o lápis e as palavras nem sempre aparecem do jeito que quero, vou aprender a desejar uma natureza só minha, do tamanho do meu coração.

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  2. Oi Tina,
    Não conhecia este poema do manoel de Barros e achei maravilhoso. me fez refletir sobre a minha infância.
    Que vc tenha uma ótima quarta-feira.
    Bjs

    GOSTO DISTO!

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  3. Ah, obrigada por responder minha curiosidade sobre a frase na almofada. E o pé de tamarino... amei! Já escrevi uma vez sobre esse gosto doce atrás do aparente azedume. Lindo, querida Tina. Queria brincar sempre num quintal. Acho que rejuvenesce!

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    1. Olá Tina, voltei para corrigir: é tamarindo! Beijos e boa noite! :)

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  4. Que lindo poema!
    Como amava meu quintal, ele tinha abacateiro que virava um grande prédio, tinha goiabeira, jabuticabeira que parecia condomínio de temporada onde periquitos, abelhas e vários pássaros apareciam na época das jabuticabas e faziam grande alvoroço.
    Tinha plantação de mandioca onde eu fazia minhas casinhas.
    Que bom que tive quintal, que bom que vc me fez lembrar dele.

    Beijos flor!

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  5. Maravilha te ler,Tina! Escreves com coração e bodas palavras!bjs praianos,chica

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  6. Oi Tina, sou de Petrolina-PE, conhece essa cidade?
    Sou nova no mundo da blogosfera, trabalho como artesã, estou divulgando meu trabalho através do blog, vem conferir?
    bloghelenarte.blogspot.com.br/
    Espero que goste.
    Helena Porto

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  7. Bela escolha, beijo Lisette.

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  8. Helga bordou. Então que tenha seu sobrinho uma naturezinha particular, um quintal cheio de risos, de preferência, mas necessário, um rio para brincar de Cangapé e a tia com cotoco de lápis para escrever todas as arterices da infância!
    Beijo

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  9. Bati o olho no poema e lembrei-me que já havia visto a expressão "naturezinha particular" em algum lugar. Aí lembrei da foto do sobrinho com a tia coruja!

    Quando falou em quintal, recordei o que havia na minha antiga casa. Com direito a goiabeira. Subia e descia do pé todo dia, brincava, pegava goiabas, fingia ter uma casa na árvore (e sonhava em ter uma). Já até caí de nariz no chão, por sorte não aconteceu nada internamente, mas fui para a escolinha com o nariz ralado por vários dias...

    Um casal de amigos morava nuns prédios populares da cidade. Sem área de lazer nem nada. Era um cubículo. Quando tiveram o primeiro filho, mudaram-se para uma casa com um quintal enorme e fizeram bem: depois do primeiro menino veio mais outro e depois uma menininha.

    Texto muito bom, amiga Tina.

    Abraço.

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