4 de setembro de 2013

Sobre meninos, goiabas e palavras

Sou fã do Chico Bento e acho que já disse isso por aqui. Nhô Lau eu só gosto do nome, muito chato ele esbravejar por conta de pequenos afanos na ruma de goiabas que ele tem dependuradas nas goiabeiras de sua fazenda.
No quintal da casa de meus pais tinha uma goiabeira, na verdade ainda tem, só que tá bichada. Pratrasmente subi muito nela para pegar goiabas ou tirar folhas da calha. Também cutucava os araçás, como chamamos aqui as goiabas brancas por dentro, como eram as de lá, com uma vara que tinha um saquinho na ponta, feita por meu pai.
Comi muitas lavadas e ainda molhadas, outras sem lavar, para ter gosto de céu e bico de passarinhos. Encontrar meia minhoca nunca foi um pensamento que me inibisse a comilança. Minha mãe fazia compota e eu também caia de boca.
No mundaréu que é a internet e nas descobertas trocadas via e-mail com a amiga Ana, juntas saboreamos muitas goiabas de um tal menino das goiabas verdes, que se chama Marcílio Godoi. Imagens, poesias, crônicas, sensibilidade de passarinho que pousa, canta, olha a paisagem, se deixa fitar por nossos olhos e se vai deixando o fruto pra gente. O blog não tinha muitas visitas e comentários e lá se foi ele pousar seus versos e prosas na terra tão fértil e mal utilizada do Face. É preciso perfis como o dele por lá, eu pensei no ato. Que faça boas semeaduras então, ensine as pessoas a se alimentarem de palavras saudáveis e a curtirem e compartilharem o que é bom. Segue de aperitivo, um trecho de seus escritos:
"A poesia o pega no elevador. Em flagrante correria, entre espelhos um de frente para o outro, você vê de relance sua própria imagem se refletir ao infinito, milhares de vezes repetidas numa curva espiral. Você sorri amarelo, pensa que amanhã vence o aluguel e, sem tempo para essas surpresas da poesia, aperta nove vezes o botão do andar térreo.
Você ganha rapidamente a rua e a poesia o aborda de novo na calçada, com um tapete de pitangas caídas de uma árvore que sempre esteve ali, mas que você jamais supôs ser tão portentosa e perfumada pitangueira. Você esmaga solenemente alguns frutos com o sapato e entra no primeiro táxi que lhe aparece.
Dentro do veículo, a poesia fica lhe espremendo contra o estofado, apontando para o canário de plástico que brinca no retrovisor do taxista e também para o esfiapado de retalhos coloridos do trono de rei momo do assento dele. Você se inquieta, a poesia saúda a florada de ipês rosas e amarelos que passam apressadas pelo pára-brisa, assaltando a paisagem lá fora."
Olhos de poesia e paisagens com ipês, ingás, canarinhos, coleirinhas, amendoeiras,  rios, mares, cerejeiras, oliveiras, pombas e goiabeiras nas nossas vidas, seja no cotidiano ou viagens e sempre por dentro.

17 comentários:

  1. Oi,Tina!

    Que lindo esse texto,adorei! Mas tentei acessar o perfil e não o encontrei. Será que estou com minhocas no lugar do cérebro? Se puderes, dá uma olhada e me passa o certo,tá?

    Por falar em minhocas, nunca mais as comi goiabas ,desde que vi uma delas me olhando zoinho nos zoinhos,rs... beijos,chica

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  2. Eu, marido e crianças apreciamos muito as goiabas, a sombra da goiabeira e nos alimentamos com as palavras, os escritos do menino Marcílio. Ficou um vazio.
    Marido ainda sonha em encontrá-lo num jogo do Cruzeiro e diz que vai reconhecê-lo porque ele tem olhos que percorreu as paisagens das Gerais.
    Não é compota, mas acabou de sair do tacho: "A inacreditável história do diminuto Senhor Minúsculo" de marcílio Godói, prêmio Barco a Vapor.
    Estou tentando comprar o meu, mas pelo jeito, por enquanto, só lá na Bienal do Livro.
    Sou paciente. Daí a pouco, a vapor ou a jato, chegam nas livrarias daqui!
    Beijo
    (*V*)

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  3. Subi muito em goiabeira, muuuito rs
    Em goiabeira, mangueira, jambeiro, era uma menina que parecia mais um menino. Deixava minha mãe louca, nunca quebrei uma perna ou braço, só um dente(permanente).

    Araçá, aqui, é outra fruta. Bem parecida com goiaba, mas não dá pra comer mordendo. Muito ácida. Fazemos sucos e cremes.

    'Olhos de poesia'. Alguns nascem com 'olhos' assim, coisa de alma. Outros precisam treinar o olhar.

    bjs

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  4. olá de novo...
    fiquei feliz ao ler o post...descobri que a poesia me acompanha sempre.
    E falando em árvores e em infância, lembrei da ameixeira do quintal do meu tio, quando maduras....hum...delícia.
    Que atire a primeira pedra quem não usufruiu de frutas alheias.
    bjão
    Mari

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  5. Bom dia Tina!!!
    E voltei na minha infância...passei uma situação semelhante com meu irmão...estávamos em férias...visitando minha madrinha, ele pulou o muro e foi roubar goiabas na vizinha...gritei: _ Chico Bento óia a onça!!! (Era a dona da casa chegando) Ele despistou dizendo que ia tratar dos porcos. kkkkkkkkkk Foi pura farra...mas comemos muitas goiabas docinhas...
    Quanto ao projeto dos lenços...estou aguardando seu email.
    Aproveito para lhe desejar uma semana repleta de bençãos e alegrias...
    Bjokas...da Bia!!!

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  6. Lá em casa tem um pé de goiaba, mas gostei mesmo foi dessa sua percepção de juntar um pouquinho da sua poesia com a do Marcílio. Pena que não conheci do blog. Seguiria-o sem pestanejar! :) Beijos engoiabados!

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  7. Agora entrou um cisco aqui no olho, que não quer sair. Deixa estar, deve ser da goiabeira. Obrigado, Tina.

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  8. Adoro passar por aqui, Tina, seus posts são sempre uma delícia de ler!

    Não sou muito fã de goiaba e, se comer, pico antes em pedacinhos minúsculos para garantir que não tem nenhum "morador" hahaha!

    bjs e um ótimo dia pra você

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  9. Nossa...lendo seu post voltei para minha infância e um ar de nostalgia me tomou! Frutas no pé, vivendo como Chico Bento (que agora cresceu e tem historinha em mangá feita pelo Maurício - minha filha já comprou o primeiro volume este mês e ele se tornou um lindo rapaz de 18 anos, enfim, Meu Pé de Laranja Lima, onde eu dava nome para minhas árvores e os poemas, muitos poemas!
    Grito alto...que poetas ainda existam por muitos e muitos anos, falando da natureza, do coração e da alma!
    Beijos Tina Flor!!!
    CamomilaRosa

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  10. Boa tarde Tina!!

    Hj o dia está bem corrido para mim... vim te deixar um beijinho ;)

    Depois volto para ler seu post #adoro

    Beijooooo

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  11. Ai que vontade de comer esta goiaba!!! Assim, bem caipira, sem gosto de supermercado. Morei 20 anos em uma casa com goiabeira. E todos os anos passava dias fazendo doce de goiaba, daqueles de "orelha". As goiabas eram brancas mas eu queimava o açúcar e o doce ficava vermelhinho. E marido ajudava, tirando as sementes. Um dia perguntei: "Não acha romântico nós dois aqui, fazendo doce?" E ele respondeu: "Romântico é morar em cima de um supermercado e descer para comprar o doce pronto. Isto dá muito trabalho!". Obrigado por trazer esta lembrança neste dia de chuvinha miúda, com muito frio.

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  12. Tina no seu jeito de escrever, as goiabas ficam mais doces, mais saborosas e despertam em nós tantas saudades...
    O Marcílio me pareceu muito bom nas suas poesias, quem sabe ele retoma uma hora dessas o blog e nos faz felizes com elas?
    Muito gostoso passar por aqui.
    Bjs
    Vania
    P.S. Repassei aquele seu post para aquela menina dos lenços, acho que ela vai amar.

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  13. Lendo você , senti saudades do tempo de infância, onde muitas travessuras fazia.
    Beijos.

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  14. Hum... goiaba é goiaba, araçá é araçá. Eu quero encher meu quintal de araçás. Goiabeiras já tenho umas 3 ou 4. E se estão bichadas é só colocar inseticidas. Melhor: fumo, para não contaminar as frutas. Sorry, adoro esse assunto. Bjs.

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  15. Que texto lindo amiga Tina!
    Achei o aperitivo tão mais tão deliciosamente bom, que fiquei com água na boca.
    Ele escreve muito bem, e muito sabiamente. Simplesmente lindo!
    No meu quintal ainda não tem goiabeira, mas a amoreira me encanta do mesmo jeito!

    Um beijo!
    Jhosy

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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  16. Apesar de sempre ter morado em 'cidade grande', goiabas sempre me remetem à infância tb. Será culpa do Chico Bento mesmo? rs
    Adorei o texto, viu!!
    Bjns
    :)

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  17. Já tive pé de goiaba no quintal, mas me mudei de lá. O pé caiu também, tadinho. Outra queda também foi a minha, estava fazendo arteirices no galho e caí de nariz no chão! Não desisti de subir. Nasceu a cautela, mas continuei a desbravar os galhos e a comer fruta do pé. Mamãe fazia muita goiabada. A parte mais chata era varrer o quintal, que ficava forrado de folhas.

    Adorei o texto, o trecho e as goiabices :)

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