11 de outubro de 2013

Olha o passarinho!

 
"Pela lente, zum
Acertei o pássaro em cheio
E bem no clique me veio
Teleeobjetivamente um não saber
Se o guardava ali pra sempre
Ou (receio)
Se de algum modo o abatia em minhas retinas
Que não o enxergaram
Pleno da pureza desarmada
Que seria tê-lo visto sem retê-lo
Depois apaguei a imagem do aparelho
Aliviado em fazê-lo
Como quem liberta um canarinho breve da gaiola
Pixeleve
Para o céu do instante"
Passaverso de Marcílio Godoi
Que o gato lá embaixo não leia o título e resolva mudar de post. Brincadeirinha a parte, o assunto hoje é a frase que acompanhou por muitos anos a hora de tirar fotografia quando antigamente as pessoas se posicionavam, arrumavam-se cuidadosamente, estampavam um sorriso no rosto sem muitos exageros ou ficavam sérias a depender da ocasião. E sabem de onde veio essa expressão apassarinhada?
Segundo o que dizem, a famosa frase surgiu quando foi inventada a máquina fotográfica, no fim do século XIX, quando o tempo necessário para fixar a imagem, por conta dos equipamentos, era mais demorado do que hoje e para tal, as pessoas tinham que ficar concentradinhas, olhando fixamente para a lente do retratista (como era chamado o fotógrafo), que costumava colocar uma gaiola com um passarinho acima da máquina para todos olharem para um ponto que ao mesmo tempo fixasse o olhar e distraísse, que fizesse sorrir ao se pronunciar as palavrinhas mágicas.
Hoje, as imagens são capturadas em milésimos de segundo e tudo é fotografado o tempo todo, sendo que muito pouco é revelado, não se coloca mais datas nas fotos, não se monta álbuns físicos, tudo fica entulhado em aparelhinhos que podem quebrar, ficarão obsoletos e serão colocados de lado, muitas vezes sem o cuidado de transferir os registros que se perderão no tempo e o tempo de um retrato não volta mais.
E nessa onda se fotografar tudo o tempo tempo, as vezes é preciso que meia dúzias de pessoas na mesa fotografem o vinho, a salada ou a sobremesa para se poder se servir. Somos fotografados e compartilhados sem nenhum senso de individualidade. Arrancamos flores que ao chegar em casa pousamos na mesa e nem sequer damos água, podendo ela ter ficado viva e triunfante em seu lugar de origem, assim como fazemos crianças, idosos, amigos, animais, cenas se congelarem para um clique, geralmente vários, sendo mais vivaz não parar o momento, guardar na memória, vivenciar e depois ou durante, sem exigências, fotografar com sensos de conveniência e oportunidade mais apurados.
Tanta gente hoje diz que gosta de fotos, mas na verdade fotografar se tornou uma mania, sem interesse pelas técnicas, sem vivência dos momentos capturados pelas lentes, um forma de exibição, realidades e histórias criadas em cima do que é clicado e não o inverso. O por do sol acontecendo e geral fotografando e um ou dois assistindo para depois clicar o que viu ou não, nem tudo tem que ser registrado, como se fossem preciso provas e fontes táteis de recordação. Fogos do ano novo e antes da comemoração, desejos, rituais, a foto do que talvez nem dê tempo de comemorar pois vai compartilhar, comentar etc.
Muitos retratos tirados hoje em dia tem como história o retrato e só. Chegasse num lugar e antes de cumprimentar todo mundo, mil fotos e no meio da celebração mais fotos e antes de ir embora, outras tantas e isso é muito chato. Como disse quintana: "No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não consegue levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro de poemas, cheiro que tinha um dia o próprio vento".

9 comentários:

  1. Lindo,Tina. Lindo paasverdo do Marcelo e a foto... E tenho aqui em casa ,um adepto da demora pra fotografar. o Kiko. Demoooooooooooooora, olha, ajeita e sai uma droga,sr Eu sou rapidinha e detesto poses formais! beijos,tudo de bom,chica

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  2. oi Tina

    sempre aprendo tanto aqui.
    Hj o povo tira foto no espelho pra postar no face ... kkkk
    Brincadeiras a parte, acho lindo a arte de fotografar.
    Capta não só imagens mais a alma e sentimentos tb podem ser vistos em uma imagem.

    bjokas e um lindo dia das crianças pra vc =)

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  3. Olá!
    Vim conhecer seu cantinho, vi seu link no blog de uma amiga!
    Amo tirar foto, registro todos os momentos que posso.
    Parabéns pela postagem gostei muito!
    Já vou ficando por aqui, seguindo!
    Fica o convite para conhecer o meu blog, será super bem- vinda!
    Tenha um ótimo dia!
    Com carinho

    Blog: Femme Digital- Mãe, Esposa, Mulher!

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  4. Tina, pior que é bem por aí mesmo... Ontem resolvi organizar umas caixas de fotos de família e percebi o quanto tudo ficou passageiro depois que inventaram as digitais. Eu mesma sou viciada confessa: fui almoçar com uma amiga logo ali na prefeitura e voltei com umas 50 fotos tiradas no caminho, hahahahahaha, mas, por outro lado, acho que aprendi a observar melhor o que está em volta depois que passei a fotografar muito! Sei lá, coisas da vida, né?

    bjs e um ótimo final de semana (e feliz dia das crianças também!)

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  5. Eu juro que tentei me concentrar no texto... mas a imagem me remeteu a uma canção...
    "A todo mundo dou psiu... procurando por meu bem... tendo o coração vazio, vivo assim a dar psiu sabia vem dar também"

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  6. Muito legal, Tina. Obrigado pela citação de meu poema (aceito de bom grado o seu neologismo "passaversos")
    Lembrei-me de uma conversa que ouvi entre duas pessoas em um ponto turístico:
    - Não vejo a hora de chegar em casa para ver as fotos desse lugar.

    Bj,
    Marcílio

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  7. A fotografia deu um pulo e cá entre nós, foi ótimo este pulo
    afinal acabou os fimes, revelaçao eu adorei.

    bjs

    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com/

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  8. Tina, tenho um tio que me ensinou o gosto pela fotografia, e durante mto tempo eu apreciei esse gosto, contudo, com o surgimento de câmeras digitais, perdeu-se a magia, o encanto. Hoje fotografo, não com tanta constância como antes, não com tanta magia como antes. Bjos.

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  9. Passaversos pelas lentes poéticas de Marcílio é especial!
    Desconhecia esta da gaiola com passarinho em cima da máquina do retratista. Adorei saber!
    Beijo

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