26 de novembro de 2013

De mal com a Bienal

Esse ano definitivamente joguei a pá de cal na Bienal. Não sei se em todos os lugares Brasil a fora é como vou descrever o que sempre vejo na daqui de Salvador, mas vergonhosamente, tenho para mim que sim.
Esse ano pensei seria diferente aqui, mas não foi e apesar de achar que meu depoimento e queixa não vão mudar nada, tenho um fiozinho de esperança boba, crença em milagre, idealização de que mude um dia, se não, pelo menos não engulo a seco.
O produto globalizado e com respaldo que é o evento, com a mídia que tem, o valor social, econômico, cultural, educacional, num espaço físico gigantesco (aqui sempre é em um grande espaço), apoios políticos e privados e o que se tem é um monte de livros encalhados, velhos, promoções e mais promoções de livrinhos infantis de colorir e historinhas onde temáticas educacionais e qualidade literária dão lugar a brilhos, sons, exemplares defeituosos, que devem ocupar espaço nas editoras e livrarias, dispostos sem nenhuma magia.
Nos livros para jovens e para todas as idades, precariedade total de títulos, de cuidado, de ordem seja alfabética, por autor ou por assunto. Pilhas e mais pilhas, sem preocupação com o manuseio e circulação das pessoas, ninguém para instruir, tirar duvidas, disposto e capaz de falar algo sobre os títulos, autores, editoras, ali ofertados, apenas atendentes que tiram recibos.
Nenhuma decoração, trabalhos escolares, artísticos, painéis com frases, nomes de autores, fundo musical que fale de livros, de leitura, de literatura. Declamação de poemas, de trechos de livros famosos. Uma barulheira, um vai e vem de sacos, sem som, sem tom, sem clima cultural.
Palestras e oficinas em horários únicos, com espaços fechados ínfimos e seletivos para participação. Muitos convidados de pouca representatividade, modinhas e afins, não muito próximas ao que se deve exaltar, ao que no mercado hoje, nacional e mundial se tem para valorizar, incentivar, vender. Muito longe do que desejam leitores e escritores de plantão que vão a bienais. Lamento inclusive pelos que não gostam de ler, que indo provavelmente saem gostando menos ainda.
Os poucos escritores com algo a dizer, conhecidos e reverenciados, são colocados ali no pouco para o que são: pouco público, pouco conteúdo, pouca vitrine, pouca ou nenhuma possibilidade efetiva dos presentes de aquisição de suas obras que ali provavelmente não estão a venda ou será difícil localizar um exemplar em meio a tanta desorganização.
Cabia um espaço para itens como prateleiras e estantes criativas para os livros em nossas casas, marcadores de páginas e artigos de papelaria em geral.
Nenhuma prateleira exclusiva, nem mesmo visto em destaque dentre os livros não procurados tão abundantes, Toda poesia de Leminsk, por exemplo, obra merecedora de um banner, uma faixa, seu rosto exposto, bigodes pendurados como bandeirolas e tudo que honrasse seu feito de estar no top de vendas com um livro nacional e de poesia.
A presença em excursão de escolas, não, não vi nenhuma, nem meu filho em nenhum das que estudou foi convidado. Vi alunos em grupo pequenos com fardamento de colégios públicos deslumbrados frente a algumas obras bem populescas e pouco recheadas de saber.
Nenhum stand para novos escritores, oportunamente e decentemente organizado, com pessoas e empresas para informar, incentivar. Grandes editoras e livrarias sem exibição, nem que fosse numa estante de vidro com chaves de toda ou parte significativa da obra de Drummond, Pessoa,Guimarães Rosa, Jorge Amado (que merecia aqui ao menos, uma ilhazinha, um quiosque, uma instalação literária, visual, cenográfica de suas obras tão baianas). 
Uma oportunidade deveria ser o evento de se ver ou adquirir todos os livros que faltam na coleção de Saramago de alguém, ou de Paulo Coelho, Rubem Alves, Manoel de Barros (Quem? Nem se sabe quem é ele em muitos dos estandes). Que horror! Não estavam nem mesmo por lá, muitos deles, nem mesmo representados nos livros velhos, amarelados e com os preços baratinhos. Zero de qualidade literária, expositiva, incentivadora, comercial. Preços e quantidade, para se livrar é a visão da Bienal, como uma nau furada e muito mau conduzida.

12 comentários:

  1. Depoimento com a indignação justa e bem fndamentada. Acredito que deverias mandar para os órgãos competentes. Não custa tentar e, no mínimo, tua parte estás fazendo pra tentar melhorar e ajudar nas próximas. Se eles lerem, é claro!!! tem isso ainda! Tantas reclamações nem são lidas!

    beijos,chica e lindo dia!

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  2. Oi Tina, que horror! Fiquei triste lendo esse post seu, menina....
    Eu fui na daqui do Rio um dia apenas, estava muito cheia, achei meio desorganizada pela imensidão de gente que estava no evento... é infelizmente tomou o rumo de evento... muita gente andando ou correndo para lá e para cá procurando algum ator global de malhação para gritar... mas esses mesmos adolescentes "loucos" estavam saindo com pilhas de livros debaixo do braço, seja crepúsculo ou 16 luas, mas eles estão lendo e isso me deixa feliz! Pois agora eles estão com 15 anos, mas essa fase vai passar e o gosto pela leitura com certeza vai ficar!!!!!
    Mas tirando os gritos pelo Nicholas Sparks por exemplo, as grandes editoras estavam com belíssimos estandes com decorados com... livros, e isso eu amei. As pequenas estavam lá para os poucos que vai prestigiar. Eu comprei os meus clássicos de sempre na Martin Claret (adoro!) e meus livros na Editora Fiocruz, mas entendo o que quer dizer, o "evento" tem tomado outros rumos e o amor pela arte e poesia da leitura tem ficado meio de lado.
    bjs

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  3. Tina, concordo com tudo que relatou! Tive a oportunidade de visitar duas bienais este ano, a do meu estado, PE e a de Alagoas, enquanto estava de férias em Maceió. Incrível como achei semelhante, se bem que, por ser pequena, a de Maceió podia ser considerada melhor que a daqui, em questões de decoração e organização. Infelizmente o que se vende não é o que se espera. Esperava magia, esperava entrar no mundo dos livros e me perder lá... Mas encontrei comércio, caro por sinal, e gente arrogante e preocupada vendendo livros. Parabéns pelo texto, Tina. Beijo.

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  4. oi Tina

    aqui em SP tb foi parecido, os livros ficavam distribuídos em bancas todos jogados. Só os mais caros ficam em algumas instantes.
    Achei desorganizado demais.

    bjokas =)

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  5. Você está falando da bienal aqui de São Paulo?
    Embora não seja, a descrição que você teceu é a mesma daqui. Já desisti de ir e levar as crianças. Na última que fomos, ao chegar em casa para folhear o livro, o mesmo desmanchou-se. Ah! Era da promoção...
    Alguém para informar sobre um livro? Os livreiros, claro! Mas eles estão em extinção...
    Beijo

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  6. Eu infelizmente apesar de adorar a leitura nunca visitei uma Bienal, e estou surpresa,seu depoimento deveria estar circulando nos jornais. É mesmo uma indignação. No meu imaginário um livro é um presente de grande valor e a Bienal deveria ser sem dúvida o papel que o envolve e assim da melhor qualidade.
    Um grande abraço.

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  7. Infelizmente... a de Brasília não é muito diferente. E, pior, quando há alguma escritor em palestra, entra uma turma de escola, a algazarra se instala, não são educados para ouvir até o final, e deixam o ambiente com o escritor falando para ninguém. Vi isso ano passado. Este fim de semana começa a de Brasília. Vou ver se consigo dar um pulo lá! Beijos. Vá ler um livro e esquecer o pesadelo! :)

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  8. Tina, triste mas pura realidade.
    É por essas e outras que a muito tempo deixei de ir na bienal...
    Outra coisa que tb me incomoda é o fato de colocarem pessoas despreparadas, que não leem trabalhar na bienal ou até mesmo nas livrarias. Isso me incomoda muito, sábado fui na Saraiva e como sempre sai de lá p.... da vida com isso....

    Beijos e uma ótima semana para vc!

    Nanda Pezz

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  9. Ainda não conheci uma Bienal, mas como
    vc disse é triste sim, concordo com o seu texto
    Muito bom a gente ler e ficar por dentro

    Bjos

    ----Vanessa!

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  10. Oi Tina, que pena tudo isso...nunca fui numa Bienal, mas fico triste quando leio um relato assim...algo que mostra , infelizmente, a nossa cultura...o que fazer para mudar tudo isso? postagens como a tua, que acordem as pessoas que tem interesse em criar um Brasil melhor! beijos...

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  11. Você está brava mesmo com a bienal, os organizadores tem que ter mais respaldo.
    bjs

    http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

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  12. Olá Tina,
    Infelizmente no Brasil não se dá muito valor ao atendimento ao cliente, falo isso analisando todas as áreas. É como se tivessem prestando um favor para a gente ter o evento na nossa localidade eles ficam satisfeitos com isso. Aqui no Rio de Janeiro a minha birrra maior com a bienal é o altíssimo preço dos livros. Acho que era uma boa oportunidade de colocarem os livros de forma mais acessível para as pessoas, mas não foi o que aconteceu, além da má organização. Teve uma edição em que eu tive que ir embora porque não consegui entrar devido à fila enorme na entrada. Mas acho a questão do preço dos livros fundamental e por isso passei a não mais ir na bienal.
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