30 de novembro de 2013

Natal tropical

Essa imagem estava aqui na minha pasta de ilustrações e sempre que batia o olho nela a via como uma perfeita representação do Natal aqui na Bahia. Um calor de mil graus e no Shopping´s, vitrines e decorações caseiras e escolares: neve e casacos de lã. Oh God!
Quem é seguidor e passante aqui sabe que eu sou fã de tradições de todo tipo, lugares, culturas, mas acho também que sempre cabe uma intervençãozinha, um toque local, popular, pessoal, criativo, que hoje com tantas opções de materiais e trocas virtuais e reais de ideias, sair do pinheiro com algodão e bolas é o mínimo.
Na minha casa as árvores natalinas são cada ano de um jeito, já teve uma toda de bichinhos de pelúcia, outra com brinquedinhos de minha infância e da de meu filho, uma com cartões e mensagens, outra fotos, uma só de laços bem coloridos. Assim como todo ano tem presépio e cada ano com um cenário e personagens secundários diferentes, além dos enfeitinhos da estante, da cozinha, do jantar.
Quero viver para ver em um shopping grande, na tv ou em visitas a casa de amigos e parentes uma árvore cacto, ou um ipê no lugar de um pinheiro Papai noel de bermudão e camiseta, com barba feita e boné, de prancha, bonecos de neve serem sorvetes e picolés, ou aos pés do clássico pinheiro areia e barquinhos e por todo ele conchas e fios amarelos solares.
Aproveitando o tema decoração natalina, me contem do clima ho-ho-ho da cidade de vocês. Por aqui está tudo muito morno, poucas janelas, varandas, sacadas, tanto de empresas como residenciais, poucas recepções, caixas, casas com luzinhas e enfeites de Natal, pouco sorrisos e desejos Boas festas nos atendimentos, ruas, pouca programação de corais, presépios gigantes ou vivos, filmes em cartaz, peças. Sinto que o Natal está mais longe do que de fato está, que comprar os presentes é a única coisa para se resolver, que o carnaval é a próxima festa mais esperada, que famílias, casais, empresas, estão combinando viagens e não ceias coletivas e amigos secretos, que só se fala da virada de ano e o Natal tem um que de fora de moda. Será uma perda coletiva da magia? Da tão valiosa religiosidade? Terá aderido o espirito natalino as redes sociais e não me avisou?

29 de novembro de 2013

Humanos, heróis e santos

Segue entre aspas um dos muitos e bons escritos do escritor Moacir Willmondes, ver aqui na íntegra esse em que ele reflete e nos faz refletir sobre algo bem interessante a partir das suas leituras juvenis da Bíblia como castigo pelos seus muitos aprontes. 
"Davi, além de me ensinar que tamanho não é documento, quando venceu o gigante com um estilingue, também mostrou-me que errar faz parte do caminho, quando se apaixonou pela mulher errada, e também que o importante é reparar o erro. Salomão, homem de muitas mulheres, vivia repetindo uma verdade para si, talvez como forma de se auto convencer: “vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. O que mais me chamava atenção era o fato de os heróis bíblicos serem homens comuns, com defeitos e falhas como qualquer pessoa e os diversos narradores não terem escondido isso. Moisés e Jeremias eram gagos, Jonas era um medroso, Gideão e Tomé duvidavam de tudo, João Batista era um excêntrico andarilho comedor de gafanhotos, Isaías chegou a profetizava peladão em público. E para não ficar só no clube do bolinha, o que dizer das mulheres? Eva era por demais curiosa, Sara era uma velhinha com sonhos de mulher jovem, Léia era feia, Raabe era promíscua, Dalila era ambiciosa e sem escrúpulo, a mulher samaritana fora casada mais de cinco vezes, Marta não distinguia prioridades, Madalena era naturalmente sedutora. Mas, tudo isso não os impediram de realizar façanhas incríveis."
Pois é, não somos Super-heróis Marvel com super poderes, nem personagens bíblicos ou do Cartoon Network, nem dos contos de fada ou folclóricos, mas temos poderes, temos também santidade e temos defeitos e deles e de nossas qualidades podemos fazer o bem, fazer bonito, basta acreditarmos e arregaçarmos as mangas. Hoje é sexta-feira, dia de todos os santos aqui na Bahia, um bom dia para milagres, heroismo, mágicas, resiliência, aceitação, dia mundial de animação, disposição, interação. Mãos as obras então!

28 de novembro de 2013

Palavras de nossas moradas

Sabiam que a palavra casa em Latim não era usada para nomear moradas em geral? As moradas maiores e melhores eram chamadas de domus. Daí derivou-se a palavrinha: domicílio e algumas outras. A palavra mansão, por sua vez, vem do Latim mansio, de mansus, particípio passado de manere, “ficar,permanecer”. Tal palavra acabou designando uma casa de grandes dimensões e de muito boa apresentação, onde permanecer não é nenhum esforço.
Telha também veio do latim: tegere, “cobrir”. Em Biologia, tegumento é o nome dado à pele que cobre um animal, tudo a ver. Pátio - como seria bom que todas as moradas tivessem um pátio e um quintal para a criançada brincar e os adultos flanarem. A palavra pátio vem de patere, “aberto, amplo, visível”.
Corredor é do latino currere, “correr”. Parte da casa que interliga os comodos e normalmente se mantém desimpedida, de modo que dá até para correr ao longo dela, imagino seja esse o sentido.
Li por ai que nos palácios franceses os arquitetos ainda não tinham incorporado a ideia do corredor, de modo que passava-se de um quarto pelo outro para se chegar até onde se queria e essa é uma das razões para as camas antigas terem aquelas colunas nos cantos e dosséis de tecido que ocultam o seu interior. Achei essa informação "inútil" o máximo, como li num blog amigo esses dias: "O supérfluo é coisa muito necessária" Voltaire
Quarto vem do Latim quatuor, cuja significação é “a quarta parte da casa”, não necessariamente em área, mas em função. Cozinha é do Latim coquere, “cozinhar”. Banheiro de balneum, “banho privado”.
A palavra “privado” é porque, na antiga Roma, era costume se tomar banho em estabelecimentos públicos, onde eram feitos encontros entre amigos e se discutiam as fofocas mais recentes.
Sótão, muito legal ter um sotão, a palavra vem do Latim subtulum, de subtus, “o que está debaixo”. Subentende-se: debaixo do telhado, da cobertura da casa. Hoje são poucas as casas que têm um espaço utilizável entre o telhado e o forro. Na casa de minha mãe tem e eu já subi lá e achei uma aventura. A existência dele está esquecida, tendo inclusive muita tralha por lá,  coisas que jamais vão ser usadas ou são necessárias tipo dois dias depois que se criou coragem para se livrar delas, sabem como é? Só de curiosidade, no clima da descontração, a expressão “ter macaquinhos no sótão” já foi muito usada para designar uma pessoa que tinha caraminholas na cabeça.
Porão, lá na casa de minha mãe também tem um que só se agaixando com juntas treinadas na yôga para entrar e se movimentar e vestimenta tipo uniforme da Nasa, pois deve ter de tudo por lá. A palavra latina de origem desse local pouco comum nas casa é planus, “liso, chato, plano”. Em náutica, nos navios, designa-se como porão o espaço entre o convés mais baixo e o fundo do casco.
Forro, também tem lá e esta palavra, ao contrário das outras, não tem origem latina. Vem do Francês antigofeurre, “guarnição interna” e em construções designa a separação horizontal entre o telhado e os aposentos. Acho muito chique esse termo, um dia ainda vou residir em uma casa enorme e dizer para alguém: - Vou para os meus aposentos!
Indo do luxo a realidade que muito vivi de baldes espalhados pelo chão, panos, puxa-puxa de coisas de lá para cá, barulhos de pinga-pinga. Quem vive ou já viveu numa casa de telhas, sabe dessas e outras histórias de goteiras e essa palavrinha gotejante veio do latim gutta, “gota”. Chega né! Cansei, tipo tivesse faxinado uma mansão.

27 de novembro de 2013

Devagar

"Viva cada segundo com respeito
Quando se movimenta rápido demais
Você perde o ponto de encontro entre a mente e a matéria 
E torna-se como a lebre
Que era mais ligeira, mas perdeu a corrida" 
Reflexão de Dadi Janki em Pérolas de Sabedoria
Nem lebre nem tartaruga para ilustrar
Escolhi essa ovelinha muito charmosa e simpática
Solicita, gentil e que mesmo com o peso da bolsa no pescoço
E o volume de balões
Parece bem equilibrada
Não contemos com leveza e falta de pesos
Barreiras, atividades
Para desacelerarmos
Para sermos gentis e nos equilibrarmos
Vou dar a voz a Monalisa Macêdo:
"Não importa o quão pesado sejam os dias e as horas que passam
A gente só precisa, mesmo, é de um pouco de leveza na alma
E todas essas coisas que transbordam no coração
A gente não precisar estar vazio para estar leve"

26 de novembro de 2013

De mal com a Bienal

Esse ano definitivamente joguei a pá de cal na Bienal. Não sei se em todos os lugares Brasil a fora é como vou descrever o que sempre vejo na daqui de Salvador, mas vergonhosamente, tenho para mim que sim.
Esse ano pensei seria diferente aqui, mas não foi e apesar de achar que meu depoimento e queixa não vão mudar nada, tenho um fiozinho de esperança boba, crença em milagre, idealização de que mude um dia, se não, pelo menos não engulo a seco.
O produto globalizado e com respaldo que é o evento, com a mídia que tem, o valor social, econômico, cultural, educacional, num espaço físico gigantesco (aqui sempre é em um grande espaço), apoios políticos e privados e o que se tem é um monte de livros encalhados, velhos, promoções e mais promoções de livrinhos infantis de colorir e historinhas onde temáticas educacionais e qualidade literária dão lugar a brilhos, sons, exemplares defeituosos, que devem ocupar espaço nas editoras e livrarias, dispostos sem nenhuma magia.
Nos livros para jovens e para todas as idades, precariedade total de títulos, de cuidado, de ordem seja alfabética, por autor ou por assunto. Pilhas e mais pilhas, sem preocupação com o manuseio e circulação das pessoas, ninguém para instruir, tirar duvidas, disposto e capaz de falar algo sobre os títulos, autores, editoras, ali ofertados, apenas atendentes que tiram recibos.
Nenhuma decoração, trabalhos escolares, artísticos, painéis com frases, nomes de autores, fundo musical que fale de livros, de leitura, de literatura. Declamação de poemas, de trechos de livros famosos. Uma barulheira, um vai e vem de sacos, sem som, sem tom, sem clima cultural.
Palestras e oficinas em horários únicos, com espaços fechados ínfimos e seletivos para participação. Muitos convidados de pouca representatividade, modinhas e afins, não muito próximas ao que se deve exaltar, ao que no mercado hoje, nacional e mundial se tem para valorizar, incentivar, vender. Muito longe do que desejam leitores e escritores de plantão que vão a bienais. Lamento inclusive pelos que não gostam de ler, que indo provavelmente saem gostando menos ainda.
Os poucos escritores com algo a dizer, conhecidos e reverenciados, são colocados ali no pouco para o que são: pouco público, pouco conteúdo, pouca vitrine, pouca ou nenhuma possibilidade efetiva dos presentes de aquisição de suas obras que ali provavelmente não estão a venda ou será difícil localizar um exemplar em meio a tanta desorganização.
Cabia um espaço para itens como prateleiras e estantes criativas para os livros em nossas casas, marcadores de páginas e artigos de papelaria em geral.
Nenhuma prateleira exclusiva, nem mesmo visto em destaque dentre os livros não procurados tão abundantes, Toda poesia de Leminsk, por exemplo, obra merecedora de um banner, uma faixa, seu rosto exposto, bigodes pendurados como bandeirolas e tudo que honrasse seu feito de estar no top de vendas com um livro nacional e de poesia.
A presença em excursão de escolas, não, não vi nenhuma, nem meu filho em nenhum das que estudou foi convidado. Vi alunos em grupo pequenos com fardamento de colégios públicos deslumbrados frente a algumas obras bem populescas e pouco recheadas de saber.
Nenhum stand para novos escritores, oportunamente e decentemente organizado, com pessoas e empresas para informar, incentivar. Grandes editoras e livrarias sem exibição, nem que fosse numa estante de vidro com chaves de toda ou parte significativa da obra de Drummond, Pessoa,Guimarães Rosa, Jorge Amado (que merecia aqui ao menos, uma ilhazinha, um quiosque, uma instalação literária, visual, cenográfica de suas obras tão baianas). 
Uma oportunidade deveria ser o evento de se ver ou adquirir todos os livros que faltam na coleção de Saramago de alguém, ou de Paulo Coelho, Rubem Alves, Manoel de Barros (Quem? Nem se sabe quem é ele em muitos dos estandes). Que horror! Não estavam nem mesmo por lá, muitos deles, nem mesmo representados nos livros velhos, amarelados e com os preços baratinhos. Zero de qualidade literária, expositiva, incentivadora, comercial. Preços e quantidade, para se livrar é a visão da Bienal, como uma nau furada e muito mau conduzida.

25 de novembro de 2013

Por cores, leveza e alegria

"Preciso de tintas de todas as cores
Pincéis e paleta
Campos de flores
Cidades adormecidas vazias
Nuas dos traumas das ruas
Do sol sobre mares
Sombras na lua
Florestas e estrelas
Lira de Orfeu
Gente rezando
Imagem esculpida de Deus
Que cheguem
Que entrem
Atravessem a retina 
Que meu cérebro traduza
E as minha mãos assim reproduzam com igual beleza
Reflexos na água
Gôndolas de Veneza
Rosas amarelas
Meus sonhos expressos em Aquarelas"
Por Lourdinha Vilela
Para uma tarde com tons e poesia de aquarela
Uma noite estrelada, lunar, encantada
E uma semana abençoada

Com sequências

Padre Fábio disse dia desses, em seu programa na tv, que passa no canal Canção Nova, que as ausências ocupam espaço e resolvi trazer essa reflexão para cá, pois acho que entender isso e aceitar é como arejar esses espaços e ter nosso interior arrumado, é como ter girassóis em nós.
Quando chega a época de Natal muitas pessoas sentem ausências, seja de pessoas, lugares, fases e até ausências do que nunca se teve. Eu lembro sempre de meu avô, por exemplo,  da presença dele nessa data e diariamente e não é com tristeza, pesar, com melancolia, não com uma não aceitação da perda, mas sim com aproveitamento sadio e agregador do espaço ocupado por sua ausência.
E esse aproveitamento das nossas ausências tem que valer para as grandes e as pequenas, as constantes e as pontuais, pela distância física por diversos motivos das pessoas que queremos bem ou pela falta de coisas não mais possíveis.
As vivências nossas do dia-a-dia são tesouros se assim arrumamos elas em nós. Eu, por exemplo, amo cortar unhas, se meu marido corta as dele sozinho para mim é como ir a uma festa e não me levar...muitos risos. Meu filho não me dá esse prazer prosaico pois roe todas. Meu avô era meu cliente assíduo, cortei muito suas unhas e também arranquei muitos fios grossos e dispersos de suas sobrancelhas. No quesito unhas ele era um bom garoto, mas em algumas puxadas de fios ele soltava palavrões bem feinhos.
Penso, que tudo marcante que vivemos, pessoas, lugares, sabores, acontecimentos, tudo tem espaço reservado em nós e as consequências e sequencias dos sentimentos e sensações devem ser de contemplação, como janela aberta e de movimentos positivos, como girassóis que miram a luz. Que assim seja!

23 de novembro de 2013

Nós maiores

Penso que somos muitos por estarmos nos outros e provocarmos sentimentos e movimentos por conta dessa nossa presença e assim sendo, há muitas pessoas em nós. Com o mundo, não é diferente, no que tange a natureza, as coisas materiais e espirituais, seja qual for nossa crença, temos o dever de sermos muitos, responsáveis, empreendedores, multiplicadores, zeladores do bem coletivo.
Não adianta que nosso mundinho esteja em perfeita harmonia, como li outro dia para descontrair, uma grande verdade é que amigos e parentes felizes, não enchem o saco, então os outros a nossa volta em pequena e grande escala, em harmonia são um ingrediente importante para o crescimento do "Bolo da felicidade".
Em uma linguagem mais literária e filosófica: "O fato de o mar estar calmo na superfície, não significa que algo não esteja acontecendo nas profundezas". E eis que na ilha da minha caixa de mensagens recebi por e-mail, de Ana Paula, a indicação de uma produção, ver trailer aqui
"Agente não nasce pronto e vai se gastando, a gente nasce não pronto e vai se fazendo", frase ímpar de Mário Sergio Cortella que colabora para essa produção, um filme filosófico, poético, provocador de uma busca de perguntas, de respostas, de autoconhecimento e entendimento do mundo e do que pode ser, em diferentes formas e dimensões a tão sonhada Felicidade.
"Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo." Bem definiu Leonardo Boff em um de seus discursos, de onde recortei cuidadosamente esse pedacinho e cuidado é algo que devemos ter para com quem amamos, para conosco, com as coisas, com o mundo em que vivemos. Cuidar de quem não conhecemos também é tarefa nossa. Querer tal coisa, achar tal coisa legal por exemplo, porque atende a muitas pessoas, gostos e interesses e não só aos nossos.
Quanto melhor podemos ser? Não mais, melhor, mais corretos, agregadores, mais leves. Quanto menos podemos ser? Menos julgadores, amargos, rancorosos, interesseiros, mascarados, inertes.
O que você conhece do mundo, dos fenômenos naturais, de ciência, geografia, física? O que você sabe da história da humanidade, do pais onde você nasceu, da sua cidade, da sua religião, de seus pais, seus filhos, sua esposa, namorado, avô...? "A vida é uma eterna mochila, pegue a tua e vai!" simplificou a cineastra Laís Bodanzky no final do trailler cujo link vale super a pena conferir, bem como a postagem em conjunto comigo, para ter mais força, multiplicar e somar, que Ana fez, clica aqui para ler e comentar. O filme estará em cartaz a partir desse mês e também disponível para venda e outras propostas: aqui.

22 de novembro de 2013

Ser e fazer feliz

Pão de açúcar era o meu pão preferido na infância
Um pão de leite, meio molhadinho, pesadinho
E cheio de açúcar em cima
E açucarada fiquei de ter sido lembrada pela amiga Rovênia
Contente que nem pão quente
A rima é rente, mas a imagem e minha contentação
Como pão quentinho na chapa ou no fogão
Foi o que me ocorreu para o nome da ilustração
E esquento com manteiga e açúcar as vezes vale a contação
Pois bem, a amiga lembrou de mim
Com o comercial da rede de supermercados Pão de açúcar
E desde que ela falou até eu ver
No canal pago pois aqui em Salvador não tem esse supermercado
Demorou o tanto que demora leite na panela para virar ambrosia
Divido com vocês a canção, para ouvir clica aqui
E que tenhamos sempre asas e raízes
Em tudo que nos faz felizes
Aproveito a ocasião para uma sugestão:
Que tal uma outra versão Clarice Falcão?
Ou cantoras e cantores de plantão
Do que a gente faz para fazer os outros felizes?
O que você faz, me diz?

21 de novembro de 2013

Nosso lar, nosso lugar

Sabem o que eu acho que tem de igual nas viagens maravilhosas e também no ir e vir de todo dia? A volta para casa. Apesar de adorar louças finas e lençóis maravilhosos (e melhor ainda, não ter que lavá-los), cafés da manhã, mimos e descobertas, tenho uma relação de intimidade com a minha caneca, minha cama, meu armário do banheiro e por mais que tentemos, não conseguimos colocar tudo que gostamos na mala quando viajamos.
A volta para casa diária também é algo maravilhoso, seja do trabalho ou das simples saídas para resolver coisas, para estudar ou passear. Entrar em casa é como bater a porta e deixar para trás as preocupações, o cansaço da mente e do corpo, trocar a roupa por uma mais leve, tirar a máscara que por vezes temos que usar na vida comercial e até mesmo interpessoal.
Tantas opções, mudanças, modernidades, liberdades, permissões e nada substitui certas simplicidades, prazeres, como a sensação familiar de estarmos em nossa cidade, sob o céu dela que é diferente do de todos os lugares, o cheiro, o saber onde tem o que precisamos e gostamos, a identidade de nossos íntimos e pequenos mundos.
Assim como o sentimento bom de quando viajamos sozinhos, na volta ter alguém que nos espera, alguém ou várias pessoas com quem agente tem intimidade, com quem temos laços.
Nesse contexto penso que temos que agradecer a cada vez que colocamos a chave na fechadura ou tocamos a campainha e devemos pensar em quem não tem um teto, quem dorme na rua, quem está longe de suas casas, porque não pode ou não tem para onde voltar.
Todos que saem e voltam de seus trabalhos, cursos, estudos ou que voltam de breves saídas, visitas, de hospitalização, de passeios. Todos pássaros de volta ao ninho, barcos que retornam ao porto, que tem o privilégio muita vezes banalizado de sentir o cheiro, o gosto, a proteção, a sensação de abrigo, de pés no chão, raízes, histórias, lar.

20 de novembro de 2013

De todas as cores

Dia da Consciência negra
Dia de reverenciar e saudar
Não a cor
Nem nada por fora dessa raça
Mas o que ela teve e tem por dentro
E dela temos
"Gente que tira alegria da dor
Do batecum do batente
Todas as cores de gente
Contas de todos os guias
Uma nação diferente
Toda prosa e poesia"
Entre as aspas
Trecho de uma canção de Roberto Mendes
Um dos hinos da Bahia
Pela consciência do valor de todas as etnias
De todas as culturas e suas histórias
Heranças, raízes e matizes

19 de novembro de 2013

Chegas e chegares

"Amar é brincar
Não leva a nada
Não é para levar a nada
Quem brinca já chegou"
Rubem Alves
Mania que a gente tem de querer dar sentido a tudo, tem coisa que não tem sentido ou se tem não muda nada a gente saber qual é. Eu pelo menos nem sempre joguei para ganhar, do baleado ao buraco, muitas vezes joguei para me divertir, para socializar. Quais os benefícios socializadores e corporais de jogar baleado? De pular elástico? Sei lá! Se faz a pessoa se mover, se divertir, interagir com outras pessoas, ao meu ver já tá valendo. Não é necessário personal para tudo, não acho produtivo estar o tempo todo buscando sentido, fazendo perguntas, se lamentando por algumas respostas, que nem sempre são sólidas.
E para o amor o raciocínio é paralelo, ele pede que renovemos nossos votos não de décadas em décadas, mas a cada 24 horas. Todo dia é mais um dia, amar por hoje, agradecer o de hoje, se zangar se for o caso, com os aprendizados do que já passou, o valor da estrada percorrida a dois e a consciência de o amanhã ser uma incógnita, que pode trazer algo completamente inesperado ou exatamente o que esperamos. Vai saber!
E nessa renovação de todo dia, nesse viver o presente, devemos nos descolar do que foi e do que é ruim, nocivo e buscar a leveza, carregando na bagagem as necessidades básicas, sem mesquinharia nem exageros desnecessários.
Quem ama já chegou, quem brinca já chegou, quem perdoa já chegou, não há mistérios, algo mais, é só isso mesmo e isso é muito.

18 de novembro de 2013

Interplanetária

Amei essa imagem e a nomeei de banho de sol
Me toquei com ela de que os anéis servem de bambolê para Saturno
 Como nunca pensei nisso?
Saturno deve se divertir a beça
Eu tinha até outro dia certeza de que eu era de marte, por conta do livro de Ziraldo, Meninos de Marte. Embora eu seja menina e isso não me diga muita coisa. O planetinha vermelho, além de regente dos nascidos sob o signo de Áries, me cativa pela sua cor, embora a minha favorita seja azul. Ai, me peguei pensando o outro dia na minha relação com o número 7, no gosto por anéis e senti uma afinidade súbita com Saturno. Tem Vênus também de onde se garante serem todas as mulheres. Tem ainda a auto definição lunar de Cecília Meireles: de cheia a minguante, que por vezes me representa. Sem falar de meu lado solar. Ando desconfiada que sou interplanetária!

16 de novembro de 2013

Dicas

Resolvi dar dicas para o final de semana, para pipocar ou ficar piruá, de fazer nada a fazer tudo ou o que der, o que você gosta, ou o que seu parceiro gosta (com cara de alegria de comercial de margarina). Vale comer aquela pizza mega calórica ou tomar um sorvete cheio de calda como se não houvesse amanhã, vale  fazer dieta em pleno final de semana, visitar alguém doente, levar sua vó pela primeira vez na Mac Donald´s, seu cachorro na praia, vale empinar pipa pela primeira vez, vale ir no mesmo lugar de sempre ou ver tv o dia todo, porque nem pessoas, nem finais de semana, nem gostos, nem necessidades, cabem em tratados, listas, bulas e o que serve para um não serve para o outro, vale deixar para nunca o que não fizer hoje ou deixar para amanhã, para o final de semana que vem.
Para finalizar uma dica para as compras pessoais ou para presentes de Natal e de outras datas. Uma proposta de valorização e divulgação em prol dos produtos e serviços feitos por artistas criativos(as), independentes e nacionais. Clica aqui para conhecer algumas pessoas que fazem arte e fazem parte desse movimento, chamado: Compro de quem faz.

15 de novembro de 2013

Haicais, Mindins e Hanamis

A primavera fala
Ipês e porquês

Perfumando sentidos

O ipê, eu e você
Florescer é saber-se
E sempre buscar a luz
Haikai é uma forma poética de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Os poemas têm três linhas, na primeira e na última: palavras que somem cinco sílabas, na segunda linha: palavras que somem sete sílabas. Em português abrasileirado escreve-se: Haicai e em português de Portugal: Haiku.
Em japonês esses tipos de poemas são tradicionalmente redigidos e impressos em uma única linha vertical, em português a tradição é em três linhas. Geralmente, uma pintura chamada de haiga, acompanha o haicai. Haijin ou haicaista é o nome que se dá aos escritores desse tipo de poema.
Água
Frescor
Força

Jorra
Cai
Ecoa

Soa
Paira
Pluvia
Criação da autora Luna Di Primo, o Mindim é um outro tipo de poema extremamente sintético e um desafio criativo e linguístico a poetizar e comunicar algo com 3 versos de 2 sílabas cada, sem preocupação com rima ou sonoridade. Poema curto e simples que pode ser longo e denso em reflexões, profundidade e possibilidades.
Esses mindins acima eu fiz para as Cataratas do Iguaçu e os haicais são sobre ipês e a primavera, foram meus primeiros, escritos a convite da amiga Elisa e publicados em seu blog. Grata!
Iniciando a postagem, coloquei a foto da cadelinha de minha irmã que se chama: Hanami, um nome que comunica com o tema da postagem. Para quem não sabe ou não lembra,  esse é o nome de um costume tradicional japonês de contemplar a beleza das flores, em especial as cerejeiras que florescem entre os meses de março e maio por todo canto no Japão e são um espetáculo reverenciado, visitado e contemplado pelos orientais e por turistas de toda parte como valorização da presença, beleza, completude, delicadeza e ensinamentos da natureza. Uma sexta-feira plena e florida a quem o bem semear.

14 de novembro de 2013

Na estrada do sossego

"Esqueci a tal exatidão
Dar nome aos bois
Colocar os pingos nos “is”
Bater de frente
Tirei férias disso tudo
Se algum desaforo bater à minha porta
Não atendo
Canto ciranda, enfeito minhas tranças
Converso com a esperança
Perdi minha mala carregada de ressentimentos 
Na estrada do sossego mudei a rota
Arranquei as portas que aprisionavam meu sorriso
Me perdi do tempo 
Me encontrei em mim"
Renata Fagundes me traduziu, terapeutizou
Arrasou!
Sem mais, sem ses, porém e contudos
Colecionemos menos quinquilharias na mente e no coração
Adocemos o paladar, o sonhar, o pensar, o falar, os passos
A estrada do sossego é a melhor para se estar e nela seguir

13 de novembro de 2013

Malaquice

Não! Não quis dizer maluquice, nem macaquice e escrevi errado. Malaquice diz respeito a esperteza. Como assim? Eu não sei explicar ao certo, bem que pesquisei e nas minhas buscas descobri que existem muitas letras de samba e forró com o nome Malaquias.
Tive até a honra de meu pai, que é todo trabalhado na seriedade, gosto musical restritamente hispânico e aversão a falar ao telefone, cantar uma música do trio nordestino para mim quando telefonei para investigar se ele sabia algo sobre essa relação entre o nome e o mito. Quem conhece ele vai concordar que isso é de entrar para história.
Cismei que a fonte seria o Malaquias bíblico, que sabia ser cobrador e em referência a fama dos cobradores serem safos imaginei que havia alguma relação, mas não achei registros. Será algum Malaquias de uma história local ? Ou de alguma lenda urbana, algum personagem do cinema, da tv, de algum livro? Quem souber, desconfiar ou tiver sugestões, fica a vontade para contar. Vou adorar saber alguma ou muitas histórias.
Essa curiosidade da relação de Malaquias com Esperteza se deu com uma frase dita num papo entre amigos, por um amigo de um amigo a quem até então eu não prestava muito atenção ao que dizia, pois ele fala como uma vitrola enguiçada e muda de assunto na velocidade da luz. A criatura falante disse num contexto em que contava suas peripécias mais ou menos assim: "Ai eu, Malaquias, fiz isso isso e isso". Meus ouvidos pararam de ouvir no nome e minha mente começou a procurar explicação, afinal ele não se chama Malaquias e eu não sabia que Malaquias queria dizer nada sobre ninguém, meu marido sabido me explicou que era um nome sinônimo de esperteza, como Zé Mané é de desesperteza. Havendo ainda um desdobramento linguístico local: Malaco, que aqui na Bahia é codinome desse perfil de pessoas cheias de manhas e artimanhas, descoladas.
"Malaco véio" nesse contexto seria um Malaquias com phd e essa expressão arrisco, sem modéstia, como chute de Neymar, ser uma variante de "Macaco velho", que é sinônimo de esperto de carteirinha. E lá fui eu atrás da origem da expressão do macaco já que do malaco nada descobri e achei a seguinte pérola: "Macaco velho - Expressão muita usada no nordeste para definir uma pessoa que tem experiência de vida e astúcia e não cai em esparrela". Eis que me vejo na obrigação de explicar o que é esparrela, optando por nojinho a só dizer que é cair em uma cilada.
Voltando ao foco, a origem de macaco velho ser esperto, para eu fechar explicando alguma coisa, advém do ditado popular: "Macaco velho não põe a mão em cumbuca", que refere-se ao fato de existir uma árvore chamada sapucaia que dá um fruto em forma de cumbuca. Quando esse fruto amadurece ele desprende por dentro pequenas castanhas e os filhotes de macacos enfiam a mão na abertura da fruta a fim de pegá-las e ficam presos, só conseguindo tirar as mãos quando as fecham e abandonam o fruto.
Para incrementar, cabaça é o fruto de uma árvore conhecida como cabaceira, desse fruto se faz a cuia, instrumento muito usado pelos índios para transportar água e quando cortado ao meio, ao se fazer um buraco no miolo vira uma vasilha para colocar grãos, farinha, frutos e ganha o nome de cumbuca.

12 de novembro de 2013

Alegrias e tristezas

As vezes esquecemos o valor imensurável de abrir a torneira e sair água, de ter água abundante para gastar em higiene pessoal, para cozinhar, lavar roupas, água limpa para beber. Esquecemos da maravilha que é apertarmos um botão e termos luz, conectarmos tomadas e os aparelhos funcionarem. Não damos muitas vezes o devido valor e não agradecemos por essas graças de nossos dia-a-dia.
Reclamamos dos barulhos urbanos como os das obras que constroem e reconstroem nossas cidades sem lembrar que barulhos estrondosos e devastadores derrubam cidades de países onde há terremotos, vendavais e outras catástrofes ambientais.
Nos abalamos com a morte de um individuo, seja de nosso convívio ou no noticiário e o que dizer de números de três dígitos de pessoas que se vão de repente e que deixam outras tantas partidas aos pedaços?
Muito triste o que está acontecendo nas Filipinas, o que a chuva e os ventos estão fazendo em algumas cidades brasileiras, o que a falta de chuva faz nos lugares devastados pela seca, uma cutucada em nossas caras de paisagem e mil exigências, para que a gente dê valor ao que tem, para que as alegrias dos momentos tão comuns sejam redimensionadas, que as nossas faltas sejam colocadas no patamar do suportável, pois temos muito e sabermos disso é uma benção.

11 de novembro de 2013

Poema oração

Cabeça leve coração cheio
Bendita seja a leveza
E o sorriso nosso de cada dia
Um pouco dos outros, das coisas
Muito da gente, sem nós
Pois nós somos espelhos
Guias, parceiros
E herdeiros de nós mesmos

Por mim escrito, sentido e desejado

8 de novembro de 2013

Graciliano, eu, Ana e Luiz Ruffato

Uma postagem de peso, eu sou o contrapeso no meio (risos). Do tamanho do final de semana, com energia e desejos de sexta-feira. Vale a pena ler para quem gosta de ler e de escrever.
Amo ser traduzida, escrita, falada, representada. Para mim nas palavras do grande Graciliano, escrever é paralelo a "como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. "
Hoje começa a Bienal do livro Bahia 2013 que vai acontecer aqui em Salvador. Trarei de lá resenhas, crônicas, poesias, filosofias, retratos, retalhos novos, remendados, lisos e estampados para essa colcha de escritos, imagens, experiências, pensares e sentires que é meu blog.
Para costurar ao gracianar poético de escrever e lavar roupas, trouxe uma frase da escritora que como adulta e criança admiro muito: Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, que disse sobre a abertura da Feira do Livro de Frankfurt respondendo ao que chama-se de "Nova cultura literária" tida como degradante para alguns: "Não acho que seja cultura literária, então não é degradação. Nem todo livro é literatura: do catálogo telefônico à bula de remédio, passando por alguns best-sellers".
Para fechar, tipo café quentinho com pão de minas, após muita roupa lavada e estendida no varal ou sob pedras, segue pedaços do discurso do mineiro Luiz Ruffato, na Feira de Frankfurt, fazendo uso da palavra em um evento onde as pessoas são leitoras, escritoras, educadoras, comerciantes e difusoras de cultura, de saber e portanto formadoras de opinião e capazes de transformar o mundo.
"Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro é a alteridade que nos confere o sentido de existir, o outro é também aquele que pode nos aniquilar.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
O Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo: amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza...
O que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade."

7 de novembro de 2013

Vivendo e aprendendo a jogar

Sabe aquele joguinho de letras, cada uma em um quadradinho, dentro de um quadrado, com uma vaga, tipo um que falta e que faz podermos deslizar os com as letras para formarmos palavras? 
Um quebra-cabeça, joguinho de desafio, não importa o nome, a história é que esse joguinho sempre vem em minha mente nas ocassiões de arrumar compras ou objetos em espaços já povoados com coisas e no cotidiano entra e sai de elevadores. Nos dois casos faço uma referência da lógica que é necessária e da elegância também, para que cada letra, coisa, pessoa se acomode, de modo a cada um em particular e o todo ficarem confortáveis, dentro de um espaço comum.
Ao escrever o que seria só essa relação que faço e até já verbalizei algumas vezes, observei que nesse joguinho e nessas situações é necessário alguém a guiar com as mãos ou o olhar de fora, de jogador, de encaixe e não de interesses pessoais, pressa, desatenção.
Nas letras soltas em busca das palavras por inteiro ou coisas soltas em busca de espaço é mais "fácil" a movimentação do que com pessoas, que não são conduzidas com simples toques e olhares, nem ordenadas, como letras, palavras, objetos.
As nossas mãos, gestos, olhares, palavras, coração tentam e sonham mover os outros com toques mas a medida que amadurecemos, buscando respostas e fazendo perguntas, descobrimos que não é possível guiar as pessoas como peças, com pessoas o jogo é outro. No jogo dos relacionamentos ao contrário do das letras, nos movemos e com isso as outras peças se movem.

6 de novembro de 2013

Conversa entre meninas e mulheres

A imagem escolhi das que tenho aqui
E não lembro se ganhei ou achei por ai
Uma representação de mim e Carla
A quem não conheço
Mas compartilhamos dia desses
Em sintonia, lembranças e sentimentos
Como num papo entre amigas
Através de um dos escritos dela que segue

"Antes de a Ave-Maria sair do rádio AM
O perfume do feijão sendo cozido invade a sala
Onde assisto a Emília deixar sem graça quem não sabe sorrir

Minha avó reza tão baixinho mas eu escuto
Sempre escuto o que ela não quer contar
Tenho acesso ao seu coração partido
Á religiosidade dos seus pedidos de proteção
Aqueles que aprendeu a amar

Ave-maria cheia de graça eu a convido à minha casa
Para jantar feijão e reza e me contar sobre os milagres engavetados

Vou chamar você para uma conversa
Essa menina que já sente falta sem saber do quê
Se comove com quem não sabe ver beleza nos quintais
E não corre por eles
Alimentando a imaginação de deuses e anjos
Flertando com árvores carregadas de frutos

Bendito é o fruto do vosso ventre e bendita é a paz
Quando ainda há uma réstia de esperança
De não deixar para trás a lembrança
Como se ela fosse filme guardado para ser assistido mais tarde
E minha avó deixa que eu experimente do feijão e do sorriso dela

Hoje mulher nem sempre adulta
Filha da pungente saudade enamoro a magia da poesia
Crio minhas próprias fantasias
Mas sei quem existiu feito benção
Na vida de menina que nasceu pronta
Para se jogar com intensidade às redenções

Benditas são entre as mulheres
Emília
Ave-maria
Anita"
...
Maria, Bela

Esse poema oração do qual eu trouxe recortes, foi escrito por uma menina mulher chamada Carla Dias, que conheci através das janelas abertas com vista para o que é bom na internet. Com sua permissão concedida para publicação, registro aqui para ela o recado de ter imaginado que um dia avó, ela sorrirá com seu poetar. 
Anita é o nome da vozinha dela, Maria é o nome da minha, a única que conheci, a outra viveu e partiu em terras espanholas. Dona Maria segue aqui presente e ausentando-se aos poucos. Bela é o nome da avó de meu marido, já há muito uma estrela a brilhar no céu.
Eu costumo todo dia clicar nas publicações dos blogs amigos, por amizade, pelo tema, só para ler, para ler e comentar e uma lembrança das tardes de domingo me chamou pelo nome de: Porta da esperança, foi o titulo da postagem de Carla exibida no mural de publicações recentes dos blogs que sigo.
Esse antigo Programa de Silvio Santos trazia aos domingos através da abertura de uma porta: histórias, sonhos e esperança. Do título da postagem e recordação do programa ao poema oração contido lá, lembrei de meu avô que adorava esse e todos os programas com o Silvio. Durante a semana ele ouvia seus radinhos de pilhas na AM, da Ave Maria ao futebol enquanto minha vó tratava peixes com agilidade de quem vive da pesca, que nunca foi seu caso, fazia panquecas divinas com sardinhas escabeche ou um cozido que era de comer rezando e depois para mover um músculo e piscar sem dormir, era um enorme desafio. 
Passava dias na casa de meus avós. Vi muito as portas da esperança se abrirem, assisti de boca aberta o Sítio e elegi de lá até aqui a Emília, o Visconde e o Saci como meus favoritos, ri muito com as trapalhadas dos trapalhões, tomei muita vitamina de banana com pão com queijo no lanche da tarde, joguei muito baleado, pulei elástico, rodopiei bambolês e minha avó berrava da janela para eu subir das áreas comuns dos prédios onde eu me esbaldava. Não eram plays ou salas de brincar, eram corredores, blocos, escadas, espaços religiosamente e alegremente preenchidos com nossa energia e criatividade.
Tomei muitos banhos com minhas duas irmãs, todas juntas de cortina aberta e voinha esfregando a gente com sabão de coco, do cabelo aos pés, com força de quem esfrega pano de chão. Cabelos devidamente esticados e amarrados, e de se pasmar sedosos com sabão de lavar roupas, ninguém ousasse arredar os pés do sofá para de novo se sujar.
Tive muitas fantasias, dentre elas a de fazer pedidos na tal Porta da esperança, ia pedir sei lá o que, sonhei também ganhar um carro de uma promoção da Pepsi e ir no Show da Xuxa. Aguei pelo feijão no fogão aos domingos, feito por minha avó ou minha mãe, desejei o refrigerante que só era permitido (saudavelmente falando) e podido (financeiramente falando) no final de semana e os passeios nas praças.
Comecei a semana saudando a confeitada estrela D. Etelvina, as receitas de avós e mães, a eternidade em nós de nossos antepassados e na mesma toada, como doce que se tem vontade de repetir e repartir, me sentindo por minha avó abençoada, penteada, perfumada e amada, ainda que nós duas tenhamos sido toda vida rabiadas (expressão espanholada falada lá em casa para pessoas viradas no molho de coentro, geniosas).
Recordações, carinho, gratidão para enfeitar o meio da semana, para provocar muitas conversas entre meninas, meninos, mulheres, homens, senhoras e senhores. Com bençãos, cheiro de comida boa na panela, de roupa lavada e passada, de alfazema, cura e doçura de abraços, sorrisos, alegria de quintal, de tirar fruta do pé e calmaria de cafuné.

5 de novembro de 2013

Sobre ser tão sertão

Tem expressões que nos representam
E frases, textos, histórias, imagens
Por nossa escolha ou por ser assim que somos vistos
Referências recheadas de sentidos e sentimentos
A expressão: "Ser tão sertão"
E as expressãos através de ilustrações
Me representam
E fui representada nessa junção
Pelo poeta e ilustrador Alexandre Reis
Uma honra, um presente
Assim como tenho com honra e como presente
Seja no sotaque, no que gosto, valorizo, creio
Como cobertura e recheio
O ser nordestina, sertaneja porque não
Comedora de farinha, retada, corajosa, destemida
E como um cordel encantado
Ou prece em forma de toada
Segue explicado em forma de poesia
No todo e nas entrelinhas
Um pouco de mim
De todo sertanejo e de ser tão sertão
Nas palavras e sentimentos da encantadora escritora Lígia Guerra
"Por que carrego doçura na alma e asas nos pés?
Porque sinto a vida além do óbvio
Porque enxergo sol em dias de chuva
Porque amo até mesmo o desamor
Porque acolho cada gesto com os braços do coração
Porque perfumo o caminho das estrelas
Porque componho alegria na poesia da tristeza
Porque desejo colorir a vida com olhos de fé"
Doçura em nossas almas, olhares, gestos
Numa correlação com rapadura
Tenhamos cuidado 
Pois o mundo é doce e duro
E nós temos que ser delicados
Sem deixarmos de ser fortes e guerreiros
Equlibristas, manobristas, garimpeiros
E que ao inspirar sintamos cheiro de terra molhada
De mar, de chuva, de alvorada
Café coando, pão assando
Balanço e abraço de rede
Que nos visitem passaradas
E entre secas e brotares 
Sigamos com fé nossas caminhadas

4 de novembro de 2013

Para se lambuzar

"Não coma a vida de garfo e faca
Lambuze-se"
Quintana
Os alimentos tem o papel de alimentar, dar prazer e ao mesmo tempo são um canal com lugares e pessoas. Almoço em família, receitas de vó, de mãe, pratos de botecos ou de grandes restaurantes, típicos de nosso lugar ou dos muitos lugares mundo afora, histórias e sentimentos sempre são associadas aos alimentos.
Cadernos e livros de receita são ferramentas de trabalho, manuais, objetos de colecionar para muitos, herança para alguns, uma incógnita para os que nem fritam um ovo mas vêem nos ingredientes e ilustrações, páginas encantadas, recheadas de mistérios, curiosidades, possibilidades, aromas, sabores.
Associei a frase de Quintana a fruta da imagem no quesito lambuzar-se e em reverência a vida pulsante em nós dos que nos cercam e nutrem, com alimentos para o corpo e para alma, estejam essas pessoas ao nosso lado ou já em outro plano. Essa mistura de sentimentos, sentidos, pessoas e alimentos veio parar aqui por recentemente eu ter ganhado um livro de receitas muito especial.
Me sinto a cada folear na casa de Dona Benta, com Tia Anastácia cozinhando, ensinando, conversando, lá fora galinhas ciscando, ramos de alecrim, majaricão e rúcula brotando do chão e exalando aromas. Do forno o chamado dos pães feitos por meu pai tarde da noite, sem o movimento diurno da cozinha. 
Culinária com jeito de poesia é uma definição resumida do livro da Editora Sagui, de nome: "Comer com os olhos e lamber com o Coração", um apanhado maravilhoso da culinária mineira, recheado de palavras, imagens e entrelinhas cheias de cores com tons poéticos.
A história do livro em resumo é assim: o escritor Marcílio Godoi convocou duas sobrinhas e de mãos familiares enfarinhas, colheres em punho, sumos de fotos, ingredientes diversos, histórias, versos, prosas e memórias se deu a preparação e publicação das receitas da matriarca da família, Dona Etelvina.
Um livro que não só imortaliza a amada figura familiar que ela foi e sempre será, como também registra para admiração e reprodução as suas receitas, que são de lamber os dedos, beiços, vasilhas, pratos, são um pouco da vida de cada membro da família e serão assim perpetuadas e espalhadas para os membros vindouros e para membros de outras tantas famílias.
Nas fotos o sorriso de Dona Etelvina, sua habilidade e intimidade com a arte de cozinhar, transparentes em imagens estáticas, os utensílios, as palavras de seu filho, tudo junto e separado confirma que não é preciso receita para saborear a simplicidade e o amor, temperos de uso irrestrito, harmônicos e indispensáveis para tudo na vida.

1 de novembro de 2013

Poesia para todos os dias

"Não sou perfeito
Estou ainda sendo feito
E por ter muito defeito
Vivo em constante construção

Sou raro efeito
Não sou causa e a respeito
Da raiz que me fez fruto
Desfruto a divina condição

Em noites de céu apagado
Desenho as estrelas no chão
Em noites de céu estrelado
Eu pego as estrelas com a mão
E quando agonia cruza a estrada
Eu peço pra Deus me dar sua mão"

Palavras de Pe. Fábio de Melo
Estrelas em plena luz do dia
Por uma sexta-feira peneirada de luz e alegrias
Poesia para todos os dias
Oração para um novembro de bençãos
Mãos dadas e paz no coração