10 de março de 2014

Sobre memórias, audição e atenção

Essa é a varanda da casa de meus pais, chão onde eu adorava jogar água e alvejante nas escadas para esbranquiçá-las, por onde fui e vim para escola, para faculdade, para o primeiro emprego. Onde vi meu filho dar os primeiros passinhos, de paredes com buraquinhos que ele dizia terem donos, jardineira feitas por meu pai, mangueira para mentir para as plantas que está chovendo, portãozinho extra colocado recentemente para uma certa cadelinha chamada Balu não assustar as pessoas no portão, se fazendo de feroz além de circense e doce e também para as pessoas pouco apessoadas não fazerem mal a ela.
Além da vista registrada na foto, lá na frente está a caixa do correio feita de alumínio por meu pai, com nome digitado e impresso por mim: Correio, a muito colado com papel contact e intacto até hoje sob sol e chuva. Milagre eu diria. Fora do portão, orelhão e barraquinhas de lanches e papos e uma maternidade pública.
Por dentro, num corredor vindo da entrada, sob um teto que haja escada para trocar uma lâmpada, uma sala, 3 quartos e outra sala. Onde a foto foi tirada é uma copa, ao lado um lavabo e o banheiro com basculante para o quintal que é margeado pela cozinha, o fabrico dos pães (sustento da casa e da família durante toda vida), um quarto da bagunças e no fundo a oficina de meu pai que foi minha primeira casa, de material comprado a miúdo e carregado num Fiat Uno velho e valente.
E lá do fundo eu ouvia o assobio de meu marido, o chamado do carteiro, do homem do gás e as vezes para chamar alguém que estivesse na outra ponta, ir a metade do caminho já bastava. Hoje num apartamento que é quase do tamanho de uma das salas dessa casa, chamar ou falar algo tem que ser aos berros ou olho no olho, porque ou se está de portas fechadas com o barulho do ar a soprar ou sons diversos, catatônicos com a tv, na longa distância da distração, do hábito de atenção e interação seletiva.
Já falei aqui que adoro a Mafalda e a minha tirinha preferida dela é uma que sua mãe sai para ir ao supermercado e lhe diz para não abrir a porta para ninguém, ela pensa e antes da mãe bater a porta ela pergunta: - E se for a felicidade? Pois é, e se for uma boa notícia, se for a felicidade que dizem as vezes bate baixinho a nossa porta. Temos que estar atentos não é mesmo. Cotonetes nos ouvidos, menos barulho e todo mundo mais junto, junto ou longe, no volume e sintonia do coração e da atenção que devemos dispensar a quem amamos.

17 comentários:

  1. Sua descrição poética me levou até esta varanda tão de braços abertos para receber, tão acolhedora, tão cheia de memórias.
    Uma casa com seus afazeres e de ouvido tão atento.
    Resgate urgente e necessário à sintonia do coração a dispensar a quem amamos!
    Beijo

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  2. Verdade, Tina,
    hoje são tantos os sons atordoantes que confundimos os que realmente são significativos aos sentidos e ao coração.
    Morei na infância numa casa assim, com corredor lateral, jardim e portão; ligação deslizante entre a vida de dentro e a de fora...gostosa harmonia.

    Comecei o dia com ótimas lembranças graças à vc.
    Bjos,
    Calu

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  3. Que lindo Tina Flor!!!! Ohhhh...e que corredor e que portão maravilhoso cheio de histórias e quanta gente ele já viu a passar!
    Parabéns pelas lembranças e por tantas recordações simples, boas e que hoje são cada dia mais raras, como quando o padeiro trazia o pão na porta de sua casa.
    Me senti em sua varanda Tina, em sua infância e na nostalgia do pensamento.
    Beijos, nutellas coloridas e desejos de uma ótima semana em sua casa!!!
    CamomilaRosa

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  4. Tina que lugar lindo e tão bem mostrado, carregadinho de boas lembranças, bastante marcadas em ti! Lindo e temos mesmo que parar pra pensar na parte final das tuas palavras: Ouvir os outros, dar atenção...


    Adorei! Linda semana! beijos,chica

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  5. Que lugar gostoso, verdinho, vc teve para brincar. Lindas recordações. Emocionei-me :) !

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  6. Que texto mais lindo, Tina! escutar o silêncio, tão impotante...recordar a casa onde passamos momentos tão lindos, tem melhor? voltei no tempo e lembrei da minha casa, tudo de bom! abraços e boa semana!

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  7. Lembranças gostosas a gente carrega pra sempre.

    bjokas =)

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  8. Considerações:
    -o corredor lembra casa de avós: cheio de histórias e plantinhas;
    -quero postagem com fotos e história da caixa de correspondência;
    -eu também adoro essa tirinha da Mafalda.

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  9. Também já tive um corredor assim e foi na casa dos meus avós. Hoje ele não existe mais e sua foto trouxe a lembrança. O piso era de tijolos, macios e que na época de chuva apresentava manchas de lodos.

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  10. É bom quando a gente se lembra de alguma coisa boa!
    Muito legal!
    Bjs do Neno

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  11. Tina, que delícia ler esse texto com doces lembranças da sua infância.
    Eu também tenho boas lembranças da casa onde cresci!
    Adorei,bjs
    Amara


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  12. As minhas maiores memórias são na casa da vó Preta, mas lá na casa em que praticamente nasci, havia um pé de goiaba que assistiu momentos diversos da minha vida. Inclusive um belo tombo de nariz no chão hahaha hoje moro num lugar em que não há espaço pra pé nenhum e em breve estarei em Minas, na casa da outra vó, e trago as lembranças de lá a tona.
    Linda a foto e o poder concedido pelas suas palavras de nos deixar imaginar tantos momentos doces e únicos.

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  13. Oi Tina,
    Que olhar poético à casa de sua infância, com memórias tão doces…
    Linda homenagem…A nossa primeira casa fica eternamente impressa na alma.
    A casa de minha infância não existe mais, cresci cercada de mato, árvores frutíferas e muitos animais, mesmo morando em São Paulo! E brincávamos na rua, era outro mundo!
    Bjs querida e ótima semana

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  14. Adorei ler e nos ver nessas lembranças! Vi tantas coisas nessa imagem, que mais parecia um filme em vez de uma foto! ;)

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  15. Tina cada vez que venho aqui, vejo a grandeza na simplicidade das coisas, é tudo que adoro, felicidade feita de canteiros na memória, regados pela saudade.Adoro te ler. bjs

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  16. Narrar nossa própria história nos torna mais próximos 'de nós mesmos' e isso é MUITO bom.

    Kátia

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  17. Uau querida Tina!!! Que texto mais rico e íntimo!! Nostálgico talvez mas a vida é assim mesmo, as vezes nos distanciamos porque cada um tem seus interesses, seus programas, suas leituras, mas aqui, temos tudo isso e graças a Deus quando estamos todos juntos conversamos, rimos e nos divertimos demais!! Sabe, muitas vezes quando o amor é presente, você não precisa se fazer presente porque "ele" te encontra.
    Adorei, como sempre!
    Beijos mil
    Cris

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