29 de maio de 2014

Na mesma tecla

Acho válido bater na mesma tecla quando se trata de determinados assuntos, pois nesse meio aqui onde escrevo, muitos passam um dia e não passam no outro, muitos prestam atenção em um dia e não no outro, comentam ou não e também porque as vezes o cesto é tão cheio que temos que esvaziar mais de uma vez. Falei aqui dias desses sobre um assunto que na mídia e na prática muito tem se discutido: a alteração dos textos de Machado de Assis, que se estende aos clássicos de uma maneira geral. Essa proposta, tosca ao meu ver, de reimprimir as obras objetivando um vocabulário simplório, ao nível do público menos letrado e ao alcance de cifras, é surreal!
A escritora Nélida Piñon resumiu bem quando disse que hoje se publica o que vende e não mais o que fica. E qual a literatura consumida no Brasil? Os tais sádicos tons cinzentos, vampiros, ficções medievais, caricatos romances melodramáticos, desconstrução de clássicos sem muita criatividade, substância ou com relevantes maus exemplos.
Para mim além da proposta, é chocante a complacência de pessoas cultas, sejam as que me cercam, sejam figuras ilustres e críticos com essa subliteratura e o apoio a simplificação e atualização da literatura.
Tantos escritores bons sem leitores na proporção ideal e tantos escritores de conteúdo e ritmo industrial, que não se importam com estética e se importam demais com fama! Oh Lord!, como diz uma amiga minha. Acho que toda literatura é válida, com públicos e usos bem específicos em certos casos,  mas as que deveriam ganhar visibilidade não deveria ser as que os editores definem como comerciais ou que o autor seja corporativo cumpridor de metas de vendas e antenado com as necessidades do mercado.
Vibrei em laranja quando o livro de Leminski ficou no topo dos mais vendidos e suspirei da cor da capa ao verde esperança, mas, analisando friamente, os autores e obras que as editoras inserem e sustentam na mídia, ruins ou bons são negociados e sustentados por interesses diversos, seja no alcance de sua popularidade seja no tempo de permanência nas prateleiras e noticiários.
E nessa geração de leitores de massa, do bobo ao tosco, Machado de Assis precisa, pensando pequeno, ser reescrito para vender e fazer pareja com os novos clássicos pobres e vulgares da literatura em resenhas, programas de entrevistas, blogs, cadernos culturais e afins. Triste fim de Policarpo Quaresma! Triste fim de seu criador Lima Barreto, de Machado, de Monteiro, de Pessoa, das pessoas. Triste fim da literatura de qualidade. Que os bons a tenham!
Policarpo como bem sabe quem leu e para os que não leram (vai que no resumo e atualização mudam isso), tem muito de Dom Quixote, ambos com uma visão do sublime que a realidade em volta não comporta. Assim como sou com meus muitos ideais românticos e recebo críticas na lata ou veladamente e venho percebendo que a zombaria esconde muitas vezes as limitações e distorções dos outros. Sou fã de Policarpo e seu idealismo e carão de não ter se deixado levar pelo mundo enlatado e limitado da alta sociedade carioca do século XIX. E tenho dito!

8 comentários:

  1. Estou sempre por aqui! Acho que é preciso dar potencial ao cérebro para que possa entender os grandes livros, e não facilita-los né! abraços

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  2. E disseste muito bem. Não dá pra nivelar por baixo. Crescer é preciso culturalmente,sempre! bjs,chica

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  3. oi Tina

    A literatura brasileira anda um pouco esquecida né?
    Com a situação econômica do pais, quem tem dinheiro para comprar livros vive no luxo.
    As bibliotecas não andam cheias, talvez pq os jovens tenham outros interesses (virtuais).
    Eu adoro ler.

    bjokas =)

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  4. Tina, eu sempre gostei muito de ler, raramente passo um dia sem um livro nas mãos (inclusive, meu post de hoje é sobre esse assunto). Essa simplificação dos clássicos não vai ser vir para nada em termos de incentivo à leitura, temos um longo caminho a esse respeito e, se ele não começar dentro de casa e na sala de aula, nunca vai mudar. Por outro lado, nos últimos meses, tenho visto mais pessoas lendo e acho isso maravilhoso.
    Quanto aos livros populares, essas coisas são uma febre, mesmo se forem pessimamente escritos como o 50 tons (eu tentei ler, não consegui passar do 3º parágrafo).
    ótimo texto, como sempre ;-)

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  5. Falando nesses livros "modinhas" nunca tive interesse... sei lá... nunca li 50 tons... nem outros tantos...
    Penso que simplificar os grandes nomes ou melhor nossos clássicos não mudará muito.. O incentivo a leitura começa cedo, não assim enfiando "boca a baixo" sabe?...
    Amo, amo, amo ler... Fiquei 2 semanas sem ler e me deu uma tristeza... mas já fiz a feira na livraria e hj já quero retornar <3

    Beijo, beijo

    Nanda

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  6. E simplificando vão matando a nossa língua portuguesa e sua ricas palavras. Que vocabulário nossos jovens conhecem e usam hoje?
    Beijo!

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  7. Continuo sem entender e aceitar este descalabro baseado em pífias explicações.Desde quando desqualificar uma obra literária a fará mais ou menos compreensível?Não é nivelando por baixo que se estimulará o conhecimento da língua portuguesa, isso pra falar o mínimo.Simplesmente desastrosa esta iniciativa que descaracteriza um dos grandes autores brasileiros.Machado não merece! Ninguém merece!
    Um abraço, Tina.
    Calu

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  8. Ai Tina! Eu li sobre esse assunto e confesso que me deu uma tristeza imensa! Em vez de melhorarem o nivel educacional das pessoas preferem rebaixar os autores classicos nacionais...ninguém merece! Excelente seu texto,diz tudo! bjs,

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