14 de maio de 2014

Ponto a ponto

Puxa a cadeira, passa a linha pelo buraco da agulha e assunta o programa de dia das mães de Dona Conchita (minha mãe) com suas três Marias (nós, as filhas, que não nos chamamos Marias, mas nossa vó e toda mulher se chamam), que foi, ir na exposição de um projeto chamado: Bordar os sonhos. 
Minha mãe tem paninhos de mesa, toalhas, panos de copa e roupinhas nossas de bebes bordadas como nem imagino alguém consegue bordar, até o avesso é bonito. Sem exagero! Muitos paninhos coloquei na mesa e na cesta do pão para enfeitar, do avesso, bordados e de crochê. Na leva da ida para a exposição já programada com antecedência, pedi meu nome bordado por ela em um retalinho de tecido para guardar na minha agenda, trago foto, junto com palavras alinhavadas com histórias de minhas agendas outro dia.
O projeto foi idealizado pela arte-educadora e ilustradora Flávia Bomfim, a partir dos trabalhos de bordados livres, de mulheres de um subúrbio daqui de Salvador, chamado: Sussuarana, com a proposta: Bordar sonhos e na ponta de suas agulhas, costuraram linhas, ideias, imaginação, talentos e emoções. A exposição foi e está até o dia 22 de maio, no Espaço Xisto que fica na Biblioteca dos Barris, pertinho da Escola onde fiz meu estágio supervisionado do Curso de Letras Vernáculas nos idos de 15 anos atrás.
Chegamos ao local após enfrentar o cansaço do dia e um trânsito caótico e lá não havia nenhum pé de gente. Um programa tão para mães, pensei! Na verdade, haviam lá além dos nossos, os dois pés e a simpatia do segurança do local, que não tendo nada a ver com a exposição foi incluído por nós nela, Eliseu seu nome, que bordou com minha mãe tagarela de quem sou herdeira direta, papos sobre mães, programas alternativos, filhos, bordados e é claro, sonhos. Há um livro catálogo do projeto, fruto da pareceria com a Editora Movimento contínuo, que pode ser adquirido através do e-mail: movicontinuo@gmail.com ou no local, no Café da Sala Walter da Silveira.
Toda essa interação, num pequeno espaço, os trabalhos expostos em duas paredes que são corredores no local, fotos com pequenas histórias das artistas, tudo costurado a muitos selfies, risadas altas que não é de bom tom dar em exposições, vontade de tomar café que me fez ver no bordado da panela de feijão uma xícara com um menorzinho fumegante. Filhas mães, irmã mais velha mãe, e desenho de todas em mensagem escrita pela matriarca em um caderninho com indagação em um letreirinho de papel numa mesinha alta: Qual o seu sonho?, lápis ceras de várias cores (amo lápis cera), caneta e entre muitos desenhos de crianças lá ficou nosso registro de passagem, prestigiação ao projeto e comemoração. Conchita e filhas de Conchita.
Mãe com suas filhas e filho viajando livre, para quem mandamos no ato as fotos (um viva a tecnologia), bordados livres, imagens com e sem palavras, com palavras por dentro e além, humildes senhoras com mãos de fadas, orgulhosas de si mesmas por seus trabalhos estarem em uma exposição e em um livro. Mulheres que voaram juntas, que vão pousar em casas, corações, estantes, tecidos, dedais, linhas, que nos remetem ao valor dos trabalhos manuais, como objetos de arte, de expressão, de libertação, de desenvolvimento emocional e a imensurável riqueza do universo caseiro, de interagir, da simplicidade, da poesia de bordar, tecidos e sonhos.

8 comentários:

  1. Que lindo isso!Adorei a foto de vocês , os bordados mostrados e fico pensando como deve estar linda essa exposição que ,infelizmente, poucos a visitaram.
    Adorei o post e esses paninhos devem ser bem guardados... beijos pra todas vocês e que bordem, seja com fios, seja com palavras, muito, muiiiiiiito pela vida afora! chica

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  2. Tina,
    que programa sensacional.Eu sou fã de bordados, acho que eles traduzem em beleza as sutilezas da alma feminina; nos revelam, nos contam, nos exprimem de forma original.Realmente um encontro de mil queridos signos, com direito a bela foto-lembrança.
    Um Viva a todas as bordadeiras!
    Bjos enlaçados,
    Calu

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  3. Bordar sonhos...
    Acho tão triste uma exposição tão cheia de significados estar vazia; acho triste nossas habilidades com as mãos, especialmente para os jovens, se resumam a teclar.
    Acho lindo e alegre dona Conchita fazer bonito no avesso e ir passear com as três Marias dela!
    Bom dia bordado em linha laranja. Bj.

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  4. oi Tina

    Bordar é uma terapia, é um trabalho lindo, pena que hj não é tão valorizado.
    Temos atrás quem tinha esses mimos em casa era gente de posse.
    Lindas vcs, com alegria, amor e muitas habilidades rs..

    bjokas =)

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  5. Parabéns pela bela postagem, filha de Conchita.

    Vou solicitar o catálogo, lógico!

    Em certos olhares eu sou muito rude. Por exemplo: alguém pinta um quadro, uma tela, tipo nada a ver... e esse trabalho é super valorizado, visitado, elogiado.
    Pra mim, os trabalhos manuais como os apresentados, aí, são obras de arte de maior expressão.
    Sei que estou sendo simplista aos olhos de uns, mas deve ser porque o que me seduz realmente, é a alma, sempre explícita, em trabalhos assim.

    bjs

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  6. Que delícia de passeio Tina!! Eu sou uma apaixonada por artesanato, amo bordar...
    Adoro passear na feirinhas que tem por aqui e conversar com as artesãs, admirar seus trabalhos... Imagino o quanto vcs puderam aproveitar esta exposição ;)

    Família linda a sua <3

    Beijãoooo

    Nanda

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  7. Que alegria nessa foto! Bordar é mesmo um dom e nem todos tem a paciencia, a delicadeza e o capricho necessários. Linda essa iniciativa! bjs,

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  8. Voltei pra rever e o encanto é o mesmo! LINDO! bjs, chica

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