2 de junho de 2014

Sobre becos e ladeiras

Não é novidade por aqui minha candura e cisma em descobrir o porque de nomes, historinhas de expressões populares e afins. Semana passada falei de uma rua aqui de Salvador e do caldo que rendeu a busca de sua origem, arrematando com uma busca em família por um nome de uma padaria que ficava numa rua da história de minha sogra.
Na pesquisa do porque do nome, que não encontrei, achei tanta história que tenho que dividir. Tantas vezes perguntamos: Qual o nome da rua? Poucas vezes: - Porque esse nome? Fica o incentivo a pesquisa entre os mais antigos, na internet, livros, por curiosidade, por gosto, por lugares que frequentamos, lugares que mudaram de nome, lugares onde vamos a passeio, para aprendermos e ensinarmos sobre nossa cidade, estado, país e além fronteiras.
Hoje trouxe nomes e histórias de becos (adoro esse nome) e ladeiras daqui de Salvador. Garimpei os mais populares e pitorescos. Outro dia trago nomes e histórias de largos (também tenho alargada afeição por esse nome). Vou começar por um tal de Beco da agonia (#minhacara, o uso da palavra e ser agoniada...rarara), ele fica no bairro de Nazaré, onde morei da bebezice a adultice. O beco é assim chamado por causa do desaparecimento de um oratório de Senhor Bom Jesus da Agonia, que ficava em uma de suas esquinas.
Tem um, que eu nunca tinha ouvido falar: Beco da água do gasto, esse nome cumprido é devido a separação que os moradores faziam da água boa para o consumo humano e a água chamada por eles de água para o gasto, que não servia para beber. Adorei!
O beco dos barbeiros retrata a organização medieval trazida pelos portugueses, é que naquele tempo homens que exerciam uma mesma profissão, de um modo geral, moravam na mesma rua, falavam dos mesmos assuntos, divertiam-se com as mesmas coisas, tinham festas religiosas em homenagem ao padroeiro da categoria e as novas gerações raramente aprendiam outra profissão que não aquela herdada dos pais, que, por sua vez, a herdaram de seus pais. O Beco dos Calafates, se encaixa nessa mesma tradição, para quem não sabe (eu não sabia), calafates são profissionais que se ocupavam do ofício de calafetar os buracos que existiam nos cascos das embarcações marítimas, que naquele tempo eram feitas de madeira.
Beco do mingau, ah! mingau de rua, mesinha com toalha branca, donas Marias simpáticas, fumacinha fumegante, concha cheia e destreza para colocar na boca pequena do copo plástico, guardanapos para não queimar a mão das freguesas e chuva de canela por cima. Tomei muitos quando ia com minha vó para fila do INPS e nas minha idas para escola e depois para faculdade e trabalho, lá no bairro de Nazaré. De fácil hipótese para ser explicado e por isso talvez nem sequer questionada a origem, nesse beco houve, em algum período da vida da cidade, um famoso ponto de venda de mingau, essa iguaria ao meu paladar, seja de tapioca, carimã, arroz,  fubá ou mugunzá.
E como diz a canção e se pratica na andação pelas ruas daqui, entrei em beco e sai de beco e agora vou subir e descer ladeira. A penosa Ladeira do Acupe, tem nome de origem tupi, que significa: no calor. Calor faz por toda a cidade e para mim pior é na chuva. Tem uma outra chamada: Ladeira dos aflitos, que tem esse nome pela presença no local da Capela do Senhor dos Aflitos. A Ladeira do boqueirão, que é um nome que sempre achei meio feio, pesado e me atestei ignorante por ser o nome de uma santa. Essa ladeirinha fica no Santo Antônio além do Carmo, bairro que tenho candura além de pelo santo, pelas histórias de infância de marido, pela festa de largo, pelos casarios antigos e a denominação da tal ladeira , entre as ruas Direita do Santo Antônio e dos Adobes, tem sua origem na Irmandade de Nossa Senhora do Boqueirão, que existiu na Igreja de Santo Antônio.
A Ladeira do funil tem esse nome tão somente por seu traçado afunilado e acho tão sonoro esse nome e tão em desuso são os funis hoje, que trouxe ela para cá.
Tem uma tal de Ladeira da preguiça que bem é o que dá quando estamos diante de uma ladeira, como ela, que foi construída para ser mais uma opção de acesso de mercadorias do porto para a cidade, mercadorias essas que eram transportadas em carretões puxados a bois e empurrados por escravos que alegavam ser este um trabalho penoso que além de cansaço dava preguiça. E quem tem preguiça de ler já deve ter desistido antes de chegar aqui ou estar me xingando toda. Eu adorei escrever, saber e contar sobre os nomes de alguns do muitos becos e das muitas ladeiras de minha cidade. Começando a semana em alta atividade, aqui vou eu!

10 comentários:

  1. Bom dia Tina Flor!!! Adorei saber e agora fico intrigada imaginando que por traz de cada beco e viela tem uma historia escondida!
    Achei interessante o que vc disse sobre o beco dos barbeiros. Eles ficavam no passado juntos na mesma rua, fiquei pensando que em toda cidade poderia ser assim ainda, seria tão mais fácil e deixaria a cidade mais bonita e personalizada!
    Beijos Tina Flor e essa semana estou mandando seu pacote, meu pai trouxe o pinhão!
    CamomilaRosa

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  2. Que legal,Tina! Adorei a criatividade do beco da água do Gasto... E o do Mingau é bem apetitoso,rs Linda semana e boas pesquisas, que depois chegam até nós sempre! bjs,chica

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  3. Curiosidades que muitos não se preocupam em conhecer e saber a origem. Uma semana cheinha de pesquisas e descobertas para nos envolver sempre.

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  4. Tem nomes marcantes né?
    E engraçados tb.

    bjokas =)

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  5. Ladeira do funil, Ladeira dos aflitos... Que bacana!
    Tina, precisamos de mais "porquês" e mais buscas, não é?
    Sem dúvida, o seu post incentivará futuras pesquisas.

    Beijos,
    Nina & Suas Letras

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  6. Puxa Tina, quanta coisa interessante e divertida nos trouxe com sua postagem! Adorei! bjs,

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  7. Mais curiosidades:
    Faltou a Ladeira do Quebra Bunda, que fica entre a Rua da Poeira e a Baixa dos Sapateiros...
    Você sabia que Mel é moradora da Ladeira do Funil?
    ;)

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  8. eu sou curiosíssima com nomes de ruas, Tina! A minha chama Rua da Memória, provavelmente por que fica pertinho do cemitério. Em Salvador, morei na Rua Professor Carlos Ott e na Rua Dr. Augusto Lopes Pontes (meu endereço preferido, mas morei só por alguns meses!). É muito bacana quando o nome "popular" vira nome "oficial", né? AMEI o post!!

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  9. Adorei as curiosidades, especialmente o beco dos barbeiros, profissão exercida por meu pai!
    Beijo!

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  10. Tudo interessante,...
    Beijo Lisette.

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