6 de outubro de 2014

Amizade por favor

Eu resolvi escrever esse texto para cronicalizar sobre quanto é difícil hoje em dia marcar algo simples, desde um encontro de final de semana a comemoração do nosso aniversário, um amigo secreto de Natal ou o que quer que seja.
E eis que fui revisar o que escrevi e percebi que ficou grande o texto e no automático pensei: Será que meus amigos e leitores vão ter paciência, tempo, atenção para ler? E esse é o fio da meada de onde puxar esse papo, pois esse um dos problemas modernos, as prioridades que damos a cada leitura, audição, pessoa, assunto, as prioridades da nossa presença real em meio a tantos chamados e demandas.
Cada vez mais cada um segue com o umbigo como ponto central, com o  rei na barriga sem nenhuma cerimônia, movido por seus interesses, com suas exigências, limitações e mimimis e nessa vibe, para que seu grupo de pessoas, das que você conhece a anos ou das que você convive todo dia no trabalho ou o grupo familiar tope tomar café juntos, jantar além do horário comercial e apertado do almoço, tope jogar um dominó, ir num cinema, praia ou algo assim bem prosaico, seja uma vez na vida ou algo periódico, tipo uma vez por mês para botar o assunto em dia e tal é preciso um estudo avançado de onde, o que, como. É preciso criar, fazer parte e estar 24 horas disponível num grupo no whatsapp, ou de alguém que se habilite aligar para cada um. É preciso pedir por favor, confirmação, mandar lembrete no dia anterior para ninguém esquecer e fazer sei lá mais o que para que aconteça o tal encontro. E tem mais, menos na verdade, nada de se pegar gosto, embalo, liga. Há que se fazer toda essa manobra a cada nova proposta de encontro. Com inevitáveis e variáveis furos, desculpas e desânimos individuais e coletivo.
Indo mais fundo, sinto falta dos papos nos portões das casa, na área de entrada ou corredores dos prédios, de estar neles, de jantar, tomar banho e sair para papear e quando ver já não dá mais para ver nem o jorna, nem anovela, porque papo bom é assim o tempo voa e nós ficamos ali plantados. Sinto falta de ver pessoas rindo alto, duas ou três falando ao mesmo tempo e o barulho parecer de 20, de crianças correndo, pulando, de brinquedos, de bola sem que ninguém ligue para a portaria ou para o síndico para reclamar.
Sinto receber ligações ou mensagens, já que ligar hoje é segunda opção, chamando para ir ali na Mac ou numa lanchonete do bairro onde se cresceu junto e se lanchou a muito custo um suco e misto e hoje o dinheiro dá para escolher o que quer no cardápio, com a sensação de que crescemos e ao mesmo tempo dimensionar o valor do que temos e muitas vezes não damos  o devido valor. O simples prazer de fazer um lanche em 15 minutos e passar 5 horas jogando conversa fora.
Queria ligar para as pessoa e dizer bora ali comer um acarajé, vamos caminhar na praia (só caminhar e beber água de oco, sem cachaça, sem motivo, sem nenhum assunto a tratar) e não haver mil lacunas e reticências. Queria não perceber sem muito esforço que as pessoas focam no objetivo comercial, pessoal ou logístico dos encontros (se perto, longe, o que tem, como, com quem, porque...)  que não é importante não ter nenhuma importância, que pagar para lavar o carro é super prático e vale o quanto custa, mas vale um dia lavar com um amigo, por terapia e para relembrar os tempos de pé na estopa. 
No quesito cada um na sua, já ouvi justificativas de compromisso inadiáveis que vão do futebol, academia, salão, indisponibilidade de acordar cedo porque foi dormir tarde no dia anterior até o fato preponderante de que não vai ter nada que interesse, assim, sem nenhuma elegância ou delicadeza para dizer isso.
Queria que de súbito, como que num estalo as pessoas percebessem que a quantidade de contatos que tem no face, insta ou zap, os likes, curtidas, compartilhamentos, são legais, mais não representa nem a quantidade de "amigos" que temos, a qualidade dos amigos que devíamos ter, que cada dia mais as pessoas estão inacessíveis, superficiais, individualistas, caras e rasas. Que amigos do tipo de graça, baratos, de pequenezas valiosas são artigo raro.
Tem quem tenha, eu tenho, amigos "ao alcance", dos tempos de escola, de rua, que cresceram juntos, que viveram tempos bons e ruins, histórias comuns, que poderiam fazer desses laços algo valiosos e agregadores uma base sólida, que conversassem e interagissem sempre em lugares menos barulhentos que não se ouvem uns ao outros e datas fixas. Que fosse habitual se juntar para ver fotos antigas numa tarde qualquer, sem inventar memórias ou distorcê-las, rir, chorar, lembrar, relembrar, resenhar, tirar novas fotos, saber mais uns do outros, o que mudou, como se sentem o que gostam, sonham, o que planejam.
Vivemos num mundo de muitos excesso e paralelo a isso muita carência e eu sigo aqui com paciência e pequenos gestos diários, como esse alerta, na esperança de papos no portão, mais ligações, interligações, da consciência individual e coletiva acompanhada de mudanças de atitudes, baseadas na certeza de que abraços, olho no olho, escutar além de ouvir, de que como disse o escritor e filósofo Voltarie:  "O supérfluo é coisa muito necessária".

10 comentários:

  1. Sinto a necessidade de amizade. e acho que o ser humano precisa do calor humano, mas a violência é um dos fatores que faz as pessoas de isolarem, não é? Sair na rua é uma aventura por aqui! Amei o texto, reflexivo! abraços

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  2. oi Tina

    Eu me sinto assim como vc descreveu.
    Antes a gente convidada para uma festa lotava, hj vc tem que ficar lembrando as pessoas.
    Eu tenho a necessidade de estar em contato com outras pessoas, e sinto sdd daquelas que estão longe.

    bjokas =)

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  3. Oi Tina!
    Muito bom seu texto. Também me preocupa essa distância entre as pessoas. Mas sabe o que observo em meu pequeno mundo social? Cansaço. Eu vejo as pessoas tão cheias de responsabilidades e trabalho extra, que o tempo livre querem ficar em casa, curtir a família ou então curtir seus próprios pensamentos. Não encaro como olhar pro próprio umbigo. Aqui em casa, por exemplo, é uma correria com trabalho, curso de especialização, assuntos da casa, um problema aqui, família que solicita pra determinada tarefa, cuidados com avó, mãe, médico, veterinário... E quem tem filhos então? Num final de semana, casa pra cuidar, trabalho pra concluir... E no tempo livre a única coisa que eu quero é me jogar na cama, ver um filme legal, ler um livro, fazer minhas orações e dormir. É tanta obrigação disso e daquilo, que no meu tempo livre eu quero um tempo pra mim. Claro que vez outra uma reunião com amigos, seja 1,2 ou 10, é fundamental. Encontrar esse equilíbrio tão necessário é minha meta : )

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  4. Oi Tina, olha concodo com vc , para ser sincera aqui só converso mesmo alguns segundos na esocla amigos profissionais, quando saímos d elá cada um na sua vida, dai alguns d aigreja tbm na saída ou na entrada uma conversinhaa qui ou ali, vivo de casa pro trabalho, igreja ou na minha mãe. Sinto falta de sair com amigos, mas cada um tem sua vida, os d emeu tempo, e depois que voltei para cá ficou mais difícil, me sinto só e por vezes triste de não ter amigos para sair, mas onde eles vão eu tbm não vou e não desejam ir comigo á igreja que é lugar que passo meus fins de semana, aqui a cidade quas etoda bebe, são apenas barzinhos não tem parque, shopping e a gente vai virando apenas amigos virtuais. Triste , mas real

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  5. Menina...eu li viu!!! Eu tenho amigos ao "alcance" ainda, mas nenhum deles infelizmente conversa comigo sem o celular do lado. Sério! Sou a única que conheço que não tem celular moderno com aplicativos de conversa a toda hora e mensagens que fazem com que sua visita, seu amigo, fique o tempo todo de olho na tela do celular...isso me deixa nos cascos!
    Os tempos mudaram mesmo! Deixo meu tempo virtual quando estou na frente do computador, quando consigo blogar e responder e-mails e quando estou face a face com a família ou amigos, estou alí por inteira, e não quero mudar isso, nem comprar celular moderno, pois já estão me cobrando...pode? Tipo..."Compra um celular pra gente conversar no Whats up Rosana! - E eu respondo - "Vc mora no meu quarteirão, vem aqui em casa conversar comigo uai!" - Pode!!!
    Agora eu falei demais!
    Beijos Tina Flor e adorei o texto!
    CamomilaRosa

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  6. Todos nos sentimos bem quando somos acolhidas pela amizade..Isso é DEZ! bjs praianos,chica

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  7. Tina, com o passar do tempo fui percebendo que os amigos foram ficando cada vez mais distantes. Uma nova família, mudança de cidade, outros círculos foram formados e eu fui ficando, quietinha, no meu canto. Tenho poucos e bons amigos. E nenhum tempo para eles. É a vida corrida.

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  8. Tina querida!
    Ando tão sumida, falta de tempo e dando um tempo talvez...esse meu tempo talvez esteja diretamente relacionado ao que publicou...as vezes me paro pensando sobre isso e volto, paro e procuro fazer justamente coisas do tipo, ir lá fora e chamar a vizinha simplesmente para trocar um olá, fazer um pão quentinho e ligar para uma outra vizinha que tenho mais intimidade e dizer vem cá rapidinho e quando ela chega tomamos um café passado na hora com um pão quentinho...tão bom!
    Fiz aniversário semana passada e muitos amigos me deram parabéns pelo Face e pelo "zap zap"...é a realidade, fazer o que...eu prefiro uma ligação, ouvir a voz, sentir a emoção...
    Queria aproveitar minha vinda aqui e te fazer um convite. Paralelo a meu trabalho artesanal na Kimimo estou entrando para o mundo da fotografia, tenho um espaço novo para divulgação do meu trabalho e gostaria de te convidar a me fazer uma visita lá no Blog.
    Um xero!
    Axé!!
    Debora

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  9. Eu aprendi que o tempo é tão relativo para certas amizades.
    10, talvez doze horas de uma vez e parece que foi um ano inteirinho, todo final de semana papeando, rindo, chorando, abraçando.
    Também queria mais conversa de portão! Beijo.

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  10. Eu li Tina \o/
    Aonde será que isso vai parar? Ás vezes desanimo, ás vezes penso depende também de mim, pelo menos no meu ambiente familiar não deixar isso ser maior que nós.... Vamos seguindo, é os tempos em que vivemos... Ainda dá tempo de resgatar?
    Um beijo querida,

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