26 de março de 2015

Do Caderflex ao Smartphone

Vi em um jornal local aqui da Bahia, uma matéria na terça passada que o assunto era a dispersão em sala de aula e os muitos grupos de WhatsApp, jogos e vicio de crianças desde os 8 anos de idade com os smartphones, que muitos pais disponibilizam sem limitações. Uma garota de dez anos disse, que fazia parte de 12 grupos (imagina isso), ela disse nem gostar mas ter que participar e ler as coisas se não ela fica por fora de tudo, além do que o pessoal fica bravo.
Sobre o tal zap, soube outro dia e fiquei indignada, que crianças de um telhado vizinho, foram informadas do falecimento de um ente querido pelo zap, antes da mãe ou coordenadora falarem com jeitinho #semcomentários.
No mesmo dia da reportagem, em sintonia, recebi por e-mail de uma amiga blogueira, mãe de uma trupe, avó de outra, do tipo moderna e a moda antiga, que estraga e educada, a indicação de leitura de uma crônica que me identifique com algumas partes e nem tanto com outras. Daí, não trouxe trechos pra cá, resolvi garimpar lá e desenvolver a meu modo.
Lápis de tabuada era terminantemente proibido e uns com bandeirinhas, se bandeiras e países fossem o assunto de geografia, também. Vale pontuar, que nenhum pai ia lá reivindicar a liberdade do aluno. Os exercícios preparados no mimeógrafo as vezes vinham ilegíveis e ao meu olfato, sempre cheirando a escola, eu adorava. Para tirar dúvidas dessas falhas de impressão ou qualquer outra, o colega ao lado, o mais esperto e a professora.
Muitas conversas paralelas, eu era frequentemente trocada de lugar por conta disso e o assunto não era só a tarefa, falávamos de tudo com os que ali estavam, as vezes em grupinhos em que éramos adicionados, outros formávamos e também circulávamos por alguns com poucas identificações.
Tudo olho no olho ou escrito em bilhetes, nos questionários escritos repetidas vezes por alguém da sala com perguntas de comportamentos e gostos (tipo os testes da Revista Capricho). Recadinhos  (e colas ou pesca como se chama aqui) na borracha. Nada que fizesse barulho ou envolvesse mais (para que mais?) do que aqueles seres ali presentes. E as histórias ali vividas eram assunto com a turma da rua na hora de descer, com os colegas das outras classes no pátio, na ida pra casa e algumas coisas era tipo o que acontece em Vegas ( fica em Vegas). 
Sou do tempo do quadro negro que era verde e do giz branco (enfileirados em caixas de papelão os novinhos e usados até o cotoco), passado um tempo apareceram professoras e seus gizes coloridos e também uns antialérgicos. No Cursinho pré-vestibular conheci a lousa branca que se escreve com Piloto (marcador). Ai nas escolas de filho e num breve período que lecionei na alfabetização, fui apresentada a lousa digital, tão sem poesia, tão cheia de necessidades de enquadramento, eletricidade, acessórios, pré preparação, tão se sentindo mais espertas e com equipamentos melhores as crianças diante delas e dos professores.
Quadro negro era coisa de professor e a criança tinha um certo respeito e encantamento. Algumas pediam como presente para brincar de ser pró. Acho que um quadro de giz hoje seria capaz de manter as crianças vidradas nas explicações, pelo tão diferente e simples que é.
Só tive cadernos de espiral no segundo grau (com rima sem querer). Usei nas primeiras séries uns que se chamava: de brochura, colados por dentro (tinha uns mais populares grampeados e outros costurados). O chique e resistente se chamava Caderflex e cada matéria era em um, com a capa de uma cor.
Os de espiral eu lembro que desencadernava com tempo e paciência que sobravam e forrava a capa. Capas muitos iguais as de todo mundo eu achava ou não tinha muita escolha nas capas dos cadernos do camelô. Forrava também para reforçar, capa dura foi luxo no segundo grau, que o namorado hoje marido me deu alguns e na faculdade. Nos capas moles, eu colava um papel duro sobre a capa ou passava pra lá e pra cá fita durex sobre os furinhos e depois furava com algum objeto. Forrava e enchia de adesivos, recortes, cobertos de papel contact os recortes ou toda a capa.
E se fazia bolhas, furava com uma agulha as malditas e passava o dedo até o ar sair. Espiralava o bonito de novo e tirava onda. Dentro, meus cadernos eram disputados para tirar cópia, pela organização, por não faltar nada, pelos desenhos das aulas de biologia (zero de humildade essa minha declaração).
Apontador, o melhor era um de metal. Os de depósito super novidade, retangulares ou em formas de morango, capacete e tal, tiraram a ida a lixeira para esticar as pernas, procurar conversa, desfilar. E nada de assoprar o apontador se uma ponta ou as lasquinhas de madeira do lápis ficassem pressas, se soprasse cegava, eu não tinha como pesquisar essa informação no Google, obedecia (as vezes não).
Usei muito borracha cheirosa também e da branca comum no fundo dos lápis, a branca pequena, a verde retangular grande e a para lápis e caneta que a parte para caneta rasgava mais o papel que apagava.
Caneta Bic, quatro cores, Paper Mate e calculadora era ostentação e modernidade de ponta. Eu tive todas e as quatro cores tive umas paraguaias ou orientais de sei lá quantas cores que meia dúzia funcionava). Tive Play (que tinha borracha na tampa), Bic comum, Kilométrica (a caneta simpática por um preço milimétrico).
Lápis sempre foi uma paixão, para rabiscos e coleção. Eu adorava uns lápis que tinham pontas presas a pecinhas plásticas que tirávamos e colocávamos umas atrás das outras (essa descrição para os jovens antenados e sabichões é como quando nos explicam coisas que nem de longe conseguimos visualizar). Tive umas que me mandavam os parentes da Espanha, com botões, enfeites na ponta.
Tive diversos estojos: de madeira, de lona, de lata, tive aqueles importados que abriam pra todo lado e que quando emperravam lá se ia o diário no quadro que hoje tá no site ou é fotografado.
Daqui a pouco as crianças não vão mais escrever e vai acabar isso de assinar o nome, de letra cursiva. Vai ser tudo digital, sem impressão pessoal, sem coordenação motora, sem respeito e gratidão aos professores.
Nada de ir a escola, sem caixa de areia, sem areia prateada, sem massa de modelar, sem questões abertas, tudo de marcar ou de clicar. E da escola ficará a memória do celular, tablet ou note (que estarão jogados num canto qualquer, desatualizados, descarregados, pifados). Como Toquinho pediu para não fazermos com nossos cadernos e eu levo a sério. Desde o be-a-bá, rabiscos, recados, cartas, até hoje, um sol me sorri num papel.
Papel ofício, metro, tinta guache, lápis cera, papel crepon para fazer fantasias, babados em volta de cartolinas. Papel camurça, papel seda para embalar chocolate na páscoa e dar aos colegas com bilhetinho escrito a mão. Urgente! Ideal! De ontem, para sempre.
Nada de celular na sala de aula, de estudar com celular do lado, de ficar ansioso e viciado em jogos e grupos virtuais. Aqui nem som, nem tv é permitido na hora de fazer dever e não adianta ser maior que eu e falar grosso. Isso é do seu tempo ouço muito e respondo e sigo com a ladainha que ouvi de minha avó e mãe, quando você tiver sua casa, seu filho...

7 comentários:

  1. Gostei do teu carinho e releitura do Carpinejar. Ficou tri! beijos,lindo dia,tuuuudo de bom,chica

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  2. Oi querida Tina, adorei o post!!!
    Que saudades do mimeógrafo!!
    Quadro negro e giz são mágicos, não devem deixar de existir!!
    Tenha uma excelente semana, beijos e fique com Deus!!

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  3. Era um rito de passagem poder usar um caderno universitário. Hoje tudo tão banalizado...
    Na minha escola tina inspeção de lápis logo no início da aula; nada de tabuadas estampadas neles. Caneta kilométrica, abolida à chibatadas!
    Sobre o novo material escolar, digo whatsapp, há muito o que dizer, refletir seus usos. Poderia sim ser abolido das salas de aula.
    Beijo!

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    1. Pontuou bem Ana!
      Ritos de passagem, ter idade para tal e tal coisa...
      Ter que fazer por merecer...

      Tem uma história que li certa vez que era mais ou menos assim: Um pai foi consultar um sábio sobre dar uma vaca para o filho pequeno que queria muito e ele tinha tantas e não via o pq de não dar, embora ele fosse tão pequeno ainda.
      O sábio disse: Não dê!
      O homem perguntou: Porque sábio?
      Porque não saber se terá ou não algo e não ter tudo que deseja faz a gente dar mais valor ao que tem.

      Sobre o zap em aula, eu como pró, coordenadora ou diretora, antes da aula ia ter um passa chapéu para recolher todos, devidamente no silencioso e ficariam fora do alcance visual das luzinhas.
      Na hora de pegar piscadinhas, recadinhos, pedido de beijo para resgate...

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  4. Acho que essa história está me incentivando a qualquer dia escrever um post assim: nunca fiz festa de aniversário para os meus filhos porque não queria que ganhassem presente.
    Vou tomar fôlego, ou fica aqui, no estilo stalkear!
    Beijo!

    Ah e amei a piscadinha ao final!

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  5. Menina que texto massa foi esse? Voltei ao passado.

    Você está certíssima, educação e limites são pai e mãe que dão.
    E que pena que a tecnologia está invadindo dessa forma a educação, tudo está perdendo o encanto do escrever, olhar, fazer manual, pegar o papel, a borracha, o lápis, sentir os cheiros. Realmente dá saudade.

    Você é ótima. Virando fã a cada dia dos seus textos.
    Você parece Luis Fernando Veríssimo de saias.

    Adoooro seus textos.

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    1. Veríssima foi ótimo!
      Sempre bom te ter por aqui!
      Obrigada e apesar de elogio de amiga de infância ser tipo marmelada fico lisonjeada, com rima e carinho.

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