29 de abril de 2015

Ao grande Abu

Quando vi ontem a notícia da morte do ator, diretor e apresentador Antônio Abujamraescrevi para meu marido pelo zap, que está em viagem sem muito acompanhar as notícias: Se foi Ravengar! Como estava programado o contar de um papo também pelo zap com uma amiga, resolvi com ele o dia começar e duas vezes hoje postar.
Assistimos, marido e eu, e adoramos a novela "Que rei sou eu?", de personagens marcantes, crítica política, história, humor, figurinos e cenários de pura arte e até revemos dia desses uma reprise, com especial atenção as cenas com Ravengar e com o Rei paspalhão, num canal pago. Além do bruxo de atuação ímpar, muito ímpar são (foram e então sempre serão) suas entrevistas e intervenções no programa "Provocações", que ele comandava na TV Cultura.
O que é a vida? Ele perguntava para encerrar semanalmente suas entrevistas e se a resposta do entrevistado não o convencesse, ele repetia tipo eco, até sentir-se satisfeito: "O que é a vida?" 
"Como é que você gostaria de morrer?", "Quais são seus males?", "Que pergunta você gostaria que eu tivesse feito e eu não fiz?" eram perguntas clássicas dele para investigar a personalidade de seus convidados. E tomando emprestado sua comparação, como uma Medeia, ele entrevistou personalidades diversas como Paulo Autran, Mario Prata, Maria Adelaide Amaral, Clodovil e Laura Cardoso. 
E além de todo esse currículo, da sua imagem marcante e voz imponente, o terreno, na verdade o tablado onde ele mais brilhou e fez semeadura, brotos, raízes é um espaço tão menos valorizado que deveria, tão rico e tão marginalizado em nossos país: o teatro. Digo isso porque adoro ir ao teatro, tanto pelos espetáculos sejam encenados ou musicais, quanto pela poesia do lugar, pela magia, simbologias. Fiz teatro, eu diria que mambembe, na infância e adolescência, nas montagens da minha Tia Nélia, nas da Escola e caseiras, fui Branca de Neve, figurante, Flor do livro O planeta lilás e muito mais. 
Declamo e reclamo porque amo, porque as peças são sempre muito rasas e repetitivas por aqui, eis um dos meus bem quereres por Sampa, são também de pouca temporada e concorridas as  mais aclamadas. Hamlet, por exemplo, a anos passados com atuação do meu conterrâneo Wagner Moura, foi em dias contados nos dedos e além disso, poucos amigos eu tenho, conhecidos serviriam, que queriam ir comigo.
E ainda tenho mais queixa, é que pensando em colocar meu filho para fazer teatro e desatar nós, abrir cortinas para vida e remexer na coxia de suas travas, me deparei com o fato de só haverem espaços com pouca ou nenhuma gestão, caindo aos pedaços ou acessíveis a quem for da área, a determinadas faixas etárias e muitos outros detalhes, perfis rotulados, qualidade questionável do ponto de vista comportamental, pergunto: Sabendo ser recomendado teatro para tantos bens, não haveria de ter, nem que fosse com interesse comercial, mais espaços para tal? Acho que merecia com tantos talentos, tanta cultura popular e abertura global, tanta criatividade, serem nossos teatros palcos de grandes públicos, mais bem cuidados, mais numerosos, com filas como na Broadway.
Fundou e conduziu companhias, peças, atores, propostas, lutas e na sua partida, para mim um detalhe cresceu diante de sua grandeza e codinome miúdo, além do profissional, intelectual, da pessoa que foi pelos depoimentos que deram seus amigos e colegas de trabalho. O alumiar tipo ouro, tendo não por acaso o mago nascido em Ourinhos, foi a declaração de seu filho, de que o pai andava triste a dois anos por conta da partida de sua companheira de décadas. Tão raro companheiros de décadas, tão mais comum após menos de ano já estarem em pares refeitos as pessoas, após a morte ou separação dos companheiros. Tão romântico se entristecer e padecer pela perda de um bem querer, tão humano, tão do coração é e por isso, ou ironia, afinal o teatro é esse misto de comédia e tragédia, drama e luzes, que foi o coração que o levou e nele ele permanecerá entre os seus, próximos e fãs. Foi estrela e estrela será a brilhar do infinito.

6 comentários:

  1. Bela e bem elaborada homenagem! Grande perda! bjs, chica

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  2. Gostava dele, do estilo, do jeito provocativo no programa da tv cultura, o provocações.
    Ficou lida a tua homenagem a ele, ao teatro.
    Beijo.

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  3. Oi Tina, eu também lamentei muito a morte do Abu. Adorava assistir ao Provocações, gostava de seu jeito irreverente e provocador.
    Fiquei tocada também por essa informação do filho sobre seu longo casamento. Pelo menos ele teve uma longa vida e pôde realizar muitas coisas.
    Bjs

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  4. Gostava muito do programa na TV Cultura. Bela homenagem
    beijogrande

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  5. Eu tinha medo dele rs...mas sempre foi muito talentoso

    bjokas =)

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