30 de abril de 2015

Ilustrações, escritos e prosas

"Diego não conhecia o mar
O pai, Santiago Kovakloff
Levou-o para que descobrisse o mar
Viajaram para o Sul
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas
Esperando
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia
Depois de muito caminhar
O mar estava na frente de seus olhos
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor
Que o menino ficou mudo de beleza
E quando finalmente conseguiu falar
Tremendo, gaguejando, pediu ao pai: 
- Pai, me ensina a olhar!"
Eduardo Galeano foi quem escreveu esse texto poema 
Em: "O Livro dos abraços"
Título a que me remete de primeira seu nome
Muito lembrado pelo seu lado politizado ele é
Para mim, o lado poeta é seu lado A
Esse ano, por acaso (ou não) eis que passou pelas minhas mãos outro livro seu vindo da Argentina, das mãos de meu irmão, para as de nosso pai, chamado: Palavras andantes e quando vi as páginas ilustradas com xilogravuras lindas, pensei que era nordestino demais para ele, quem dera o cabra galego não tivesse gostado. Gostou! Como não gostar? Vou ter que um para mim providenciar!
Eu, matriculada no dia 15 de abril, para fazer uma Oficina com o ilustrador pernambucano, pop e parceiro de Galeno, J. Borges, ouvi a tv dizer no dia 13 que o poeta foi abraçar e marear o céu. Ai, pensei: Vou fazer a minha primeira xilogravura para ele! Com o auxílio do mestre, bem querer e reverência aos pequenos grandes momentos que ele recomendava valorizássemos (e assim foi, mais ou menos).
Ilustrei quase nada, mas tirei muitas fotos (dia desses trago mais pra cá), cheguei a rabiscar um passarinho numa tábua a mim dada pelo mestre, sentada que nem fosse num ninho, do lado do homem, de canetas, estilete, lápis, óculos e muitas histórias no bolso da camisa, no pulso um relógio que nem o de meu saudoso avô (no bolso de meu avô sempre havia um lenço e um trocado). E essa foi a reverência que fiz aos grandes encontros, danei a prosear, ouvir causos, rir, contemplar a riqueza da simplicidade, a destreza de mãos bordadeiras de madeira, falar que nem a nega do leite e também espiei com encantamento os desenhos, histórias e cavucamentos das madeiras alheias.
Um de seus filhos que por lá estava, não um que se chama Ariano, em homenagem ao outro mestre, que o amigo me contou, esse se chama Pablo, simpatia e talento bem vi é coisa de família ou dá que nem mato nas bandas de Pernambuco.
A Pablo Borges, perguntei coisinhas sobre a arte de xilografar, ouvi instruções e peguei informações para tentar minhas produções em casa, longe do deslumbramento de estar ao lado de seu pai. Ele está todo dia e ainda assim parece saber o quanto é ímpar sua companhia.
Li por ai que em suas garimpagens de histórias, o amigo Eduardo dizia ter ouvido de tudo e o que de melhor ouviu, transformou em livros, onde no geral lembra como são grandes os pequenos momentos e como eles vão se abraçando, traçando a vida. A memória viva para ele e para mim nasce a cada dia, delicada, doce ou amarga, talhada na madeira, numa tela, papel, teclado, em nós, variada e invariavelmente como a própria vida.
José Francisco Borges, artista popular, mestre artesão é um mestre de simplicidade e simpatia com seus setenta e nove anos. Nasceu e vive no município de Bezerros, em Pernambuco e sua produção artística é reconhecida regional, nacional e internacionalmente e a partir desse reconhecimento e da divulgação do seu trabalho e de outros artistas, a xilogravura tem ampliado cada dia mais seu potencial comercial e artístico além das revistas de cordel. Arte tradicionalmente associada aos folhetos, popular, que a partir do desenho escavado na madeira e das impressões feitas com tinta prensada entre os cortes e o papel, revela temas da vida e da cultura nordestina, belezas, dores, gracejos, retratos de costumes, personagens, tradições, vivências e o imaginário individual e coletivo.
Arte feita com as mãos e que através das mãos de ninguém menos que J. Borges, tive a oportunidade de aprender um tantinho e de me encantar um tantão. Uma colher de pau ele usa para marcar o desenho no papel, antes de "destacar" da madeira e além de legal, para mim deu mais um bem querer a ir comer acarajé (vou lembrar do ilustrador cordelista artesão quando a baiana remexer na colher de pau gigante a massa do bolinho dos Deuses). É que o mestre antes de fazer cordéis e xilogravuras, fazia colheres de pau, da madeira do jenipapeiro e cada uma tinha um número, de acordo ao tamanho e imprimi na minha mente seus gestos com a mão toda xilografada pelo tempo, de com fazia a cava da colheres.
“Não pode olhar a lua sem calcular a distância
Não pode olhar uma árvore sem calcular a lenha
Não pode olhar um quadro sem calcular o prego
Não pode olhar um cardápio sem olhar as calorias
Não pode olhar um homem sem olhar a vantagem
Não pode olhar uma mulher sem calcular o risco”
Esse é segundo Galeano, um homem de êxito, ou como acham, julgam, se enganam os mortais. Meu êxito nem foi fazer a tal arte, porque não fiz e ainda que tivesse feito, foi está ali ao lado do homem mito, não pelas suas grandezas contábeis e reconhecíveis, mas pela vastidão das suas ricas miudezas. Seu Borges, escreve, edita, ilustra, xilografa, publica, vende, é artista, editora, gráfica. E quem quiser um exemplar em casa de uma de suas produções não precisa ter grana, nem precisa ir numa galeria. Basta desembolsar uns trocados num cordel ou por poucos reais leva um objeto com uma de suas obras para casa, as mesmas que ocupam paredes de importantes museus e que custam fábulas em galerias.
Vale visitar (eu cá já me bulindo para ir em Pernambuco) sua oficina, a 100 quilômetros do Recife. Garanto a quem for, que é certo além de madeiras talhadas e uma ruma de cordel, que terá de brinde uma prosa das boas, entre o mar e o sertão, entre rimas e ilustrações, entre a genialidade e a simplicidade. E assim encerro esse mês de abril, com o registro e compartilhamento dessa minha vivência. Até 2016 abril meu! Obrigada Deus!

9 comentários:

  1. Tina, adorei a poesia de Galeano.Linda demais. Assim como lindo foi imaginar teus trabalhos. Deves aqui mostrar!!

    Que foto linda, que bom poder bater papo, prosear e ser feliz com coisas assim! E abril se despede alegre! Que venha maio! bjs, chica

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  2. Amiga, que lindo texto. Muito bom contemplar a experiência e a simplicidade dos mestres. Parabéns da busca pela arte.
    Beijos

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  3. Traga fotos e ilustrações para cá, Tina. Seu texto é sempre delicioso, mas vai ser bom ver suas outras artes.
    Abraço!
    P.S.: participe do sorteio no minasdemim ;)

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  4. Que maravilha de encontro!!! E que encantamento é ler sua vivência tão maravilhada <3 viva a J.B e Galeano (sempre ....)
    Beijinhos açucarados!!!!

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  5. Ah Tina, também adoro Galeano e esse poema sempre me emociona!
    Que experiência incrível você teve na oficina de ilustração...a foto está linda.
    Os bons encontros nos trazem sempre alegria.
    Bom feriado!
    Bjs

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  6. Adoro bolso de camisa cheio de histórias! E vou juntar minha voz ao coro: mostra para gente tuas ilustrações, artes, arteirices.
    beijo!

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  7. Gostei muito de conhecê-lo através de você..sensacional!!! Bjs Roseli

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  8. Fico feliz por essa 'experiência' tão rica em VIDA na sua vida!
    Sua irmã

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  9. Nelia Paixão07/05/2015 09:13

    Tina, querida, só agora abri meu e-mail e vi sua postagem maravilhosa! Parabéns pelo momento especial, você MERECE! Bjs.

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