30 de maio de 2015

Do festejar

Eu acho que vale festejar desde o brotar de um feijão no algodão com uma criança que espera, até o ninho de um pássaro no nosso telhado, o dia do primeiro beijo do casal, aniversários, bodas e o que quer que seja. Deixar passar em branco é um desperdício e noutra ponta fazer eventos megas (muitas vezes sem dinheiro, sem bom gosto, sem identidade e outras peculiaridades) também é desperdício e tem virado viral, vício, Freud explicaria como carência, trauma, necessidade de aparecer. Quando vejo certas notícias e exageros vem no automático o velho: Quer aparecer, pendura uma melancia na cabeça! Inspiração para essa resenha aqui.
Não me furto de dar minha opinião, a quem interessar possa, sem querer ser a dona da razão, com a compreensão que cada caso é um caso. Certa vez resenhei sobre ser parte da festa ser o esperar, o preparo e assim esses exageros encomendados perdem o valor (clica aqui e aqui pra ler e comentar se desejar).
Se não já falei aqui, falei e falo por ai, por exemplo, que acho feio, forçado, acho um pecado a tal da foto modinha de babys destruindo bolos. Um bebê sujo comendo manga em casa, chupando um picolé na praça, praia, sujo com alegria genuína, no momento do ocorrido, com o prazer, com história para contar, com olhinhos a brilhar vale. Há um bolo encomendado para ser destruído, com tantas crianças que nunca tiveram um bolo de aniversário, um viés de não dar modos, do tipo não pode pegar, tem que usar usar pratinho, garfo, com a mão não. Nada levado em consideração em favor da modinha. Não! Sem meias palavras, não acho legal.
Isso de 20 casas de padrinhos para o noivo e 20 para noiva, não é escolher padrinhos, não é honraria dada e recebida, é um não escolher, é feio no altar, é exagerado, cansativo, chique é menos, para roupa, para quantidade de padrinhos, para maquiagem e muitos etceteraťs. Para que tá feio! Convites com joias, presentes tipo pagamento para padrinhos e convidados, os presentes escolhidos pelos noivos e pagos no cartão a parcela pelos convidados, cadê a identidade das coisas, o pessoal, a elegância, a poesia?
Cada passo na festa, cada foto, tudo pensado, tudo com estratégias, tudo forçado, sem naturalidade, sem personalidade, sem envolvimento. Festas pessoais se tornam cada dia mais corporativas e exibicionistas. Falta respeito aos templos e figuras religiosas, seja dos idosos presentes (pais, avós, tias), dos Padres, Pastores, Guias espirituais, falta de respeito com as imagens e objetos religiosos. Joga-se Santo Antonio para cima, escreve-se em placas que só casou agora porque o Santo era a fim de mim (cruzes). Gritos dentro da igreja, tapinhas na bunda, beijos de filme proibido para menores, trilhas sonoras que não condizem com o local, danças e um sem fim de falta de elegância, de limites. A festa e o soltar a franga não ficam mais para depois, para depois é outros tantos exageros, gastar de dinheiro, falta de detalhes que encantam e que falem sobre casamento, sobre o casal, falta da celebração de fé, de religiosidade pura, concentrada, juras, compromisso selado, seriedade e entrega, olho no olho necessário no pós troca de alianças. Tudo encomendado, nada de dentro. Até para lua de mel, não se vai mais só, uma galera, festa, bebidas, brindes, fotos. Nada de enxoval, de momentos a sós, tudo over e para o mundo ver e quisá se tornar viral.
E nessa, desde o comemorar, não com sorrisos e percepções de mudanças, mas com bolo (mão da mãe ou da vó, ou da tia boleira, bolo de griffe, nada de fazendinha, time de futebol ou rosa com confetes, temáticos modernos e igual ao de geral, com mais enfeites que sabor) e convites a cada mês de uma criança, mensário (suspiro). Até a festinha inocente do pijama, com lençol de cabana, tá virando evento encomendado em casa de festas, com Dj e nem sei mais o que, me furtei de ler (fica a vontade, clica aqui para ver uma reportagem).
A festa dos filhos muitas vezes é dos pais, festas de quinze anos sem nenhuma simbologia de ritos de passagem, sem a identidade do aniversariante que por ter 15 é padronizado, da música a decoração que tiver na moda. Meu filho fez quinze sábado, fosse uma menina e fosse de seu gosto, ia ter o baile de debutante que não tive, quisesse ir a Disney, iria, ou ao Japão. A lista de amigos meus e dos pais é grande, chamamos alguns em nossas comemorações. A festa foi para a galera de 15, para ele sentir que era para ele e dele. Até hoje ouço as batidas do rock em meus ouvidos, curti, adorei, em alguns momentos quase surtei, levei sandália para trocar e nem troquei, como fui arrumar o lugar, fiquei.
Avós e tias pelo meio dos tais agridoces adolescentes, cada um a seu modo, com a boa e velha lição de que família é tradição. Deve ter tido azaração, quem não com essa idade, estava me divertindo não vi, se vi não reparei, acho normal, são normais eles, ainda bem, que sejam sempre que puderem nesse mundo cada vez mais paranoico que vivem, que não entrem na roda louca dos exageros nem pra mais, nem pra menos.
Ver todos a vontade como se tivessem no pátio da escola em aulas vagas sequenciadas foi a visão de comemoração para mim. Saíram de fato da Escola para lá, em duas vans e outros tantos convidados extra escola foram a vulso. Sem regras de eventos cheios de mimimis, onde os convidados mais parecem parte de uma atuação, com papeis e posições estabelecidas, sem hora disso e daquilo, sem bebida alcoólica servida para os menores, mas tinha para os adultos, porque não, cada coisa a seu tempo, ver e não poder educa eu creio. 
Com carne, saladas e cada um a seu gosto, sem ter perguntado antes nem na hora o que você come e não come, gostou coma a vontade, não gostou coma menos, é o que temos para hoje. Nada de dois cardápios ou menu. Picolés de frutas, tapioca, amendoim e milho verde, mil vezes a pergunta: tem de chocolate e a resposta: não! É que os sabores escolhi para mim.
Um bolo, devorado até o último pingo de glacê, nada de exageros, de caixinhas de leve para casa. De lembrança levaram o que ali viveram. Fotos registraram também. Teve cair na piscina de roupa, teve cantoria desafinada em parceria com a afinação da banda e letras de música bizarras, muito riso, sem noias, sem roteiro, só mesmo o com o bom velho festejar que cabe e sobra no ser e estar.
E ele lá batendo cordas no violão que a pouco tá tendo aulas, cantando no microfone, coisa que não fazia a pouco nem no chuveiro e a pergunta de se ele vai querer tocar profissional, como a do que vai querer ser ou até do que quero que ele seja, digo sempre que ele ainda não sabe e eu acho que não cabe a mim querer. Quero que seja feliz, que seja um bom menino e um bom homem. Tocar que seja para relaxar, pra desabrochar, por ouvir mais, tocar como forma de arte ou oração, já que dizem que quem canta reza duas vezes. Se quiser como profissão, bom também.
Festas boas sãos as com danças ensaiadas, decoração primorosa, vestidos lindos, sendo com carinho e sem muita exibição, são também porretas as festas na laje, com gelo no balde e que pegamos tudo com a mão. Festas boas fazem pessoas comuns e sem instrução pelos idos do sertão, sem nem saber fazer lista, nem ler, ou escrever, mas cantam modas, dançam, tocam, festejam a vida, o que ter comida, teto e até o não ter, mas ter por onde buscar, ter sonhos, além de convenções, ostentações, além do que se engana ser festejar.

7 comentários:

  1. Tina, falaste tudo e concordo...
    Nunca gostei de coisas pra aparecer e pra mim vale o que vem de DENTRO!

    Infelizmente aniversários infantis são eventos. Quer coisa mais cafona que estares num J.Botânico por exemplo e chegar uma cambada , fotógrafos correndo atrás de uma moça, ou de noivos, dando o roteiro da foto.

    - Agora é hora de sorrir!
    - Agora hora de olhar olhos nos olhos!

    E paro por aqui nessa das horas pra não saltar algo que tá pulando pedindo pra falar aqui,rs...


    Assim, em casamentos, grandes eventos com a figura antipática da cerimonialista que estraga toda a naturalidade dos noivos e convidados. Enfim, nem preciso falar mais.

    Já viste que gostamos de festas, mas coisas simples, sem gente empetecada !

    Podem até se empetecar, mas devem estar livres, naturais e assim agir. Sem aquelas caras e bocas , biquinhos e tuuuuuuuuuuuuuuuuuuudo mais, que sempre me fazem lembrar as filhas da madrasta da Cinderela...

    Bom, falei tanto que agora vou colocar a língua de milho,rs Lindo fds festejando o dia e vivendo com alegria.

    Isso sim vale!

    bjs,chica

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  2. Que festa bonita a do seu filho! Parabéns!
    O meu também vai fazer 15 em breve...
    Celebrar é algo sagrado, qualquer que seja o motivo. Traz alegria à vida.
    Celebrar é ser e não parecer ser.
    Adorei seu post.
    Bjs e com fim de semana

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  3. Oi, Tina!
    Gostei: Quem canta reza duas vezes!
    A vida anda artificial, uma felicidade ensaiada para sair bem na foto. Esse mundo é estranho pra mim... cadê a espontaneidade e a valorização certa dos momentos?
    (Chica, #euri com as filhas da madrasta malvada da Cinderela...)
    As pessoas sempre quiseram fazer bonito com as festas ou melhor, dar ao homenageado um agrado para se sentir especial. Acho linda as festas de deputantes, mas acho que não existem mais. Talvez por causa disso, os casamentos se tornaram eventos competitivos entre as amigas. Na verdade, estou procurando justificativas e não as encontro. Acho insano.
    Bacana é estar entre as pessoas que amamos ou que nos fazem bem para que uma data seja inesquecível. Tenho certeza que o seu filho irá se lembrar por muito tempo de sua festa e com grande prazer.
    Talvez tenhamos filhos da mesma idade e, por aqui as coisas não são muito diferentes. Meu filho odeia "ostentação" e até se sente não merecedor de alguns mimos que recebe.
    Não tenho muito o que acrescentar, você escreveu tudo!
    Estou cá pensando nessa moda de destruir bolo... Que pecado!
    Bom fim de semana!
    Beijus,

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    1. A idade que me referi acima não foi a cronológica. Vejo uma disparidade entre as mentalidades, como se existisse uma linha invisível separando o modo de conduzir da juventude.

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  4. Tina os exageros tiram o brilho, a sensação de borboleta no estômago quando se esperava pelo primeiro convidado.
    Estou desatualizada dos modismos nas festas, mas chega a ser absurdo 20 padrinhos num altar. Soube esses dias no caminha à pé para a escola ao lado de uma mãe que a modinha para a festa de 15 anos é a debutante levar dez amigas a bordo de um cruzeiro.
    Difícil.
    Beijo!

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  5. Tina,concordo com tudo!
    A festa do aniversário do filhão deve ter sido linda!
    Beijos
    Amara

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  6. Já não tenho paciência para as festas de agora, tudo muito artificial. Eu que nem deixava que os meus filhos rasgassem o papel que embrulhava os presentes, desembrulhavam devagar, tentando não rasgar, saboreando cada bocadinho da espera, e assim eles aprenderam a reciclar.
    Festa de casamento então é que já fujo, cada moda que não lembra a ninguém. Enfim, sinais dos tempos. Estou com você também naquela do bolo, criancinha estragando bolo não me agrada, do mesmo modo que nunca permiti cá em casa luta de alimentos, comida é para comer e não para brincar.

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