7 de maio de 2015

Do não entender

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo." Clarice disse e eu repito e sempre digo que quero morrer não entendendo certas coisas. Tem ainda as que não me interessam, não tô com saco, com tempo ou sei lá. Não tenho pudores e nem nunca tive para dizer que não sei, não entendi. 
O não saber é vital, humano e até sagrado eu acho. Não preciso de saberes e provas para ter fé por exemplo, de estatísticas ou maiorias para torcer, não preciso saber tudo, não tenho como, não tenho como ler todos os livro,  ouvir todas as músicas, ir a todos os lugares.
Não se cobrar, não somatizar é uma ótima opção. Olhar de cima (não do salto e as vezes sim, confuso tipo Caetano rarara), quando em vez olhar para baixo, olhar de frente, olhar pro lado (sempre), não olhar. Não ser exigente, relevar, pensar: O que isso representa na minha vida, um copo que quebra, um filme que não deu para ver, alguém que resolve ser mal agradecido, que fique com a conta quem não estiver em dia com suas gratidões e gentilezas, nossa vida tem que seguir sem se estremecer.
Se o conjunto de copos era de seis, passa a ser de cinco e as vezes é fato que se passam cinco meses ou anos após um quebrar e nem usamos quatro deles, para quanto mais os seis se tivesse completo o conjunto. O filme podia não ser bom, pode ser a salvação num dia de tédio qualquer em casa, e assim nosso barco segue em mares tranquilos e as grandes tempestades, não nos pegam tão vulneráveis, quando inevitavelmente chegam.
Dentro dessa perspectiva, acho que a idiotice e a inocência, são qualidades as vezes. Carregar as imperfeições com charme, com senso de humor e ver assim os outros e o mundo também. Gente inteligente demais, exigente demais, sempre séria, é um saco e sofre mais. Rir por nada ou de tudo, falar besteiras, falar mal dos outros as vezes, porque não, é terapêutico e se não é deveria ser considerado. Assim como xingar, não dá para levar uma topada ou ser molhada por água suja quando um carro passa numa poça e dizer: Deus querido, o que foi isso ? ou Nossa Senhora lhe abençoe! Até dá, mas não alivia, não extravasa como um bom e carregado de emoção, palavrão.  
Como disse Leminski para fechar em tom laranja e de bigode grosso, na vida ninguém paga meia, então vale deixar a seriedade para as horas em que ela é inevitável, trabalhos que exijam, perdas irreparáveis, tragédias, separações, dores e afins. No dia-a-dia, ser idiota, não entender, rir dos próprios defeitos, dos defeitos dos outros, não estender grandezas e ser especialista em miudezas, não ligar para quem fica catando defeitos em você, não catar defeitos além dos muitos alheios, ignorar o que o boçal do seu colega ou chefe diz, são uma boa, parece pouco mas é vasto, parece raso, mas é profundo e muda o mundo.

7 comentários:

  1. Temos todo o direito a não entender as coisas que vemos, ouvimos ou nos mostram. mas temos que saber que é melhor falar, confessar que assim acontece... Aí sairemos ganhando, no mínimo, uma nova ex0plicação! bjs, lindo dia! chica

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  2. Vou trazer Manoel de Barros e um dos trechos de seu Fazedor de Amanhecer:
    "... Cheguei a ganhar um prêmio das indústrias
    automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
    Fui aclamado de idiota pela maioria
    das autoridades na entrega do prêmio.
    Pelo que fiquei um tanto soberbo."

    Tão saudável às vezes nào saber...
    Beijo!

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  3. Quisera eu escrever bonito assim!
    Adoro entender o não entender de seu texto, apesar de que pouco entendo, à fundo, de quase nada.
    O meu não entendimento é vasto, é indescritível e adoro caminhar por ele.
    Enfim, confesso que amei.
    Beijos Tina.

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  4. Acalmei-me, águas mansas agora estão até translúcidas no meu saber e entender!

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  5. Maravilhoso seu texto...e vamos sorrir mais e rir das nossas tolices!

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  6. Tina,foi pra mim que você escreveu isso hoje né?
    Hahahahaha, só pode. Amei.Amei.Amei.
    Um beijo

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  7. Concordo amiga. As vezes é mais feliz quem vive na ignorância!Vamos nos preocupar menos e viver mais. Vamos nos criticar menos e sorrir das pequenas coisas! Adorei o texto, como sempre. Bjo

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