6 de maio de 2015

Nós, alvos ou cinzas

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos –, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. 
Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”. 
Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que,  para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. 
Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. 
O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fi zera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.  
Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música , Nietzsche observou que gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza." 
Não é fácil para ninguém viver, ninguém é cem por cento feliz, ninguém tem tudo que quer, tem quem nem sabe o que quer. Natural de Boa Esperança, Rubem Alves, através desse conto breve, faz a esperança e o ser feliz até com areia nos olhos brotar em nós, com toda sua pedagogia, teologia, poesia e tantos outros atributos acadêmicos e profissionais, embora ele tenha dito que a melhor definição que teve de si mesmo foi feita por um garoto: “Um homem que gosta de ipês amarelos.” E foi esse homem, que dizia e assino embaixo e daí me defino e crio os perfis que tenho dos outros: “As pessoas são aquilo que amam”. As coisas então não são como são, são como nós somos. Que assim sejam, que entre boa marés e agitação, entre grãos de areia e espumas puras e leve, sejam felizes. Okay?

6 comentários:

  1. Lindíssimo,Tina! Rubens Alves maravilhoso, linda lição a lembrar sempre! Adorei! bjs, chica

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  2. Oi Tina, adoro tudo o que o Rubem Alves escreveu, esse conto é um dos meus preferidos.
    Espumas branquinhas e ondas suaves desejo para você.
    Bjs

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  3. Chegar aqui e encontrar Rubem Alves é rememorar tantas coisas.
    E sempre algo fica acrescentado em nós quando de um encontro com o que ele nos deixou.
    Beijo!

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  4. Gostei muito!!!

    bjokas =)

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  5. Tina minha querida, olá. Que crônica linda e tocante. Devemos sempre aprender com nosso olhar, nossa criticidade a algo e na mais pura simplicidade humilde.
    Assim como a ostrinha protagonista fez da dor seu melhor catapultar, aprendamos a fazer o mesmo diante do simples e, por que não?, do complicado.
    Beijos mais.

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  6. OI Tina,
    meu muito amado Rubem Alves possuía na leveza do seu olhar o dom da interpretação sensível que fala e cala n'alma de quem o lê.Sempre haverão grãos de areis aqui ou acolá, o segredo reside em transformá-los ou superá-los com perseverança.
    Doces marolas em teus dias.
    Bjos,
    Calu

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