23 de junho de 2015

Das fogueiras do coração

Vi de passagem por algum canal, Gilberto Gil respondendo a pergunta de qual era a lembrança mais viva que ele tinha das festas juninas. Antes de contar, para entrar no clima e contextualizar, para os que aqui passam sem ser nordestinos, os que nunca por aqui fizeram pouso ou passaram por essas bandas por essa época e além dela, sem ter vivido, provado, o caipira, o sertanejo dos festejos do mês de junho, que começam com as rezas e festas para Santo Antônio, vem o São João (ver algumas histórias aqui) e fecha no São Pedro, segue um remedar de retalhos.
Já a um tempo, observo que por serem de origem e cunho religiosos os festejos, muitas pessoas vem deixando de vivê-los, o que pode se fazer sem o crer, sem o assim ser. Posso fazer Yoga sem ser indiana, budista ou sei lá o que. Posso usar quimono ser ser oriental, tal e coisa, coisa e tal, mas enfim, cada um com seus sem fins de restrições, individualmente e em suas famílias, nos prédios e também instituições como escolas, repartições, comércios, vem se deixando de pendurar bandeirolas, balões, deixando de tocar as modas de viola, de reverenciar e curtir o animado vai e vem das sanfonas, o trilintar do triângulo, o eco da zabumba por ser coisa ultrapassada, sem modernidades e afins.
Crianças não querem mais se vestir de caipiras, porque é jeca, o look Country até topam ou de algum personagem que use roupa de quadros, cangaceiros nem pensar. E além das crianças cheias de ses, muitos pais não vestem as tais ou as sem mais, porque é um símbolo do coletivo festejo aos santos, de pobreza, de política. Oh Lampião! Nada de casamentos na roça, com meninas de noiva animadas por casar e noivos levados ao altar no jeitinho, poucos chapéus de palha, bigodinhos e costeletas nos meninos e pintas na bochechas das meninas, para não dar alergia uns, para não incentivar a se maquiarem e tatuarem outros (quanta bobagem). Toalhas de chita são peça de decoração de lojas de grife, vi no shopping um lencinho de quadros infantil (tecido vagabundo), todo elegante na vitrine, por quarenta reais, na feira não passam de cinco os tais. Todas enfeitadas de flores de crepon, estandartes, bandeirolas, correntes coloridas, peneiras decoradas, cetos, laranjinhas e milhos estão as feiras daqui. Artesanato, culinária, decoração, moda, tradição que é muito além da fé, é cultural e também sentimental. E também, pra fazer subir e explodir que nem foguete o lamento, tem muita gente, muitas escolas, prédios, casas, grupos mantendo vivas as tradições, na capitá e pelos caminhos das roças, em arraiás, quintais, portões, crianças e marmanjões.
E na costura das diferenças e vivência, um fio de bandeirola nas ruas de Sampa, no Rio, na França, Portugal, um balãozinho feito de dobradura de papel, um punhado de amendoim, uma laranja descascada em espiral, licor de jenipapo ou a voz de Luis Gonzada, Dominguinhos, Elba ou outro cantador qualquer, um trechinho de Asa branca, pra quem nordestino for ou para quem por acaso, opção, destino por aqui passou é equivalente a uma passagem de ônibus ou de avião, é sentir um chinelo de couro no pé, cheiro de canela para salpicar na canjica, borbulhando no fogo, ou de um pedaço da de pau fervendo entro da panela do quentão. É abraço bom dos parentes dos interiores que quem tem como pagar a passagem abraça nessa época e depois talvez, só no Natal.
Só de ver alguma dessas alegorias, de ouvir, ler aqui, de falar desse pouco e de outras coisas mais ou menos, como as que acabei de enumerar, um nordestino grande vira menino, faz uma viagem sem sair do lugar, vai na praça da infância, no coreto, na escola, vê os vizinhos, o campinho de futebol, os rostos, lugares, objetos, as vozes vindas do passados, risos, lamentos, sabores, cheiros: de fogos, de fogueira, de terra molhada pela chuva que sempre cai nessa época.
Como arremate, tipo fita pra dar laço na ponta da trança das meninas, já contei aqui (é só clicar para ler), o que tem a ver o milho com essas comemorações, que tem na terra em que nascemos em que plantamos e colhemos, lá no mês de março, nos braços de São José, referências e reverências santas. Clica aqui, também, quem é de gosto por xerém, beira de forno e fogão, preparado para imagens fortes. 
E através da lembrança de Gil, o que tema ver as laranjas é o que vou contar pra modi essa prosa de onde comecei, encerrar. Ele contou que nessa época, de fartura nas laranjeiras, nas idas e vindas rasteiras e trabalhadeiras, de casa para a rua e vice versa, todo mundo chupava muita laranja e as casas eram guardadas. Todo animado e cheio de garbo, Gil chegava na noite da fogueira festeira para João, com uma braçada de cascas e como era costume jogava elas no lume. E as casas faziam e fazem o cheiro de laranja subir e junto com o perfume, estalos e faíscas, típicas, alumiadas de poesia, de alegria, de festa e também de fé, porque as coisas todas, para ele, para mim e para Guimarães, estão todas amarradinhas em Deus. E dessa vez é mesmo finda a escrivinhança, bom dia de véspera, boa noite e dia de São João prôcês e pra toda a vizinhança!

12 comentários:

  1. Tina, adoro ver as tradições mantidas e São João de verdade é por aí! Aqui, lembro quando as crianças eram pequenas, festinhas muito lindas.Agora é tudo nos clubes, chatices,. gente com roupa de festa chique pra ir ao S.João.Não combina! Cada vez menos por aqui!

    Aproveita bem aí e curte bem as cores, sons e tuuuuudo de bom nesse S.João!! bjs, chica

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  2. Uma cerca de madeira gasta pelo tempo com as cascas de laranja penduradas, lembrando o ondular de um cabelo, veio-me à mente. Agora fiquei foi com vontade de colocá-las numa fogueira.
    Ah um São João assim perfumado deve mesmo ser especial!
    Beijo.

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  3. Olá Tina. Que alegria ver vc por aqui. Obrigada!! Ah...as festas juninas são fantásticas. Por aqui temos tradição. Numa fazenda de amigos, estivemos festejando semana passada. Foi lindo, incrível, com uma fogueira gigantesca, terço com todas as rezas. Vestidos de caipira dançamos a famosa quadrilha kkkk Adora essas tradições, acho que conserva valores que agora está perdido no tempo. Famílias se reunem como nos velhos tempos.
    Um grande abraço querida

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  4. Meu filho este ano não quis dançar acredita?
    Não queria pagar mico rs..
    Mas eu gosto e acho bonito.

    bjokas =)

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  5. Aqui as tradições ainda são mantidas e eu cresci entre elas, passo para a Alice a cultura, mesmo nãos endo católicas, ela dança quadrilha, pq é sinal de cultura e tradição e se veste de caipirinha , com pintinhas e tranças afianl agradecemos a Deus a fartura do milho, da colheita nas festas. o que tem sido pouca este ano, ontem na festa da escola não tinha pamonha nem milho nem cangica, só bolos e afins. precisamos de chuva. tem novidades no blog bjs

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  6. Ah Tina que coisa mais linda seu texto, cheio de boas lembranças e tradição!
    Vou te contar, vivi um tempo muito bom em minha infância e juventude, onde perto de casa tinha uma praça e era tomada pelos moradores, vestidos à caráter para os festejos juninos e não tinha essa de serem ou não religiosos, as pessoas curtiam mais pela tradição brasileira e pelas músicas sempre relembradas.
    Hoje, o que vemos, até mesmo nas escolinhas, é um arremedo daquilo que foi tão belo e original. Esta lembrança do Gil é uma pérola, deve ser por isso que ele virou artista, também tão cheio de inspirações, só podia dar nisso!
    Estou de saco cheio de ver festas juninas atuais com músicas sertaneja universitárias, onde eles cantam para promover bebedeira e machismo, ridículas músicas! Tão bonito era o repertório desta época, e mesmo com cantores sertanejos, a gente saia um pouco da cidade grande, relembrando como eram os campos e sua gente, dávamos com isso, valor para aquelas pessoas, e hoje ...
    Pra dizer a verdade, nada me encanta atualmente nestes festejos, mas vi noutro dia, com espanto e bastante alegria, uma festa junina de crianças de uma escola Waldorf em Sampa, coisa mais linda, os pais participando, cantando juntos com as crianças e fazendo rodas com tochas nas mãos e no escuro da noite, fiquei completamente encantada vendo o vídeo e pensei, pode ser que tenhamos ainda alguma esperança, né mesmo?
    um beijo grande carioca


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  7. Que texto delicioso. Me transportei para esse lugar de tradições antigas em que as crianças e jovens de hoje em dia não topam muito.
    Adoro festa junina, vou adorar sempre! Pelo simples, pela fartura pela alegria e pela tradição!

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  8. Olá, tudo bem?
    Sabe, eu não gosto desta repaginada estilizada que deram nas festas de São João. aquelas que mostram na TV, no Nordeste, parecem festas robotizadas. Preferia as antigas, mais simples, sem competições... mas continuo gostando das comidas...

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  9. Oi Tina, que belo relato do Gil, poético até.
    Eu adoro festa junina, gosto de dançar quadrilha, comer os pratos típicos, das brincadeiras, um sabor de infância.
    Espero que essa tradição nunca se perca.
    Bjs

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  10. Querida amiga

    São João
    para nós Nordestinos,
    é um período leve.
    Música. Quadrilha.
    Gonzaga. Amizade.
    Tantas coisas e sentimentos
    dançam de mãos dadas
    nas avenidas iluminadas
    do coração.

    ___________________________

    Gostaria de convidá-la a ler
    as postagens do blog
    www.semvoceeunaoseria.blogspot.com

    Nele estou publicando as primeiras
    páginas de um novo projeto de livro
    com músicas e poemas sobre músicas,
    e como sempre,
    sua opinião é para mim
    deveras valiosa.

    Um imenso abraço.

    Aluísio Cavalcante Jr.

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  11. Oi Tina você sempre genial com seus escritos heim!. Trouxe-nos essa riqueza de postagem, sim, um verdadeiro banho de ouro cultural, arrancado das grandes festas nordestina (Doces batatas assadas na fogueira) e uma saudade queimando no peito. Aqui em Brasília, ainda encontramos muitas Festas Juninas, em Igrejas, colégios. Há concurso para apresentação de quadrilhas quando premiam as melhores, é um ritmo muito gostoso de se apreciar. Eu adoro Festa Junina, que quando se estende passa a ser Julina. Me recordo dos estalos produzidos pela casca de laranja na fogueira, tudo tão marcante na minha infância , apesar de não ser do Nordeste. E a canjica com canela deu água na boca, vou já comprar e preparar. Mesmo sem festa. Outro dia a mãe da minha nora, fez em sua própria casa( ela é da Paraíba ) uma festa típica Junina com tudo que tinha direito, até pescaria, que os adultos também puderam participar. ÔÔ coisa boa. Nota Mil pra você. Muito bom te ler. Parabéns. bjs

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  12. Você coloca tudo num jeito tão gostoso, que me deu uma saudade dos tempos que morei por ai...
    Bjs e um Feliz São João para vc e toda a família!

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