20 de junho de 2015

Do comer, rezar e amar

O tema proposto para BC de hoje, de uma série que começou no sábado passado, em parceria com minha com Ana, é comida. Ai, resolvi não falar de nenhum prato típico baiano, nem das minhas raízes espanholas, nem de comida italiana, oriental ou árabe que adoro. Também não vou falar de minha irrestrita tolerância e bem querência por leite, pão, calorias e carboidratos, nem da intolerância alheia. Não vou fazer um chamado para boa alimentação que para mim vale a seleção tanto quanto como o que ouvimos, assistimos, acreditamos e assim tudo que nos faz bem ou mal, que como sal, nem muito, nem pouco, é o ideal. 
E sobre o que vou falar dentro do tema comida? Sobre: dividir e multiplicar. Tudo a ver com o época junina e o meu ser nordestina. É que nos interiores aqui é tradição nas noites de São João as pessoas irem de porta em porta perguntando: São João passou por aqui? E assim em cada casa, todos entramam e comem alguma coisa, levam  alguma coisa pra casa, passam deixando também, em prato descartável ou na vasilha mais bonita que tem em casa, coberta com pano bordado e rendado, coisas fresquinhas: canjica, bolos, amendoim, pamonha, lelê, milho cozido ou assado na fogueira, quentão, licor, tudo caprichado no sabor e no amor.
A história do dividir e multiplicar que acabei de ilustrar com o contar do hábito da gente simples aqui dos sertões e redondezas, servi de prato do dia, para fazer refletir de sobremesa sobre um contar do compadre Mário Sérgio Cortella, em uma de suas muitas palestras e entrevistas que já assisti, algumas repetidas vezes, como comida que a gente gosta. Ele fala do hábito, cada dia mais raro, de as famílias ou grupos de amigos marcarem de se encontrar na casa de um e de outro, em datas festivas ou em dias de domingo e o combinado ser cada um levar um prato, uma colaboração, um prato principal ou acompanhamento, lanche, sobremesa. E assim cada um levando uma coisa o gasto não fica para uma pessoa só, os sabores e temperos são variados, a fartura é certa e o mais interessante de tudo é que cada um só leva um pouquinho e cada um levava pra casa sempre muito mais que levou. Multiplicação então, e para próxima Blogagem Coletiva o tema é: Saudade, vai ser no dia 04 de julho (e para cada primeiro sábado de cada mês vai ter tema novo, enquanto houver adesão a proposta).
Quero ver geral dividindo as suas saudades e nessa magia da partilha dos alimentos e dos sentimentos, do confraternizar, encerro com a sugestão de reza antes das refeições, em qualquer credo, agradecendo e pedindo que não nos falte o pão de cada dia, tipo papo sem formalidades com o divino, ou com formalidades e rituais, em silêncio ou em voz alta. Creio e sempre digo que gratidão é uma forma de oração e assim sendo, vale agradecer por termos o que comer, com quem dividir, quem divida conosco. Tenhamos também e prazer nos preparos, na escola de onde ir almoçar quando for da vontade ou necessidade almoçar fora, prazer ao ao comer, cada um com seu gosto, minimizando as noias, sem desperdícios, com etiqueta ou no modo comer de mão, tudo temperado de emoções, sensações, provar, comer sempre o mesmo prato, alimentar a memória afetiva dos alimentos, saber o prato predileto, a sobremesa preferida de quem amamos, tudo junto e misturado, salpicado de fartura e ternura. Tim! Tim!

15 comentários:

  1. Tina, lembraste de coisas tão legais... De um tempo em que vizinhos levavam os pratinhos de doces, salgados quando em suas casas preparavam..., E essa multiplicação é muito legal. Aqui em casa ainda a praticamos. Nas reuniões, cada um traz algo...
    E quando morava em uma cidade aqui perto, ali a vizinhança assim fazia sempre.Era lindo! Beleza teu post,Tina! beijos,chica

    Minha participação aqui está:

    http://lugarescoloridos.blogspot.com.br/2015/06/uma-comida-veeeeeeeeerders.html

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  2. Olá, querida Tina
    Agora, deixando o link; depois, passarei pra comentar a sua deliciosa história...

    http://www.escritosdalma.com.br/2015/06/docuras-da-vida.html

    Bjm fraterno

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  3. Tina muito bacana seu texto... você falando das coisas que não ia falar e eu só pensava, ahhh... isto daria um ótimo post :P Nunca tinha visto esta cultura que você falou da época de São João, mas seria muito legal. Se bem que no interior, onde meus parentes moram, entre eles tem coisas parecidas com estas. Tipo um faz pamonha para todo mundo, o outro faz canjica e assim vão trocando e toda casa fica cheia e farta... muito legal, né?

    Beijocas

    www.vidabonita.com.br

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  4. Olá, querida Tina
    Tim, tim!
    Bem, menina, sei bem do que fala quando numa Missão em Alagoinhas, aí na BA, pude saborear o gosto da partilha do São João bem como vc nos narra...
    Não pude trazer de volta pra casa o saco daqueles enormes de mantimentos que havia antigamente nos mercadões e armazéns... tice que ofertar para uma religiosa do local...
    Lá tinha de tudo, laranja, aipim, amendoim, jabuticaba e licor dela... nem lembro-me de tudo...
    Mas só sei que a multiplicação se dá porque quanto menos se tem mais se doa... é o Mistério vivido e encarnado.
    Com gostinho bom na boca, até Julho... já com saudade das anteriores...
    Bjm fraterno..

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  5. Quanto mais se multiplica mais se tem. Linda tradição de S. João, não conhecia.
    Beijinho

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  6. Oi, Tina!
    Não sabia do costume de perguntar de porta em porta se São João passou por ali... Me lembrei do "trick or treat" nos Estados Unidos, "soul cake" na Inglaterra e Irlanda e, "migallo" da Espanha. São datas que as crianças testam a generosidade da vizinhança...rs.
    Foi-se o tempo em que o festeiro era aquele que bancava toda a festa. Por consciência não podemos apenas usufruir da hospitalidade de um amigo sem que possamos contribuir para o sucesso de uma reunião.
    Tim.. Tim... Todos felizes e satisfeitos!
    Beijus,

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  7. As festas e as ladainhas sempre ficaram guardadas em minhas lembranças.
    Muito me alegrou ler esse texto.
    beijogrande

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  8. Bom dia de domingo, vim te visitar e deixar
    um salmo pra vc, tenha um bom começo de semana

    Nem olhos viram ,nem ouvidos ouviram ,nem jamais chegou ao entendimento humano ,o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.
    ( I Coríntios 2:7-9)

    Bjuss com carinho

    └──●► *Rita!!

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  9. Conheço um pouco dessa tradição por aqui é costume comer na noite de São João batatas assadas na fogueira, a espera do feijão verde, dos bolos pretos, de deixar na casa de amigos o milho, os umbus. Pena só a vi hoje a postagem estive ocupada fim de semana. Mas no blog tem dica d elivro, vem ler? e ja vou preparar para o dia 4 com o tema saudade

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  10. Também não sabia desse costume no São João daí! E nesse multiplicar de alimentos, histórias, partilhas, aprendi mais um bocadinho aqui!
    Agora está faltando saber o que é lelê.
    Ainda pelas toalhas espalhadas debaixo do varal! Amei esse piquenique de partilhas. Beijo!

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    1. Lelê é um tipo de canjica de milho
      Chamado de Muxá também por ai

      E tb amei ;)

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  11. O Brasil é sua diversidade cultural... Que bacana! Por aqui São João é sinônimo de festas com comidas caras, filas enormes e muito frio. Mas amo mesmo assim! Interessante a sua versão do tema. Acho que precisamos mesmo reaprender a dividir para que se possa multiplicar...
    Beijo!

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  12. Oi Tina, fui te lendo e quando cheguei no "São João passou por aqui" uma sensação inexplicável me deu.
    Ouvi lá em casa, junto de mamãe, papai e irmãos?
    Ou teria sido de minhas avós?
    Não sei te responder com certeza, mas ainda sinto algo gostoso ao ler.
    São João já passou várias vezes na minha casa, depois que separei, na dificuldade que enfrentei pra criar os meninos sozinha, ele veio em vários meses, não só no de junho.
    :)

    Minha participação chegou com um dia de atraso, mas cá está:
    http://majoli-rabiscosdaalma.blogspot.com.br/2015/06/blogagem-coletiva.html

    Beijos de uma deliciosa semana.

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  13. Aqui ocorre raramente o São João verdadeiro. Acho que não há troca alguma de comida, nem as noias são desmistificadas, O Verdadeiro São João acontece mais no nordeste né! Eu mesmo já estive em João Pessoa, muito bom lá! abraços

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  14. Lindo o teu texto....sim concordo, que gratidão é uma forma de oração, é com este sentimento que mostramos querer bem e se preocupar com alguém e que procuro ter e lembrar sempre. Acredito que gato de comer e reunir pessoas em volta da mesa é uma das práticas mais bonitas que podemos ter. A comida agrega, ela traz histórias, ela nos dá momentos alegres. Quanto a saudade, ah...vou pensar em meu livrado vez e vou aderir também para o dia 04/07. Beijo!



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