7 de julho de 2015

Por serenos e unguentos

Falei aqui por esses dias, em um post, da creche asilo ou asilo creche, nos Estados Unidos, que une idosos e crianças em um só espaço de convivência, cuidados e lazer. Ana, a quem devo a descoberta de tal proposta, postou um vídeo com algumas interações entre as distantes e tão complementares gerações lá no blog dela (clica aqui para ver). 
Comentei lá no blog amigo e querido sobre minha lembrança da vivência de um evento realizado todos os anos no colégio onde estudei. Era o dia dos idosos, alimentos e material de higiene eram arrecadados, montavam-se cestas para serem dadas aos velhinhos pobrinhos que lá iam receber essa ajuda e também tomar café e, uma mesa enorme, onde além de coisinhas gostosas que lhes eram servidas, interação e carinho nas bordas e recheio. 
Eu sempre participava, animada, adorava, ia para ajudar eles a descerem as escadas, para ajudar a servir o café, dar atenção e carinho, receber atenção e carinho, ouvir histórias, me emocionar com a felicidade e gratidão por sabonetes, pasta de dentes, arroz, feijão, um abraço.
Gostava e gosto dos cabelos brancos, roupinhas, jeitinho de andar, de olhar, das mãos enrugadas, óculos, bengalas, de vós e vôs do tipo das antigas, crocheteiros, concertadeiros, fofos(as) e também dos(as) ranzinzas e moderninhos(as) e sempre tive respeito, admiração, sempre achei que são fonte de experiências, lições, modos de fazer, receitas, dicas, que quando não são do tipo atemporais, são parte de um tempo do qual foram parte e a nós, através deles, é dada a oportunidade de saber, perpetuar ou transformar o vivido.
Meu marido nos dias juninos, me contou que sua avó pedia para ver os dentes dele para ver se estavam perfeitinhos, antes de liberar ele para plantar milho no quintal, não tivessem em ordem os dentes não podia, para o milho não nascer defeituoso. Tantas crendices, algumas sem explicação e com razão, outras com explicações, outras sem explicação e sem razão. Não fossem científicas as fontes e argumentações, eram lições de moral ou sabedoria popular levada a sério, de se repetir em consultórios até, ainda que não fosse de se provar, como sintomas que são incômodo pelos dentes nascendo, fita vermelha e sopro na cabeça para soluços, chás diversos, pés aquecidos e tantos saberes esquecidos, deixados de lado o legado, subestimados, substituídas as ligações e pedidos de receitas culinárias, médicas, técnicas para tirar manchas e para fazer de um tudo para avós, avôs, mães, pais, tios(as), cuidadores que eram como da família, com confiança, tradição e eficácia. Tudo migrado para pesquisa na net, por profissionais especializados, produtos com códigos de barras e grife, intervenções tipo banho frio e essas coisas "bobas" não tem mais vez, só condutas só com lógica ainda que o nome para tudo seja virose, sem nomes populares, sem poesia, sem fé, sem sabedoria milenar.
Para arrematar, com o tal sereno que gripa, que nos fazia não poder sair ou nos fazia entrar e ter que levar casaco, desejo que o mundo serene de tantos saberes diversos e dispersos e retome a busca e confiança da antiga infância, em pai e mãe, avós, professores, bons modos, respeito, dança de índio pra chover, ciranda do sol na janela, dente de leite jogado no telhado ou colocado debaixo do travesseiro para dar sorte e ganhar um agrado da fada dos dentes, não entrar de boné em casa, não tomar molhar a cabeça depois de comer manga ou jaca, não tomar banho enquanto a comida faz digestão, não falar palavrão na mesa, agradecer o alimento e tudo mais. Que curas, fé e crenças não precisem de templos, regras, explicações, que haja menos medicalizações e mais mediações e emoções.

5 comentários:

  1. Tina, adorei e te aplaudo daqui! Adoro essas sabedorias antigas... lembrei dos soluços nos bebês, onde temos te colocar uma felpinha da roupinha deles, molhada na sua testinha pra parar o soluço...

    Tão bom lembrar e hoje,m tuuuuudo é virose mesmo e tuuuuuuuudo é explicado de uma forma que quase não captamos, mas querem nos fazer engolir...

    Voltar o filme faz bem! beijos, chica e lindo dia!!

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  2. Olá, Tina.
    Acredito que em cada 'crendice' ou superstição existe uma verdade, um fato. Infelizmente, perdemos tanto o contato com a terra, com a natureza, que não sentimos mais estas coisas tão importantes, tão intuitivas...
    Belo post!

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  3. Ainda por aqui há muito enraizado das crendices e dos saberes dos mais velhos, repeito muitas coisas e passo para Alice e para meus alunos fazer a digestao, agradecer a Deus pelo alimento, não desperdiçar comida visto que há tantas pessoas sem comida, guardar o dente pra fada do dente, sonhar, acreditar, ter fé sempre. Deixei flores pra vc no Poesia bjs

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  4. Escovar os dentes antes da lida com o milho... essa eu não sabia! Adorei!
    Mais simplicidade, mais receptividade à experiência dos mais velhos. Estamos conquistando vida longeva, mas desprezando tudo o que o longevo tem a nos ensinar.
    Beijo!

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  5. Tudo isso é tão belo, precioso e tão poderoso dentro da gente. Mas tudo parece esquecido nesse tempo de agora, em que não se tem hora. Adoro meus velhos tios e tias. Se pudéssemos congelar o tempo eu congelaria com certeza esse de ter avós, de lidar com eles, com suas manias e crendices. Quando a gente queria ir a um lugar e a chuva de todo não cessava , era correr pro quintal e desenhar o sol com os pés, sempre dava certo. Mina avó tinha um chá pra qualquer dor, qualquer desamor, saudade, choro, e eram milagrosos. Quanta fé e respeito. LINDO !!

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