24 de agosto de 2015

Das serventias

Eis que eu soube que o Colégio onde meu filho estuda, ia levar esse mês uma turma para visitar um asilo, ele não se interessou, mas aos 45 do segundo tempo, depois de eu insistir, topou pela folia. Para mim ele ir já valia ouro, eu ter podido ir, foi coroa de flores de laranjeira. O lugar visitado se chama: Abrigo São Gabriel.
Lá chegando, conheci de cara uma senhorinha que era pura simpatia, disposta a papear, alegre, gentil, cheia de histórias, toda arrumada, que me encheu de elogios e eu que fui lá para elevar a estima deles, me senti uma pluma. Tinha muitas fãs de Roberto Carlos como eu, não pude então perder a chance de me enturmar e contar que faço aniversário no mesmo dia dele, meu filho sem restrições a estilos e canções tocou músicas do Rei no violão, até dançou o que é tipo um milagre.
Tinha um ex jogador de futebol, do time daqui que detesto, não menti para ele, porque menti é feio e aposto ele gostou de uma do contra se manifestar e todos os outros ficarem do lado dele, posarem para fotos, cantarem o hino. Alguns nem ai para nós e talvez para o mundo  todo a sua volta mas mesmo assim toque, cumprimentos. Um deles disse que não me via, só umas sombras, peguei na sua mão e disse que valia sentir para mim, perguntei se para ele valia, ele sorridente disse que sim. Lembrei ao escrever isso de uma senhora que já mencionei aqui, uma mãe preta que tive, Eurides, que cheirava tudo antes de comer (faço isso as vezes porque será hein), para quem liguei dia desses e ela falando que não enxerga mais, eu leve e gaiata, como ela sempre foi, perguntei: E cheiros você ainda sente? Sinto! ela respondeu, ai eu disse que bom, assim você pode me cheirar, cheira seus netos, filhas, cheira tudo antes de comer. Ela deu uma gargalhada e se surpreendeu e alegrou de eu ter essa lembrança dela ainda presente, além do hábito, que sempre feito, sempre ela é e será lembrada, Ver com o coração é certeza ter boa visão!
Voltando aos idosos do asilo, muitos amaram e toparam de cara colorir os desenhos que levei para eles estarem na modinha e dando cor aos desenhos, pensei, ia colorir ainda mais aquele dia. Sendo que depois da visita fica alegria e também a falta, deixei os lápis e uma porção de desenhos lá e tive ao sair a ideia de voltar, eu e quem topar, através de cartas. Vou depois trazer esse pedaço da história e proposta para cá. Todos os idosos, senhorinhas e senhorzinhos, velhinhos que não acho feio chamar, feio é abandonar, maltratar, não olhar nos olhos, querer que todos sejam do mesmo jeito, dizer que não tem tempo ir dar a mão, fazer uma visita nem que seja uma vez no ano, fazer uma projeto nas escolas, grupos de amigos, no trabalho, que proponha visitação individual e coletiva, para levar atenção, arte, alegria. Achar que só doar coisas, que já é alguma coisa, basta, é muito raso. Alimentos, roupas, material de limpeza são sim muito importantes e necessários, mas como pontuou o responsável por esse projeto o idealista, romântico e realista Irmão Gabriel, eles precisam por exemplo de pilhas para os radinhos e ninguém doa pilhas, tem que ache que nem servem mais para nada as pilhas e que usar rádio é demodê. Um senhor vai quando em vez concertar os rádios que sempre quebram, bem podia mais gente fazer esse serviço solidário e o de corte de cabelo, fazer as unhas das garotas, massagem e podologia.
Vi lá muitos vinis,ai pensei e aqui fica a dica para eles, que era uma boa ideia nessa onda retrô alguma alma caridosa e criativa propor com merchan e organização um bazar dos bolachões, por um preço bom para todo mundo, liberação de espaço por lá (tem muitos),para converter em verba para aquisição de telhas para a casa que está cheia de goteiras. A casa, fica na Boa viagem e é uma paisagem que tem no funo que eu parei lá por uns minutos só a imaginar como uma reforma, que desse para ficarem ali sentados em cadeiras ou redes seria terapia das bos. O mar bate as ondas em seus muros do fundo, muito perto e sem um mirante, estrutura e convites a com o olhar, desenhar, bordar, poetizar, desaguarem nas ondas, no azul, na areia e aroma daquela imensidão, lá ele fica tão longe.
Uma empresa de material de construção podia ler esse meu resenhar e doar telhas. Aos olhos e coração de Luciano Huck, algum dono de loja de móveis, de material hospitalar, de linhas, agulhas de bordar e tecidos, loja que vende jogos de tabuleiro, lápis de cor, ou sei lá, podia chegar e fazer servir o que teem de sobra, de verba para caridade, do mais que humano que há em nós. No discurso do gestor e idealizador, que por acaso não deve ser tem nome de anjo, uma queixa e questionamento que também me incomoda. Monges rezam e ficam internados em mosteiros, protegidos e bentos, com todo meu respeito e o dele que o foi, a todos e a beleza da fé e poderes da oração, mas não há ação em suas condutas e vidas, não estendem os braços, as mãos, para limpar e lavar mais que seus pertences e o local onde vivem, com tantos locais que precisam de suas presenças que seja, três vezes por semana, saírem da clausura, usarem a meditação e paz em beneficio do próximo. O mesmo vale para militares do exército como os novatos que vejo subirem e descerem por volta da minha rua cantando e marchando palavras de ordem, combate e cidadania. Como disse ninguém menos que Madre Tereza: "As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam" e o mesmo vale para lábios que só desejam, que repetem palavras de boa conduta. Intenção, emoção, sem atitude não faz o bolo crescer, a fila andar, o bem se multiplicar. Dividindo se soma, contradizendo a matemática dos números e em total precisão com a matemática do coração.
Ajudar crianças, se encantar com elas e seus sorrisos, alegria, cores, vida e esperança que carregam em si, até mesmo as doentinhas, é lindo, digno, positivo e prática com muito mais adeptos. 
Os idosos carregam amarguras, tem limitações, muitos não entendem que as tem e não adianta ser taxativo. Não tem peles macias e cabelos cacheados ou escorridos, tem rugas, cabelos ralos na maioria das vezes, não cheiram muitas vezes a lavanda e não é por falta de higiene, para falar com eles é preciso ter um diálogo diferenciado, sensibilidade, modernidades as vezes para nós já ultrapassadas até,não são uma realidade para eles, o serem referência de fim, serem desconfiados, não querem ou não poderem mais brincar, se locomover muitas vezes, enxergar. Repetem uma coisa mil vezes e fazer de conta que é a primeira é uma gesto de amor.
Pessoas de idade avançada, tem invariavelmente,pequenos ou grandes problemas de saúde,  pouca energia, mobilidade, dificuldade de se expressar, dificuldades cognitivas. A adaptação em casa,  ao processo de envelhecimento nem sempre é tranquila, em um situação de abandono como é a maioria das vezes em asilos assistenciais, há preocupação com o pesar dependência e deterioração física e mental, a restrição de sair, de contatos com outras pessoas,  o sucessão de perdas (amigos, cônjuge, irmãos, familiares, uma balançada na fé de muitos que podia sustentar, mas escolhe-se renegar. Há uma mudança do senso de humor, de controle das inovações, notícias, mudanças de ambiente, os casos de personalidade difícil tomam uma dimensão pesada, ego, arrogância, excessos e outras tantas mazelas cobram seu preço. O sentimento comum de que o tempo é Rei versus o deles de que o tempo é curto e os recados visíveis e nas entrelinhas que um idoso dá é consciente e inconscientemente um muro que feito ponte ajuda e adorna os dois lados. Dito tudo isso, resolvi arrematar com Drummond, porque coisas, lugares e pessoas velhas para mim tem serventia e muita valia, são poesia e como disse o poeta: "Se você procurar bem, vai encontrar não a explicação (sempre duvidosa) da vida, mas a beleza (inexplicável) dela."

7 comentários:

  1. Lindo e sempre há beleza, ainda nas coisas que nos deixam mais tristes! Sempre que vou na Oma, que está numa clínica, vejo coisas boas e outras nada assim! Cada olhar, cada mão, cada vida... Faz pensar !! Linda semana! bjs,. chica

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  2. Que experiência maravilhosa! para ti e para elas...estes encontros são especiais e deixam a gente mais feliz! lindo relato! beijos e boa semana!

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  3. Que legal, e ainda bem que vc conseguiu acompanhar.
    Os jovens não tem interesse em visitar, mas eu já fiz um trabalho em um asilo. Se vc quiser saber o que é amor e carinho basta visitar um, não tem como não chorar.
    Tudo que eles precisam e pedem é atenção.

    bjokas =)

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  4. Fiquei emocionada ao ler o seu passeio, Tina.
    Já visitei asilos e fui voluntária de uma Associação de Criança com Câncer a algum tempo atrás e você nota o amor e carinho que eles tem.

    Um beijo,

    http://alicetwins.blogspot.com.br

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  5. Que belo post!
    Que bom que seu filho decidiu ir, rendeu muitas reflexões importantes a vocês e a nós.
    Numa sociedade que valoriza a juventude eterna, que espaço tem a sabedoria da velhice?
    Bjs querida e ótima semana

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  6. Que tão boa iniciativa...tão lindas palavras...

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