4 de agosto de 2015

Por mais de humano em nós

Eu falo, falo, falo e sou a chata do sai do celular, sai do computador, me dá atenção, meu zap é mudo  ele não me chama, consulto ele e nada de áudios (salvo exceções) pra lá e pra cá, quer falar: liga. E nada de usar palavras dos outros o tempo todo, quero mensagens pessoais, quero receber ligação no dia de meu aniversário, se não der para o abraço real e caloroso, vale para o Natal, ano novo. Filme no cinema sim, sim, sim, na semana de lançamento de preferência, esperar chegar na tv não é igual.
Tenho necessidade de que a pessoa olhe para mim e eu olhar pra pessoa quando eu tô falando. Mania isso? É o que dizem, chatice, traço de sei lá o que, que tem até nome psico-comportamental agora (ou sempre teve e eu e geral desconhecia com muito prazer) para esse hábito rotulado como perfil de personalidade de precisar olhar e tocar o outro nas conversas presenciais, que cada dia menos tem de presença. Eu sigo achando de bom tom, o olho no olho, a troca de emoções e atenção. E não aceito a desculpinha masculina de que o sexo oposto não presta atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo, que se dispersam diante da tv ou em pensamentos mil, nem que adolescente é assim mesmo, que isso e aquilo. Dar atenção, escutar de verdade é amar e assim sendo, cada um que se vire com sua dispersão.
Lembrei  ontem de um livro que peguei a muito tempo atrás emprestado de um amigo e li por alto, chamado “Inteligência emocional” e fiquei com vontade de ler todinho depois que vi uma matéria sobre uma pesquisa que dizia que a metade do século 20 foi regida pela Inteligência racional,  na qual os saberes diversos determinavam as possibilidades e capacidades das pessoas, nos anos 90 a tal da Inteligência emocional imperou como via de acesso a melhores condições profissionais e pessoais de vida, já no século 21, dominado pelas mídias digitais e aparelhos móveis, a Inteligência digital tem ditado as regras e causado deficiências sociais. Interagir, ser sociável, afetuoso, reconhecer sentimentos, saber se comunicar no gogó, nas atitudes, se desenvolver em sociedade e promover o desenvolvimento social e tudo isso que aprendíamos naturalmente, está sob o nocivo efeito frio das tecnologias, redes sociais, comércio digital, diversão digital, tudo impessoal, sem emoção, sem envolvimento.
A necessidade de recuperar essa interação não é papo saudosista anos 80, ou romantismo em tempos de web, nem nada da minha cabeça, maneira de ver, viver ou desejo que assim seja. Cientistas mundo a fora em diversos estudos e publicações indicam que empatia e reconhecimento de emoções precisam passar a ser ensinados nas escolas. A que ponto chegamos hein! Viver em sociedade é o que faz do homem o animal mais desenvolvido está nos livros (ou estava) e na prática faz crescer, se desenvolver emocionalmente, do ponto de vista patológico, comportamental, espiritual, comercial, profissional, afinal networking presencial, postura, gestual, o saber lidar bem com pessoas, além de impressionar, é crucial para obter resultados, para fazer acontecer.
E nessa, de ser mais prático puxar papo, render, dar de parabéns a pêsames, fazer pazes, romper relacionamentos, fazer convites, vendas e tudo mais pelos aplicativos e redes sociais, por ser mais fácil dizer o que se quer sem ter que lidar com a expressão do outro, com os artifícios de poder fazer uma preparação do que vai dizer, do fazer uso indiscriminado de cópias, por esse meio de se comunicar dar espaço ao uso máscaras, perde-se muito da naturalidade, da autenticidade.
E assim, tem se driblado e anulado o produtivo enfrentamento das situações positivas e das adversas, os sentimentos e riquezas dos contatos diretos. É o chamado, pelos estudiosos comportamentais, de analfabetismo emocional, devido ao qual, está sendo necessário ensinar empatia para crianças, jovens e adultos, com o objetivo de resgatar o valor e a necessidade de desenvolvimento das habilidades humanas, de interagir, sentir, se expressar com gestos, resolver conflitos, ser mais que um contato, ser colega, amigo, casal, ser filho, neto, sobrinho, multiplicar, dividir, construir significados, contemplar detalhes, sons, sabores, desconectar, fazer nada, ouvir o silencio, olhar no olho, tocar, ser tocado, sentir aromas, sentir a dor do outro mesmo sem compreender, concordar, ler emoções, desapegar de teorias, largar de tantos ses, mimos e mimimis, ser mais que benefícios financeiros ou status oferecidos e almejados, estatísticas, provas, minorias que se unem em defesas pessoais e politicas, ser diferente não em correntes, ter identidade, personalidade, ter sentimentos, sentir, se alegrar, entristecer, demostrar, ser mais, melhor, ser menos público e mais privado. Estar em público, em praças, praias, casa de mãe, vó, irmãos, amigos, presentes e sorridentes ou chorosos, com braços, abraços, falta de espaço para tanta gente junta, espaço de sobra para momentos a dois, espaço de sobra para as crianças correrem, para sermos crianças sempre, para os adolescentes saírem dos casulos, para circular calor humano e mais de humano em nós.

10 comentários:

  1. Que beleza!! Ontem numa sala de espera assisti uma cena que vem de encontro à tudo isso! Fiquei pasma.Quando publicar te aviso! A coisa anda danada! Controlar o uso das tecnologias é preciso. Viver o momento, o real, enquanto olhos de verdade ,temos ainda pra olhar...


    beijos, lindo dia! chica

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  2. "Vovó para quê servem esses olhos tão grandes?"- pergunta de Chapeuzinho Vermelho que volta a caber no tempo presente em que muitas coisas parecem estar de pernas pro ar, inclusive a função do olhar, dom belíssimo que se aprisionou em retângulos luminosos.
    Evoluímos, acrescentamos à inteligência cartesiana, racional, a emocional tão necessária e igualmente importante para ler as entrelinhas, os gestos, o tom de voz e avançamos tanto que estamos na beira de um abismo.
    Ferramenta maravilhosa conquistamos com a era digital, mas vamos sim ter que continuar sendo os chatos ( as ) para que não se perca a beleza e complexidade do ser humano.
    Parece até que você esteve na reunião de escola de minha filha...
    Beijo!

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  3. Concordo com tudo, Tina! E quando fazemos isso, as pessoas dizem que estamos exagerando, ou querendo aparecer. Quando alguém demonstra que está triste, é considerado um fraco e cai nas mãos dos 'inimigos' virtuais, aqueles que adoram arrotar frases como "Recebemos de volta o que plantamos."
    Eu cansei. Falo o que quero, escrevo o que estiver sentindo, e pensem o que quiserem. Relacionamentos - virtuais ou não - nunca foram fáceis, mas dobrar-me para encaixar-me em padrões alheios, é algo que nunca, nunca mais farei.
    abraços de bom dia.

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  4. oi Tina

    Eu sou igual a você, essa questão do celular é algo que me afeta demais.
    Certa noite sai pra jantar e vi os casais cada qual no seu aparelho, ninguém olha nós olhos, toca nas mãos. Os olhos são para olhar as mensagens e as mãos para deslizar e teclar. Que triste.
    Fiquei revoltada comentei com quem estava comigo, e a pessoa tb não gostou.
    Se eu saiu com um namorado ou paquera e ele só fica no celular pra mim quer dizer que eu não estou interessante, que o momento não é tão importante.
    Gente onde vamos parar com tudo isso?
    E quando falo tem gente que não gosta.
    Quando estava namorando brigava por causa do celular, é toda hora jogo, internet caramba tanto tempo pra checar isso precisa ficar qdo a pessoa está do lado?
    Pessoas alienadas em um mundo virtual que não é real.
    Todo mundo é lindo, cheiroso e gostoso. E a real é outra né?
    Escravos da tecnologia e das alienações virtuais.

    bjokas =)

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  5. É isso amiga, estamos perdendo os vínculos, os elos, a liga...
    Há que ter um meio termo para tudo e bom senso e senso crítico também.
    Daqui a pouco vamos desaprender não só a olhar, como a falar e escrever com lápis e caneta.
    Mas como começar por nós e pela nossa família, cada um dando um pontinho, vamos bordando um futuro melhor.
    Bjs

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  6. Querida amiga Tina,

    Muito pertinente seu post minha amiga Tina. A virtualidade tem indicado uma falsa sensação de presença e os encontros presenciais, por vezes, tão raros são roubados. Que cada um descubra o seu ponto de equilíbrio ou que sejamos "chatas" mesmo em ficarmos na contramão da história lembrando ao outro : " Hein,eu estou aqui!!!" ..Risos!!!

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  7. Oi, Tina, eu sou como você também, adoro esta interação social olho a olho, adoro visitar, adoro estar com pessoas amigas e dar abraço e olhar nos olhos!
    Temos razão, afinal se não agirmos assim, em breve, seremos robôs, voltados apenas para uma telinha. Eu heim, tô fora! rsss
    um grande abraço carioca


    (gostei de te ver na visita à querida Chica, que amor!)

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  8. Sou das que adora conversar , olhar no olho, está em volta. Uso o celular apenas para ligar e olhe lá agora baixei o whats app epla facilidade de falar com a família mas só tenho no máximo 10 contatos. precisamos vencer essa distãncia, abraçar mais , ser acolhido, está em volta da natureza, ser mais humano. Linda tua reflexão. No blog tem poesia de amor

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  9. Tinaaa, o texto é exatamente como penso, tudo muito frio e impessoal. Ninguém mais para pra olhar pra ninguém, só pra tela do celular. Amei seu texto.

    Mil beijos,
    http://www.dmulheres.com.br/

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  10. ai uma questão que me incomoda muito e do celular , você sai e vê pessoas ligadas no aparelho , não olham nos olhos do seu companheiro , esse mundinho realmente e viciante !

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