14 de setembro de 2015

Dos mal feitos

Então, quem nunca fez uma coisinha mal feita, por pressa, por não tá num bom dia, por não tá enxergando direito, estar com sono, cansada. A pessoa aqui faz muitas, umas concerta outras deixa mal feitas pelos caminho e assim vou indo. Tanto mexi no post de hoje cedo, pra melhorar a foto e o texto, que exclui o post com tudo. Foi! Quem viu viu, quem comentou li e para não ficar a segunda em brancas nuvens, segue uma contação de Clarice Lispector.
“Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques.
Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos. E, de repente, ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa. O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha. Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom...Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas."

7 comentários:

  1. Inda agora, voltando de um compromisso, roubei uma pitanga!
    Alívio doce ler as palavras de Clarice para adocicar a coisinha mal feita que você fez com o post da manhã que eu ia justamente mostrar para Theófilo que também tem envolvimento nele.
    No fim, deu tudo certo!
    beijo

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  2. Que lindo texto,Tina!@ E que sorte tive que vi a foto e o texto da manhã! Valeu, pena que fizeste arte,rs bjs, chica

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  3. Olá minha amiga Tina,
    minha vovó tá arrumando o blog que está privado quando tiver legal vou postar.
    beijos e carinho
    Pedro

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  4. Quando li esse texto de Clarisse pela primeira vez eu ria sozinho. Eu roubava rosas brancas da casa de um Senhor que mais tarde se tornou o meu melhor amigo.
    beijogrande

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  5. Oi Tina! Sabe que já fiz isto? Sim já roubei uma rosa no jardim alheio...
    Foi tão bom!
    Bjs

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  6. Oi, Tina eu gosto muito de ler Clarice e lendo esse, lembrei-me que fiz uma história sobre roubo de rosas e era para intrduzir um ensinamento para os alunos que eu alfabetizava, olha só, tantos anos e foge-me da memória, mas meu texto foi parar na Delegacia de Ensino, fez sucesso e muito me honrou. Uma pena o seu post! Valeu querida! Beijos!

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  7. Bom dia, Tina.
    Rosas nunca roubei, mas pitangas....sim do quintal de Dna Julieta.
    Como disse o texto, elas se oferecem e que delicia que eram.
    Grande abraço
    mari

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