30 de setembro de 2015

Papo de beira do fogão

"Em meados dos anos 80, lá em Minas, o costume era comprar leite na porta de casa, trazido pela carroça do leiteiro, que vinha gritando "Ó o lêeeeeite!!!". Minha mãe corria porta afora e o leite fresquinho, gorduroso e integral era despejado na leiteira para nosso consumo. Porém, era um leite impuro, não pasteurizado, e necessitava ser fervido antes de consumir.
No início, minha mãe tinha um ritual no mínimo interessante para esse evento: Colocava o leite na fervura e saía de perto. Literalmente esquecia. Simplesmente I.g.n.o.r.a.v.a.
É claro que o leite fervia, subia canecão acima e despencava fogão abaixo. Eu era criança, e quando via a conclusão do projeto, gritava: "Mãe!!! O leite ferveu!!! Tá secaaaannndo..." e ela vinha correndo, apavorada, soltando frases do tipo "Seja tudo pelo amor de Deus..." e desandava a limpar o fogão, o canecão, e ver o que sobrou do leite pra tudo se repetir no dia seguinte, tradicionalmente.
Até hoje não entendo o porquê desta técnica. Parecia combinado, tamanha precisão com que ocorria.  Mais tarde, ela mudou de estratégia. Eu já era maiorzinha e podia ficar perto do fogo. Assim, ficava ao lado do fogão, de olho no leite esquentando pra desligar assim que a espuma subisse, impedindo que transbordasse. Foi assim que aprendi uma grande lição:  O leite só ferve quando você sai de perto.
Não adianta ficar sentada ao lado do fogão, fingir que não está ligando; até pegar um livro pra se distrair. É batata: ele não ferve. Parece existir um radar sinalizador capaz de dotar o leite de perspicácia e estratégia. Porque também não basta se afastar fingindo que não está nem aí. O leite percebe...
A vida gosta de surpresas e obedece a Lei do leite que transborda. Aquilo que você espera acontecer não vai acontecer enquanto você continuar esperando. Antigamente o sofrimento era ficar em casa aguardando o telefone tocar. Não tocava. Então, pra disfarçar, a gente saía, fingia que não estava nem aí (no fundo estava), até deixava alguém de plantão. Também não tocava. Porém, quando realmente nos desligávamos, a coisa fluía, o leite fervia, a vida caminhava. Hoje, ninguém fica em casa por um telefonema, mas piorou. Tem email, msn, facebook, whatsapp, e por aí vai. O celular sempre à mão, a neurose andando com você pra todo canto. E o leite não ferve...
A vida, como o leite, não está nem aí pra sua pressa, pro seu momento, pra sua decisão. Por isso você tem que aprender a confiar. A relaxar. A tolerar as demoras. A não criar expectativas. A fazer como minha mãe: I.g.n.o.r.a.r."
Recortes de uma crônica, escrita por Fabíola Simões, que li num blog amigo vizinho, para fechar setembro com aroma de leite quente com canela, além das flores da primavera e começar outubro, que se incia com o dia dos idosos, para mim fontes de histórias, memórias, pouco valorizados e respeitados, com o tal do ignorar. E se derramar? Limpa! Tá sem paciência? Com calor? Bebe gelado o leite, só não mistura com manga e não molha a cabeça depois, nem sai no sereno se bebeu quente.

8 comentários:

  1. Adorei o papo sentadinha à beira do fogão! texto lindo que já tinha adorado por lá w adorei teu final...Sábios e queridos conselhos...bjs, chica

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  2. Adorei também o texto e concordo esperamos sempre o leite ferver. Bom, eu pelo menos muitas vezes espero e ele realmente não ferve.
    Exercitando o ignorar em 3,2,1...hahahahaha. Beijo Tina

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  3. Ah! Tina eu conheço bem essas histórias de pé de fogão e de fervuras de leite em minha infância era igual. Mas por aqui ainda é assim, o Chico passa cedo, agora mas moderno, buzina a moto e grita ÓH o leiteeeee. Minha mãe compra todo dia, eu não costumo comprar , pois o marido não tem o costume e ainda usa ou de caixinha ou ninho por causa de Alice. Mas vou resgatar esses valores logo afinal é mais saudável o leite assim, apesar de que se precisa ferver muito bem do que os compostos de tantos produtos químicos né? E amei a comparação com a vida, é assim mesmo se estamos ansiosos nada acontece, deixa a vida correr. Tem passarinho pra vc no poesia

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  4. Adorei, tudo que ma gente vigia demora, mas se damos o tempo a coisa floresce.
    O mesmo a semente vc planta, e fica olhando ela não cresce aos nossos olhos mas está sendo desenvolvida abaixo da terra.

    bjokas =)

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  5. Adorei querida Tina e lá em casa era igualzinho, igualzinho mesmo.
    Um abraço e felizes dias.

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  6. Olá, querida Ana
    Sabe que tenho deixado mina neurose em casa... é super cansativo sair com ele...
    Gostei desse atualíssimo detalhe que faz a diferença na fervura do leite e da vida...
    O jeito é ficar perto de quem amamos pra não deixar ninguém ferver...
    Bjm fraterno

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  7. Saio com o cheirinho de leite derramado no fogão ( o cheiro, para mim é bom, a meleira, não! ) e com o ensinamento de aprender a confiar, ter paciência.
    Beijo!

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  8. Muito bom, e me fez lembrar que na minha casa era igualzinho!
    A gente ficava esperando o caminhão do leite, o caminhão verde do "seu" Guedes. Ele tocava uma cornetinha para chamar a atenção, e os vizinhos faziam fila com suas garrafas vazias... gostei da analogia, leite olhado não ferve mesmo.

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