"O que ela amava acima de
tudo era fazer bonecos de barro, o que ninguém lhe ensinara. Trabalhava numa
pequena calçada de cimento em sombra, junto à última janela do porão. Quando
queria com muita força ia pela estrada até ao rio. Numa de suas margens,
escalável embora escorregadia, achava-se o melhor barro que alguém poderia
desejar: branco, maleável, pastoso: frio
Ela lhe agradecia com uma alegria
difícil, frágil e tensa; sentia alguma coisa como o que não se vê de olhos
fechados. Mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força,
como o escuro
Fazia crianças, cavalos, uma mãe
com um filho, uma mãe sozinha, uma menina fazendo coisas de barro, um menino
descansando, uma menina contente, uma menina vendo se ia chover, uma flor, um
cometa de cauda salpicada de areia lavada e faiscante, uma flor murcha com sol
por cima, o cemitério do Brejo Alto, uma moça olhando
Muito mais, muito mais. Pequenas
formas que nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas.
Às vezes alta como uma árvore alta, mas não eram árvores
Assim juntara uma procissão de
coisas miúdas. Quedavam-se quase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos
magrinhos e altos como ela mesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados,
alegres, um pouco perplexos às vezes, subitamente, pareciam um homem coxo
rindo.
Mesmo suas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a
de um santo. E pareciam inclinar-se, para quem as olhava, também como os
santos."
Trechos de escritos de Clarice
Lispector, publicado em 1960, na revista Nordeste. A ilustração, conforme a legenda, é uma escultura da artista Fanny Ferre, que segundo li por ai, começou suas estátuas de barro
com grande hesitação e fala de seus belíssimos trabalhos sem vaidade, nem mistérios.
“Tudo que você tem a fazer é apenas acreditar”.
Vale a pesquisa e encantamento com as muitas esculturas dela. Clicando
aqui, histórias de barro, caxixis, bonecos, artistas e moradores de um
município baiano.
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