28 de março de 2015

Do conter e estar contido

Concordo com a máxima de que o pior analfabeto é o que sabe lê, mas não lê. E sempre fui de achar válido ler desde livros a placas de trânsito ou bulas de remédio. Ressalvas ao teor dos escritos  que se não somam de alguma maneira (informação, distração, aprendizado, descontração,...) vide efeitos colaterais.
Esse papo introdutório é para dizer que acho legal, inteligente e interessante o cada dia mais popular hábito de leitura de rótulos, por algum problema de saúde ou cuidados com a saúde, além da validade e do que tem na composição das coisas, sendo que em alguns casos já se sabe o que tem contém e lê-se o rótulo para confirmar,cadastrar ou sei lá o que.
Mas, como diz o dito popular tudo de mais é sobra. Eu por exemplo, sempre comi passarinha, iguaria dos tabuleiros das baianas, de vista, sabendo ser calórico, mas não mudou nada o gostar e querer depois de eu saber que é o baço do boi. 
Não muda nada para mim também saber a composição da água maravilha que uso até hoje para pancadas, com efeito curativo satisfatório, gelo também vale, está contido no hábito, assim como beber água com açúcar para acalmar e de fato não saber se faz algum efeito, sem rótulo e calmante, me acalma tomar, ofereço, sem rótulo ou explicação.
Resenha com puxão de orelha as neuroses, aos aficionados em rótulos de plantão, ao rotular pessoas e lugares e tudo mais, com brinde de água com gás e amanhã tem mais.

23 de março de 2015

Dos lugares que me encantam

Vários são os lugares que me encantam, dos que fui, ando, nunca pisei, porque sou de encantamentos bobos. Tipo vejo arco-íris a nada menos que 39 anos vai fazer agora em abril e sempre que vejo um me encanto.
Mas o lugar de hoje, que já veio para cá em uma das minhas idas a Sampa e na minha ida recente a Chapada, é a feira. Fui em fevereiro em umas das mais populares daqui de Salvador que passou por longa reforma e que tá todo mundo elogiando e adorando, mas eu não gostei. Vou explicar!
É que nem circo, acho o máximo o Circo de Soleil mas é um teatro para mim, um espetáculo tipo show. Circo com sensações e vivências para mim tem que ter o picadeiro, varal de lâmpadas do lado de fora, lona listrada com estrelas,  remendos, tipo mambembe, de família, com malabares e palhaços bem clichês, Kombi ou trailer que viajou muito, cheio de tralhas e histórias. Então, fazendo esse paralelo, a tal feira virou shopping, tudo muito arrumado e padronizado, sem os cestos de vime, gritos de: É época de serigueeela freguesa! Com fila para pagar o estacionamento na saída, por um valor que dava antes para algo mais, restaurantes frozôs e não barracas com mesas plásticas. Uma feira sem identidade local, característica desses espaços para mim e penso que para turistas também.
Até quem andava por lá parecia ter sido escolhido, gente simples, com sacolas de feira daquelas listras de náilon, de lona ou de tecido, feitas de remendos das calças jeans dos meninos que crescem e a calça vira bermuda porque fica pescando ou das saias das meninas que crescem e as saias ainda cabem, mas diminuem não automaticamente, mas por gosto. Nada de moços com cara de pescadores que foram levar o peixe para banca de pescados, floristas de chinelo e camiseta suja de terra.
Enfim e continuando, vou ter que quando quiser além das coisas de feira (que agora vale pontuar parecem ter mais e estarem mais organizadas) ir na outra grande feira daqui para ver o movimento e os traços populares típicos de feira rua. Sem seções, padrões e normas como um mercado ou loja. Gosto de feira com papo, de poder mexer aqui e ali, de valores e quantidades negociáveis, com unidades e recipientes de medida que variam de lata de óleo a pá, bacia, saco, quilo, dúzia, penca, pacote.
Gosto da boa e velha prova sem lavar, que se não mata engorda, tem quem diga até tempera. Do chamar de mexerica o que outro chama de pocã, o outro de tangerina e todo mundo se entende ou não. Em feira que se preze, dentro de meus padrões, tem caqui machucado com preço convidativo e a teoria de que estômago não é prateleira, tem o caldo de cana que já vem com chorinho ou que você dá o último gole e o moço despeja o resto de dentro de uma jarra plástica que parece ter sido herdado da bisavó no seu copo com um sorriso que diz lembre disso e volte. Tem os cheiros e a sensação de que ali é lugar de comida de verdade, sem códigos de barras, de memórias afetivas de lanches, pratos, pessoas, com planos de fazer uma nova receita ou aquela velha que nunca mais fizemos e lá vamos nós atrás dos ingredientes sem marca, sem data de validade, uns que só tem naquela barraquinha.
Para mim cesta de vime e feira são coisas inseparáveis e para alguns hoje em dia ir a feira é uma realidade tão distante quanto ir a Marte, em tempos de supermercados gigantes e 24 horas, compras entregues em casa, soa tão antigo, arcaico.
Gosto porque gente abastada não ganha, perde se fizer pose em feiras de rua, carro não tem prioridade quando é dia de feira e se nos mercados tem padrões, portões e prateleiras, na feira popular tem jornal no chão, fruta direto do caixote, isopor remendado de fita crepe, improviso, criatividade. Tem um certo desconforto é fato, uma faltinha de higiene aqui e outra ali que assusta as pessoas a vácuo e ar condicionadas e é ai, além da poesia e do popular que a feira tem um que de educar, de humanizar, de senso de coletividade, cooperação e um detalhe muito importante que adoro, respeito e valor da individualidade. Se você é frequentador te chamam pelo seu nome e você chama o pessoal pelo nome, se não é alguém vai te perguntar seu nome, e sendo freguês te perguntam da gripe da semana passada, reparam se você pinta ou corta o cabelo, sabem até o que você gosta, reservam sem você nem ter pedido, sem ter seu zap para te perguntar se você quer ou vai lá. Em feira popular a gente não é o consumidor, não é genérico, não entra e sai sem ganhar um (geralmente vários) bom dia, volte sempre, vá com Deus. Simples, saudável e agregador.

22 de março de 2015

Momento túnel do tempo

Dia de tv para mim era domingo lá nos idos da infância e adolescência. Assistia os programas de Silvio Santos , os Trapalhões, o Fantástico (com filtro e com medo, lembro que tinha pavor das notícias horrorosas, ainda tenho e evito no nível não me alienar).
Era dia da Zebrinha dos resultados da loteria esportiva. que eu poderia jurar que dava o resultado dos jogos de futebol. Lembrei dela dia desses ao ouvir a expressão coluna do meio, em um contexto completamente casual.
E do baú de memórias não consultadas ou catalogadas com intenção e saber, está a voz, o tom, a imagem da zebra e na minha cabeça que achava que ela falava de futebol (eu e o futebol), a coluna do meio imaginei seria quando o jogo dava empate. Marido me explicou (disso não lembrava nem de longe), que a referência que tenho do quadro com o futebol é porque a loteria era vinculada ao placar dos jogos, como é um dos tipos de jogos de hoje.
Já que viajei no túnel do tempo e adoro fazer isso, sem medo de atestar minha velhice, sou do tempo de tomar Calcigenol para os ossos ficarem fortes, de pular elástico, jogar baleado, virar o lado das havaianas para serem coloridas pois paleta ade cores estava na sola e era limitada, tempo de fazer mecha no cabelo com papel crepon diluído em água, de colocar anticoncepcional no shampoo para o cabelo crescer (quem será que inventou isso?).
Aterrizando em 2015, a escassez e o mau uso da água, notícias no Fantástico e em todos os telejornais, sentida desde sempre pelo sertão e agora pelas grandes capitais, é tragédia anunciada a muito. Em 1992 a data de hoje, 22 de março, foi definida pela ONU como o Dia mundial da água, uma dia para refletir e valorizar esse bem natural e importante em qualquer tempo, civilização.
Águas das nossas memórias afetivas: banhos de balde, de mangueira, de lagoa; da nossa sobrevivência para plantio e cultivo, consumo, higiene. Vital para homens, animais, plantas. Então, água benta, fé, lembranças, racionalidade, esperança, atitudes, comportamentos e escolhas conscientes, porque quem somos e o que fazemos reflete nos outros e no mundo #fato.

21 de março de 2015

Da eficiência na deficiência

Ilustração de Marina Terauds
O depoimento que segue é de Dona Eleide e Seu João, pais de Aline. Ela nasceu com Síndrome de Down e está aqui hoje pelo dia internacional da síndrome e para indicação de leitura do livro escrito por Seu João: A eficiência, na deficiência, que é um regador de olhar o mundo, os outros, nossas deficiências e as dos outros, o quanto podemos ser eficientes. Para fazer refletir o quanto o mundo está carente de simplicidade e o quanto o simples tem valor.
“Todos sabemos dos mais diversos acontecimentos existentes ao redor do mundo. A globalização deixou o mundo pequeno. As boas e as más informações chegam ao nosso conhecimento bem mais rápidas do que nosso pensamento.
As pessoas ditas “normais” correm atrás de riquezas materiais, de prestígio, de figurarem nas estatísticas dos bem sucedidos, dos milionários, dos mandatários, dos artistas e por aí afora. Mal sabem estes que existe um outro mundo dentro desta galáxia que poucos sabem avaliar. Nós sabemos e explicamos porquê. Há quase trinta anos convivemos e vivemos na companhia de uma jovem que nasceu com a síndrome de down. Logo nos primeiros dias da vida, concluímos que não deveríamos esperar que ela entendesse o mundo em que vivemos. As características da síndrome nos fizeram entender isso. E mais, aprendemos que deveríamos ser nós a conhecer o mundo deles. Aprendemos muito. Estamos a aprender e sabemos que ainda nos falta conhecer muitas coisas. Mas fiquemos com o que já conhecemos. Trata-se de um outro mundo; sem guerras, sem maldades, sem ambições desmedidas, sem orgulho, sem vaidades e mais, sem pensamentos voltados para o mal. Entre tantos exemplos, citamos alguns: A nossa filha Aline, bailarina clássica, tem nos levado aos mais diferentes e sofisticados ambientes. Temos ido também a locais humildes, para que todos conheçam o potencial das pessoas consideradas “diferentes”. A Aline apresenta- se para mil pessoas, ou para uma só, com o mesmo entusiasmo; para ela, a primeira ou a última dama de uma sociedade merecem a mesma admiração. Em algumas ocasiões falamos, assim, com ela: - Filha, você vai se apresentar num local importante e muitas pessoas assistirão você. E mais, vai ganhar um bom dinheiro. O que você deseja comprar? Eis a resposta: - Quero comer um salgadinho depois do espetáculo.”

19 de março de 2015

Do amar

Vi marido e eu nessa pintura
Nos idos da adolescência
Tão para trás e tão presente entre a gente
A pintura não tem assinatura e não achei a fonte segura
Flores nos caminhos
A dor de espinhos
Luz na escuridão
Brisa boa no calor
Socorro no sufoco
Mão estendidas
Dadas
Abraço acolhedor
Ombro amigo
Colo
Afago
Amor
Na data de hoje, a Igreja Católica comemora o dia de São José, esposo de Maria, que acompanhou  o nascimento do menino Jesus e o criou na infância. Na narrativa de Mateus e de Lucas, José é descrito como um homem trabalhador, responsável e justo. Dizem que era um ótimo carpinteiro, dizem também que qualquer marido a gente pede a Toinho e marido bom a gente pede a São José, não pedi, mas já que ganhei um, casei nesse dia.
Por casais e famílias felizes, que como carpinteiros, construam e reformem seus lares e vidas como a casinha do mais esperto dos três porquinhos. Que sejam celebradas as datas românticas e o cotidiano. Por mais fé, sabedoria, relações saudáveis, correlações nossas com as histórias e vivências de infância, bíblicas, fantasia e realidade. Por vida, doçura e esperança nossa.

16 de março de 2015

É o que temos para hoje

Dia desses recebi a indicação por zap de uma amiga, "Papo de homem", estranhei um pouco, mas lá fui eu ler e me identificar de cara. Aos que me leem e conhecem, o assunto não era futebol, nem concertar coisas ou ser brava, era alimentação, uma real e divertida (seria mais cômico se não fosse tão real) crítica a nova geração dos mimmis para comer, mulher eu acho tem um certo charme e tal (com limites e nem sempre, eu por exemplo sou de comer podrão, em barraca de feira e finesas em restaurantes gourmets, vale agradecer que o corpo ajuda na não dieta #xôolhogordo (muitos risos). Mas homem com mimimi não dá,  sou desse tempo e do tempo de tantas outras coisas chamadas de demodês que clamo voltem a tona.
Seja nos almoços de família, entre amigos ou de trabalho, tem o que não gosta de suco de laranja, o que nunca comeu beterraba, o que não come nenhum tipo de frutas, os carne ou carboidratos ou proteínas nem pensar, os tipo água com limão e gelo, com uma rodela de laranja, os não bebo comendo e uma infinidade de peculiaridades.
É sério que há crianças e adolescentes que nunca comeram coisas mega comuns, porque os pais não comem, porque intolerâncias além de patológicas estão na moda. Isto tudo, a meu ver deveria ser diagnosticado e tratado como doença.
Na casa de um tio meu onde eu passava férias, tudo que ia para mesa todo mundo tinha que comer, nem que fosse uma colherzinha de cada coisa e só era permitido levantar quando todo mundo terminasse. Deixar comida no prato, nem pensar, isso condicionava a só servia o tanto que iria comer. Deixar no prato em dias de mau humor ou rompantes, o tal prato ia para o forno esperar a próxima refeição. Radicalismos a parte, na minha casa o suco era de limão e pronto, não tinha a pergunta que suco você quer e você e você. Ao meu filho quando pequeno e até hoje, de minha parte, com mimos de mãe para o que ele gosta, nos dias de não gosta ou chatices, a minha frase é a mesma: Hoje você come sem gostar.
Não é necessária a ditadura do comer tudo ou abandono das preferências, mas esse refino exagerado, frescura para dar o nome mais apropriado, o não provar, o não valorizar por muitas vezes o custo e o trabalho em fazer os alimentos. Esse extremo de não tem tal marca, não vou comer, não vou beber , só com tal coisa em tal lugar, está estragando o paladar e a personalidade de muita gente. Vale o não gosto mas como, nunca comi e provo, não gosto mas sei que faz bem, a pessoa fez com todo carinho, é falta de educação recusar, o só tem isso é isso e pronto. Não gosta? coma menos como diz a sabedoria popular.
Sou do tempo de tomar chá para curar de um tudo e quando dizia que não gostava, minha mãe mandava tampar o nariz e mandar para dentro. Tempo de ir de galera para fila do mercado comprar leite importado sabe-se Paes Mendonça de onde e não ter essa de não gostar do sabor ou esmiuçar o rótulo. 

14 de março de 2015

Por poesia todo dia

Uma menina na janela
A água que ferve na panela
O passarinho que pousa na varanda
A chuva que o céu nos manda
O garoto que joga futebol
O peixe que escapa do anzol
Todo dia e a toda hora
Ao nosso lado e pelo mundo afora
Onde estamos
E aonde nem sequer imaginamos
Há poesia até no ar
Basta olhar, sentir, reparar
Hoje é dia nacional da poesia, data escolhida por conta do poeta que escolhi para fazer a minha monografia, na mão dele aqui em Salvador, numa praça que leva seu nome, como diz um poema canção, o sol se levanta e a lua se deita.
Não é uma data importada, é nacional, brasileira, não é um feriado, nada enorme, porque a poesia não é coisa de grandezas, é coisa de miudezas, de raiz, de referências afetivas, culturais. 
Salve Castro Alves, Manoel de Barros, Leminski, Alexandre Reis! Salve os poetas ilustres e novos poetas, os que assim não se intitulam ou sabem e são por essência, gente simples, gente que é pura poesia.
Salve a poesia das coisas, a poesia que há nos dias, na natureza, nos sentimentos, nos outros e em nós, basta reparar e vale externar em palavras, desenhos, fotos, gestos, silenciar para ouvir, sentir, processar, despertar a sensibilidade, a rima, o choro, o riso.

6 de março de 2015

Para mirar

 
 Foto da escada de gradil antigo
Beleza do vermelho e azul
Do piso de tábuas
Arte e cultura além das exposições e oficinas
na Caixa Cultural Salvador

 Fotos de telas da Exposição A magia de Miró

Rabiscos de Miró

Um dos mais renomados artistas da história da arte moderna, o espanhol Joan Miró (1893-1983), elegeu a liberdade como modo de viver e de pintar, desconsiderando fronteiras entre pintura e poesia. Utilizou inúmeras possibilidades de formas, cores, materiais, compondo com estilo próprio, traços característicos, inovações, detalhes, desenhos e telas que exprimiam e desencadeiam interpretações, fantasia, tendências, ou simplesmente incompreensão e contemplação. A possibilidade de conhecer de perto esse universo é a proposta da exposição: A Magia de Miró, que passou aqui por Salvador e conferi lá na Caixa Cultural, uma mostra que reúne desenhos e gravuras do pintor, uma lindeza, para mirar e se encantar.

4 de março de 2015

De cabeça

Eu sei de cabeça, como se dizia, ou de cor e salteado, como já não se sabe nem mesmo o telefone de casa, os números de telefones fixos e celulares de uma porção de gente, sei os números de meus documentos e os de marido, sei datas de aniversário e preciso confessar com pesar e poesia que nunca sabia ao certo a data de aniversário de meu Dindo, ficava entre o o dia 11 e 13 de agosto e esse ano por desgosto vai ser vista lá do céu, minha imprecisão, com a precisa, carinhosa e eterna lembrança e bem-querer. Confundo também os dias dos aniversários de meu avô e minha avó, um 9, outro 16 de março. De cabeça, por treino, de coração, sem precisar de agenda, avisos sonoros no celular, Face para avisar, coisas das antigas que precisam voltar. E tenho dito!