Vários são os lugares que me
encantam, dos que fui, ando, nunca pisei, porque sou de encantamentos bobos. Tipo
vejo arco-íris a nada menos que 39 anos vai fazer agora em abril e
sempre que vejo um me encanto.
Mas o lugar de hoje, que já veio
para cá em uma das minhas idas a Sampa e na minha ida recente a Chapada, é a feira. Fui em fevereiro em umas das mais populares daqui de Salvador que passou por longa reforma e que tá todo mundo elogiando e adorando, mas
eu não gostei. Vou explicar!
É que nem circo, acho o máximo o Circo de Soleil mas é um teatro para mim, um espetáculo tipo show. Circo
com sensações e vivências para mim tem que ter o picadeiro, varal de lâmpadas do lado de fora, lona listrada com estrelas, remendos, tipo mambembe, de família, com malabares e palhaços bem clichês, Kombi ou trailer que viajou muito, cheio de tralhas e histórias. Então, fazendo esse paralelo, a tal feira virou shopping, tudo muito arrumado e padronizado, sem os cestos de vime,
gritos de: É época de serigueeela freguesa! Com fila para pagar o estacionamento na
saída, por um valor que dava antes para algo mais, restaurantes frozôs e não barracas com mesas plásticas. Uma feira sem identidade local, característica desses espaços para mim e penso que para turistas também.
Até quem andava por lá parecia ter sido escolhido, gente simples, com sacolas de feira daquelas listras de náilon, de lona
ou de tecido, feitas de remendos das calças jeans dos meninos que crescem e a calça vira bermuda porque fica pescando ou das saias
das meninas que crescem e as saias ainda cabem, mas diminuem não automaticamente, mas por gosto. Nada de moços com cara de pescadores que foram levar o peixe para banca de pescados, floristas de chinelo e camiseta suja de terra.
Enfim e continuando, vou ter que quando
quiser além das coisas de feira (que agora vale pontuar parecem ter mais e estarem
mais organizadas) ir na outra grande feira daqui para ver o movimento e os
traços populares típicos de feira rua. Sem seções, padrões e normas como um mercado ou loja. Gosto de feira com papo, de poder mexer aqui
e ali, de valores e quantidades negociáveis, com unidades e
recipientes de medida que variam de lata de óleo a pá, bacia, saco, quilo, dúzia,
penca, pacote.
Gosto da boa e velha prova sem
lavar, que se não mata engorda, tem quem diga até tempera. Do chamar de mexerica o que outro chama de pocã, o
outro de tangerina e todo mundo se entende ou não. Em feira que se preze, dentro de meus padrões, tem caqui machucado com
preço convidativo e a teoria de que estômago não é prateleira, tem o caldo de
cana que já vem com chorinho ou que você dá o último gole e o moço despeja o
resto de dentro de uma jarra plástica que parece ter sido herdado da bisavó no seu copo com um sorriso que diz lembre disso e volte. Tem os cheiros e
a sensação de que ali é lugar de comida de verdade, sem códigos de barras, de memórias afetivas
de lanches, pratos, pessoas, com planos de fazer uma nova receita ou aquela velha
que nunca mais fizemos e lá vamos nós atrás dos ingredientes sem marca, sem
data de validade, uns que só tem naquela barraquinha.
Para mim cesta de vime e feira
são coisas inseparáveis e para alguns hoje em dia ir a feira é uma realidade tão
distante quanto ir a Marte, em tempos de supermercados gigantes e 24 horas,
compras entregues em casa, soa tão antigo, arcaico.
Gosto porque gente abastada não ganha, perde
se fizer pose em feiras de rua, carro não tem prioridade quando é dia de feira e se nos mercados tem padrões, portões e prateleiras, na feira popular tem jornal no chão, fruta direto do caixote, isopor remendado
de fita crepe, improviso, criatividade. Tem um certo desconforto é fato, uma faltinha de higiene
aqui e outra ali que assusta as pessoas a vácuo e ar condicionadas e é ai, além
da poesia e do popular que a feira tem um que de educar, de humanizar, de senso
de coletividade, cooperação e um detalhe muito importante que adoro, respeito e valor da
individualidade. Se você é frequentador te chamam pelo seu nome e você chama o pessoal pelo
nome, se não é alguém vai te perguntar seu nome, e sendo freguês te perguntam da gripe da semana passada, reparam se você pinta ou corta o
cabelo, sabem até o que você gosta, reservam sem você nem ter pedido, sem ter seu zap para te perguntar se você quer ou vai lá. Em feira popular a gente não é o consumidor, não é genérico, não entra e sai sem ganhar um (geralmente vários) bom dia, volte sempre, vá com Deus. Simples, saudável e agregador.