5 de junho de 2013

Taboca e acaçá

Taboca para o dicionário é uma palavra de origem tupi, que significa: planta oca, sem nó; uma vara verde encontrada nas florestas brasileiras. Para mim é o nome de uma gostosura de infância, com formato dessa planta (tipo um tubo de uns 15 cm), um folhado fininho e doce, que desmancha na boca e o gosto é parecido com casquinha de sorvete.
A tinoca aqui, quando o vendedor passava tocando o triangulo, com as tais tabocas em saquinhos transparentes, dentro de latões de manteiga emendados como na imagem, transformados em porta tabocas delivery, sacudia as pernocas e a fralda no berço no ritmo do tim, tim, tim tirim tim tim.
Não sei se existem além Bahia, procurei na internet essa informação e não achei nada além de referências daqui sobre tabocas. O que sei é que ando numa de falar de comer por aqui que vocês já podem pegar um caderninho e anotar o que vão comer quando vierem a Salvador além de acarajé.
Lamento dizer que é difícil hoje passar um vendedor de taboca, mas se você ouvir um triângulo ritmado ou ver o nome já sabe, eu recomendei, corre e compra e se prepara para meleira e colação no céu da boca.
Tem uma outra iguaria que passava vendendo nas ruas antigamente que nunca mais vi, acaçá o nome. Quando eu ouvia o homenzinho que vinha com um tabuleiro apoiado em um torso na cabeça gritando: "Olha o acaçá! Tem de leite, tem de milho oiá!". Eu, nessa época já aborrecente, saia desembestada atrás de pedir dinheiro para comprar. Adorava e comia feliz e faceira, sem ponderar , nem perguntar do que foi feito, se engordava, se era feito de forma higiênica e estou aqui vivinha da Silva, graças a Deus e aos anticorpos.
Pesquisando imagens e informações sobre o acaçá descobri que é um quitute típico do candomblé, como o acarajé e o abará. O acaçá que me dá água na boca só de falar o nome é uma pasta de milho branco ralado ou moído, envolvido, ainda quente, em folhas de bananeiras (adoro essa parte, pelo cheirinho, saborzinho e beleza), que para os rituais da religião tem toda uma preparação ritualística e significados.
Voltando as tabocas, dia desses passando a tarde na casa de minha mãe resolvi atravessar a rua para comprar do outro lado, numa barraquinha de lanches, uma   saltenha. Entre abrir o portão e dar dois passos até a barraquinha eis que ouço o som familiar da musiquinha do triangulo e sem pestanejar berrei o vendedor: "Moooço!"
Música, latas com o nome da manteiga, sem pinturas ou adesivos, o senhorzinho com o boné do Vitória (meu time), a imagem das tabocas saindo das latas, o preço convidativo, juntando tudo comprei dois pacotes e esqueci da saltenha.

4 de junho de 2013

Crônicas Gris

Quem ai aceita um chá, um café, uma dica literária? Crônicas Gris é minha indicação, o primeiro livro de Ana Paula Amaral, recheado de histórias, revelações, emoções. Eu não fazia ideia do que haveria no livro, mas pelos escritos da autora em seu blog sabia que valeria a pena e decidi comprar no mesmo dia em que ela anunciou que estava a venda. Para ler a apresentação dela sobre o livro e saber como adquirir, clicar aqui.
Muita gente se amarra para investir na compra de um livro de editoras ou autores sem popularidade, por ter dúvida se vale ou não a pena, ou pela falta de glam em dizer que está lendo um livro de uma pessoa "desconhecida".
Imaginei se foi assim com o primeiro livro de Quintana, Clarice, Manoel de Barros. Ter uma editora grande e publicidade por trás é uma mão na roda, mas ter sensibilidade também é uma ferramenta em que aposto.
Conheço quem entra nas livrarias e garimpa livros pela capa, pelo nome, algo que nunca se tenha ouvido falar, um gosto pela descoberta, por provar coisas de sabor diferente.
Tenho os dois hábitos, esse de garimpar livros diferentes e o de querer ler autores já consagrados, além de uma quedinha pela Companhia das letras.
Gris é um tom de cinza azulado e há histórias cinzas, azuladas e cinzas azuladas no livro de Ana. Um livro para ler e reler, para dar de presente, para se dar de presente, para dar o presente do incentivo, do reconhecimento a uma nova escritora. 
Separei um trechinho de uma das crônicas para dar água na boca e sugerir uma sadia e saborosa troca do investimento em um lanche da Mac, pelo livro, que será um bom acompanhamento para o café de uma xícara só de nosso dias.
"Pego no armário da cozinha a xícara emborcada sobre o pires...Dispenso o pires e acomodo a xícara ao lado do computador. Vou falar com meus amigos das redes sociais, bebericando meu café...Mais de trezentos amigos é o que aparece marcado ali na tela...Tantos amigos e uma só xícara de café...Tantos compartilhamentos, mas nunca várias xícaras emborcadas, esperando o som do riso real, o brilho verdadeiro dos olhos, sejam eles tristes ou alegres."

3 de junho de 2013

Hoje cedo teve receitinha e petição 
Mas faltou ilustração
Para ser uma semana completinha
Eis aqui uma figurinha
Para por no álbum do coração
Na página alegria e bolhas de sabão

Receita de bem-viver

Ingredientes:

Muita Calma
Um pouco de coragem
Uma pitada de fé, de qualquer marca
3 momentos de alimentação (sadia de preferência)
1 momento de descanso
1/2  falar e 1/2 ouvir
100 gramas de grama, céu, rio, mar ou um passarinho avistado ao longe
Sorrisos e gargalhadas a gosto
Afeto com gosto

Modo de fazer:

Calma na hora de levantar, pensar, falar, agir
Sempre mesclando com coragem e fé, para render
Se alimentar é o recheio, porque saco vazio não fica em pé
Descansar como massa de pão é indispensável
Falar e ouvir sem exagerar para não desandar
Contatos com a natureza são a glace
Sorrisos e gargalhadas dão cor e vida
E afeto dá a liga

Como segunda é o dia clássico de começar dietas e eu adoro coisas clássicas, resolvi tirar essa receitinha light de um dos meus rascunhos de projetos de livros a serem publicados. Esse é um de receitas de vida, com planos de capa e jeitinho de livros de receitas de avós. Mas publicar um livro é muito caro, comercializar sem ter nome na praça é muito desanimador e por isso trouxe outra coisa clássica de segundas-feiras, notícias da semana. Escolhi uma que recebi sobre uma petição, clica aqui pra saber do que se trata e assinar.

1 de junho de 2013

Plantar para colher

Tem um poema de Vicente de Carvalho que sei de cor e salteado, que diz que a felicidade é uma árvore milagrosa, areada de verdes pomos e muitos não a alcançamos, pois ela está sempre onde a colocamos e muitas vezes não a colocamos onde estamos. E não a colocamos talvez porque a temos com um prédio, um carro do ano, uma viagem, um grande objetivo qualquer e ela é tipo mato, dá fácil, floresce, vira árvore se a percebemos, alimentamos e buscamos nas coisas simples.
Que tal deixar o carro, e ir até a padaria a pé hoje ? Ou deixar a moto em casa e ir de bicicleta? Andar de bicicleta dá uma felicidade que a ciência já deve ter estudado, não sei explicar, mas sinto e recomendo.
Que tal um diazinho, só por distração ou gosto lavar o próprio carro? Ou o de seu marido, esposa, pai, mãe. Admirar vitrines sem entrar para comprar, virar o pescoço para olhar uma planta, uma criança, um gato, uma pipa presa em um fio.
Sabe aquele café da esquina ou do shopping, que nunca você tem tempo de ir, vá. Pare o mundo, desça e tome o café, o suco, o chá que tanto você deseja. Reduza a agitação e a tagarela na hora do almoço e sinta o gosto da comida que você está comendo e da bebida que está bebendo.
Abra, mostre a alguém, viaje sozinha(o) nos seus álbuns de fotos de infância, da juventude, de seus filhos, de viagens que você já fez um dia e ao fitar seu sorriso ou o de alguém que você quer bem em uma foto, como sugere o autor do livro "Happier", se pergunte e tente lembrar o motivo daquele sorriso, para reproduzir o que o provocou.
Não dá para relaxar, curtir, degustar, sorrir de novo com um sorriso que já demos ou que deram para gente se pularmos da cama com o despertador toda manhã, nos entregarmos ao corre-corre do dia-a-dia e acharmos que estamos na busca da árvore milagrosa que somos nós mesmos os responsáveis por plantar ao nosso lado.
Todo mundo quer ser feliz e desconfio que são os pensamentos, comportamentos e valores do dia-a-dia que levam e conduzem a essa tal felicidade, toda areada e encantada que não aceita ser subjulgada.
Um feliz final de semana, feliz junho, feliz plantar e colher!