8 de novembro de 2013

Graciliano, eu, Ana e Luiz Ruffato

Uma postagem de peso, eu sou o contrapeso no meio (risos). Do tamanho do final de semana, com energia e desejos de sexta-feira. Vale a pena ler para quem gosta de ler e de escrever.
Amo ser traduzida, escrita, falada, representada. Para mim nas palavras do grande Graciliano, escrever é paralelo a "como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. "
Hoje começa a Bienal do livro Bahia 2013 que vai acontecer aqui em Salvador. Trarei de lá resenhas, crônicas, poesias, filosofias, retratos, retalhos novos, remendados, lisos e estampados para essa colcha de escritos, imagens, experiências, pensares e sentires que é meu blog.
Para costurar ao gracianar poético de escrever e lavar roupas, trouxe uma frase da escritora que como adulta e criança admiro muito: Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, que disse sobre a abertura da Feira do Livro de Frankfurt respondendo ao que chama-se de "Nova cultura literária" tida como degradante para alguns: "Não acho que seja cultura literária, então não é degradação. Nem todo livro é literatura: do catálogo telefônico à bula de remédio, passando por alguns best-sellers".
Para fechar, tipo café quentinho com pão de minas, após muita roupa lavada e estendida no varal ou sob pedras, segue pedaços do discurso do mineiro Luiz Ruffato, na Feira de Frankfurt, fazendo uso da palavra em um evento onde as pessoas são leitoras, escritoras, educadoras, comerciantes e difusoras de cultura, de saber e portanto formadoras de opinião e capazes de transformar o mundo.
"Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro é a alteridade que nos confere o sentido de existir, o outro é também aquele que pode nos aniquilar.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
O Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo: amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza...
O que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade."

7 de novembro de 2013

Vivendo e aprendendo a jogar

Sabe aquele joguinho de letras, cada uma em um quadradinho, dentro de um quadrado, com uma vaga, tipo um que falta e que faz podermos deslizar os com as letras para formarmos palavras? 
Um quebra-cabeça, joguinho de desafio, não importa o nome, a história é que esse joguinho sempre vem em minha mente nas ocassiões de arrumar compras ou objetos em espaços já povoados com coisas e no cotidiano entra e sai de elevadores. Nos dois casos faço uma referência da lógica que é necessária e da elegância também, para que cada letra, coisa, pessoa se acomode, de modo a cada um em particular e o todo ficarem confortáveis, dentro de um espaço comum.
Ao escrever o que seria só essa relação que faço e até já verbalizei algumas vezes, observei que nesse joguinho e nessas situações é necessário alguém a guiar com as mãos ou o olhar de fora, de jogador, de encaixe e não de interesses pessoais, pressa, desatenção.
Nas letras soltas em busca das palavras por inteiro ou coisas soltas em busca de espaço é mais "fácil" a movimentação do que com pessoas, que não são conduzidas com simples toques e olhares, nem ordenadas, como letras, palavras, objetos.
As nossas mãos, gestos, olhares, palavras, coração tentam e sonham mover os outros com toques mas a medida que amadurecemos, buscando respostas e fazendo perguntas, descobrimos que não é possível guiar as pessoas como peças, com pessoas o jogo é outro. No jogo dos relacionamentos ao contrário do das letras, nos movemos e com isso as outras peças se movem.

5 de novembro de 2013

Sobre ser tão sertão

Tem expressões que nos representam
E frases, textos, histórias, imagens
Por nossa escolha ou por ser assim que somos vistos
Referências recheadas de sentidos e sentimentos
A expressão: "Ser tão sertão"
E as expressãos através de ilustrações
Me representam
E fui representada nessa junção
Pelo poeta e ilustrador Alexandre Reis
Uma honra, um presente
Assim como tenho com honra e como presente
Seja no sotaque, no que gosto, valorizo, creio
Como cobertura e recheio
O ser nordestina, sertaneja porque não
Comedora de farinha, retada, corajosa, destemida
E como um cordel encantado
Ou prece em forma de toada
Segue explicado em forma de poesia
No todo e nas entrelinhas
Um pouco de mim
De todo sertanejo e de ser tão sertão
Nas palavras e sentimentos da encantadora escritora Lígia Guerra
"Por que carrego doçura na alma e asas nos pés?
Porque sinto a vida além do óbvio
Porque enxergo sol em dias de chuva
Porque amo até mesmo o desamor
Porque acolho cada gesto com os braços do coração
Porque perfumo o caminho das estrelas
Porque componho alegria na poesia da tristeza
Porque desejo colorir a vida com olhos de fé"
Doçura em nossas almas, olhares, gestos
Numa correlação com rapadura
Tenhamos cuidado 
Pois o mundo é doce e duro
E nós temos que ser delicados
Sem deixarmos de ser fortes e guerreiros
Equlibristas, manobristas, garimpeiros
E que ao inspirar sintamos cheiro de terra molhada
De mar, de chuva, de alvorada
Café coando, pão assando
Balanço e abraço de rede
Que nos visitem passaradas
E entre secas e brotares 
Sigamos com fé nossas caminhadas

4 de novembro de 2013

Para se lambuzar

"Não coma a vida de garfo e faca
Lambuze-se"
Quintana
Os alimentos tem o papel de alimentar, dar prazer e ao mesmo tempo são um canal com lugares e pessoas. Almoço em família, receitas de vó, de mãe, pratos de botecos ou de grandes restaurantes, típicos de nosso lugar ou dos muitos lugares mundo afora, histórias e sentimentos sempre são associadas aos alimentos.
Cadernos e livros de receita são ferramentas de trabalho, manuais, objetos de colecionar para muitos, herança para alguns, uma incógnita para os que nem fritam um ovo mas vêem nos ingredientes e ilustrações, páginas encantadas, recheadas de mistérios, curiosidades, possibilidades, aromas, sabores.
Associei a frase de Quintana a fruta da imagem no quesito lambuzar-se e em reverência a vida pulsante em nós dos que nos cercam e nutrem, com alimentos para o corpo e para alma, estejam essas pessoas ao nosso lado ou já em outro plano. Essa mistura de sentimentos, sentidos, pessoas e alimentos veio parar aqui por recentemente eu ter ganhado um livro de receitas muito especial.
Culinária com jeito de poesia é uma definição resumida do livro da Editora Sagui, de nome: "Comer com os olhos e lamber com o Coração", um apanhado maravilhoso da culinária mineira, recheado de palavras, imagens e entrelinhas cheias de cores com tons poéticos.
A história do livro em resumo é assim: o escritor Marcílio Godoi convocou duas sobrinhas e de mãos familiares enfarinhas, colheres em punho, sumos de fotos, ingredientes diversos, histórias, versos, prosas e memórias se deu a preparação e publicação das receitas da matriarca da família, Dona Etelvina.
Um livro que não só imortaliza a amada figura familiar que ela foi e sempre será, como também registra para admiração e reprodução as suas receitas, que são de lamber os dedos, beiços, vasilhas, pratos, são um pouco da vida de cada membro da família e serão assim perpetuadas e espalhadas para os membros vindouros e para membros de outras tantas famílias.
Nas fotos o sorriso de Dona Etelvina, sua habilidade e intimidade com a arte de cozinhar, transparentes em imagens estáticas, os utensílios, as palavras de seu filho, tudo junto e separado confirma que não é preciso receita para saborear a simplicidade e o amor, temperos de uso irrestrito, harmônicos e indispensáveis para tudo na vida.

1 de novembro de 2013

Poesia para todos os dias

"Não sou perfeito
Estou ainda sendo feito
E por ter muito defeito
Vivo em constante construção

Sou raro efeito
Não sou causa e a respeito
Da raiz que me fez fruto
Desfruto a divina condição

Em noites de céu apagado
Desenho as estrelas no chão
Em noites de céu estrelado
Eu pego as estrelas com a mão
E quando agonia cruza a estrada
Eu peço pra Deus me dar sua mão"

Palavras de Pe. Fábio de Melo
Estrelas em plena luz do dia
Por uma sexta-feira peneirada de luz e alegrias
Poesia para todos os dias
Oração para um novembro de bençãos
Mãos dadas e paz no coração