Uma postagem de peso, eu sou o contrapeso no meio (risos). Do tamanho do final de semana, com energia e desejos de sexta-feira. Vale a pena ler para quem gosta de ler e de escrever.
Amo ser traduzida, escrita, falada, representada. Para mim nas palavras do grande Graciliano, escrever é paralelo a "como
as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira
lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano,
molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma,
duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a
mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais
outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo
isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois
quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para
enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. "
Hoje começa a Bienal do livro Bahia 2013 que vai acontecer
aqui em Salvador. Trarei de lá resenhas, crônicas, poesias, filosofias, retratos,
retalhos novos, remendados, lisos e estampados para essa colcha de escritos, imagens, experiências, pensares e sentires
que é meu blog.
Para costurar ao gracianar poético de escrever e lavar roupas, trouxe uma frase da escritora que como adulta e criança admiro
muito: Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, que disse sobre a
abertura da Feira do Livro de Frankfurt respondendo ao que chama-se de "Nova cultura literária" tida como degradante para alguns: "Não acho que seja cultura
literária, então não é degradação. Nem todo livro é literatura: do catálogo
telefônico à bula de remédio, passando por alguns best-sellers".
Para fechar, tipo café quentinho com pão de minas, após
muita roupa lavada e estendida no varal ou sob pedras, segue pedaços do discurso do mineiro Luiz Ruffato, na Feira de Frankfurt, fazendo uso da palavra em um evento onde as pessoas são leitoras, escritoras, educadoras, comerciantes e difusoras de cultura, de saber e portanto formadoras de opinião e capazes de transformar o mundo.
"Para mim, escrever é compromisso. Não há como
renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em
português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização,
mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.
Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária
de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido
exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a
afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do
outro é a alteridade que nos confere o sentido de existir, o outro é também
aquele que pode nos aniquilar.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
O Brasil surge como uma região exótica, de praias
paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um
lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil,
desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um
dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo: amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas,
enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um
eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados
com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza...
O que significa habitar essa região situada na periferia do
mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim,
todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura.
Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo
pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil,
torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo
contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode
alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas,
então a literatura pode mudar a sociedade."


