15 de novembro de 2013

Haicais, Mindins e Hanamis

A primavera fala
Ipês e porquês

Perfumando sentidos

O ipê, eu e você
Florescer é saber-se
E sempre buscar a luz
Haikai é uma forma poética de origem japonesa, que valoriza a concisão e a objetividade. Os poemas têm três linhas, na primeira e na última: palavras que somem cinco sílabas, na segunda linha: palavras que somem sete sílabas. Em português abrasileirado escreve-se: Haicai e em português de Portugal: Haiku.
Em japonês esses tipos de poemas são tradicionalmente redigidos e impressos em uma única linha vertical, em português a tradição é em três linhas. Geralmente, uma pintura chamada de haiga, acompanha o haicai. Haijin ou haicaista é o nome que se dá aos escritores desse tipo de poema.
Água
Frescor
Força

Jorra
Cai
Ecoa

Soa
Paira
Pluvia
Criação da autora Luna Di Primo, o Mindim é um outro tipo de poema extremamente sintético e um desafio criativo e linguístico a poetizar e comunicar algo com 3 versos de 2 sílabas cada, sem preocupação com rima ou sonoridade. Poema curto e simples que pode ser longo e denso em reflexões, profundidade e possibilidades.
Esses mindins acima eu fiz para as Cataratas do Iguaçu e os haicais são sobre ipês e a primavera, foram meus primeiros, escritos a convite da amiga Elisa e publicados em seu blog. Grata!
Iniciando a postagem, coloquei a foto da cadelinha de minha irmã que se chama: Hanami, um nome que comunica com o tema da postagem. Para quem não sabe ou não lembra,  esse é o nome de um costume tradicional japonês de contemplar a beleza das flores, em especial as cerejeiras que florescem entre os meses de março e maio por todo canto no Japão e são um espetáculo reverenciado, visitado e contemplado pelos orientais e por turistas de toda parte como valorização da presença, beleza, completude, delicadeza e ensinamentos da natureza. Uma sexta-feira plena e florida a quem o bem semear.

14 de novembro de 2013

Na estrada do sossego

"Esqueci a tal exatidão
Dar nome aos bois
Colocar os pingos nos “is”
Bater de frente
Tirei férias disso tudo
Se algum desaforo bater à minha porta
Não atendo
Canto ciranda, enfeito minhas tranças
Converso com a esperança
Perdi minha mala carregada de ressentimentos 
Na estrada do sossego mudei a rota
Arranquei as portas que aprisionavam meu sorriso
Me perdi do tempo 
Me encontrei em mim"
Renata Fagundes me traduziu, terapeutizou
Arrasou!
Sem mais, sem ses, porém e contudos
Colecionemos menos quinquilharias na mente e no coração
Adocemos o paladar, o sonhar, o pensar, o falar, os passos
A estrada do sossego é a melhor para se estar e nela seguir

12 de novembro de 2013

Alegrias e tristezas

As vezes esquecemos o valor imensurável de abrir a torneira e sair água, de ter água abundante para gastar em higiene pessoal, para cozinhar, lavar roupas, água limpa para beber. Esquecemos da maravilha que é apertarmos um botão e termos luz, conectarmos tomadas e os aparelhos funcionarem. Não damos muitas vezes o devido valor e não agradecemos por essas graças de nossos dia-a-dia.
Reclamamos dos barulhos urbanos como os das obras que constroem e reconstroem nossas cidades sem lembrar que barulhos estrondosos e devastadores derrubam cidades de países onde há terremotos, vendavais e outras catástrofes ambientais.
Nos abalamos com a morte de um individuo, seja de nosso convívio ou no noticiário e o que dizer de números de três dígitos de pessoas que se vão de repente e que deixam outras tantas partidas aos pedaços?
Muito triste o que está acontecendo nas Filipinas, o que a chuva e os ventos estão fazendo em algumas cidades brasileiras, o que a falta de chuva faz nos lugares devastados pela seca, uma cutucada em nossas caras de paisagem e mil exigências, para que a gente dê valor ao que tem, para que as alegrias dos momentos tão comuns sejam redimensionadas, que as nossas faltas sejam colocadas no patamar do suportável, pois temos muito e sabermos disso é sabedoria.

8 de novembro de 2013

Graciliano, eu, Ana e Luiz Ruffato

Uma postagem de peso, eu sou o contrapeso no meio (risos). Do tamanho do final de semana, com energia e desejos de sexta-feira. Vale a pena ler para quem gosta de ler e de escrever.
Amo ser traduzida, escrita, falada, representada. Para mim nas palavras do grande Graciliano, escrever é paralelo a "como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. "
Hoje começa a Bienal do livro Bahia 2013 que vai acontecer aqui em Salvador. Trarei de lá resenhas, crônicas, poesias, filosofias, retratos, retalhos novos, remendados, lisos e estampados para essa colcha de escritos, imagens, experiências, pensares e sentires que é meu blog.
Para costurar ao gracianar poético de escrever e lavar roupas, trouxe uma frase da escritora que como adulta e criança admiro muito: Ana Maria Machado, presidente da Academia Brasileira de Letras, que disse sobre a abertura da Feira do Livro de Frankfurt respondendo ao que chama-se de "Nova cultura literária" tida como degradante para alguns: "Não acho que seja cultura literária, então não é degradação. Nem todo livro é literatura: do catálogo telefônico à bula de remédio, passando por alguns best-sellers".
Para fechar, tipo café quentinho com pão de minas, após muita roupa lavada e estendida no varal ou sob pedras, segue pedaços do discurso do mineiro Luiz Ruffato, na Feira de Frankfurt, fazendo uso da palavra em um evento onde as pessoas são leitoras, escritoras, educadoras, comerciantes e difusoras de cultura, de saber e portanto formadoras de opinião e capazes de transformar o mundo.
"Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro é a alteridade que nos confere o sentido de existir, o outro é também aquele que pode nos aniquilar.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
O Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo: amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza...
O que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade."

7 de novembro de 2013

Vivendo e aprendendo a jogar

Sabe aquele joguinho de letras, cada uma em um quadradinho, dentro de um quadrado, com uma vaga, tipo um que falta e que faz podermos deslizar os com as letras para formarmos palavras? 
Um quebra-cabeça, joguinho de desafio, não importa o nome, a história é que esse joguinho sempre vem em minha mente nas ocassiões de arrumar compras ou objetos em espaços já povoados com coisas e no cotidiano entra e sai de elevadores. Nos dois casos faço uma referência da lógica que é necessária e da elegância também, para que cada letra, coisa, pessoa se acomode, de modo a cada um em particular e o todo ficarem confortáveis, dentro de um espaço comum.
Ao escrever o que seria só essa relação que faço e até já verbalizei algumas vezes, observei que nesse joguinho e nessas situações é necessário alguém a guiar com as mãos ou o olhar de fora, de jogador, de encaixe e não de interesses pessoais, pressa, desatenção.
Nas letras soltas em busca das palavras por inteiro ou coisas soltas em busca de espaço é mais "fácil" a movimentação do que com pessoas, que não são conduzidas com simples toques e olhares, nem ordenadas, como letras, palavras, objetos.
As nossas mãos, gestos, olhares, palavras, coração tentam e sonham mover os outros com toques mas a medida que amadurecemos, buscando respostas e fazendo perguntas, descobrimos que não é possível guiar as pessoas como peças, com pessoas o jogo é outro. No jogo dos relacionamentos ao contrário do das letras, nos movemos e com isso as outras peças se movem.