19 de agosto de 2014

Chá?


Acho muito chique tomar chá, as cinco então é a cara da finesse e acho fantasioso também, falou em chá, sou remetida diretamente a mesa cheia de xícaras do filme Alice, a convite do chapeleiro Maluco. Uma senhora , que ajudou a me criar, me ensinou de pequena quando eu teimava para não beber os tais chás ou remédios, a tampar o nariz com o polegar e o indicador e tomar de virada. Fazia isso toda confiante, não perguntando e não entendendo o porque. Mas hoje trouxe um chá delicioso. De quê? De poesia! Bebi na vizinhança e trouxe porções. O escritor cheff se chama Will Willmondes.
"Tomo conhecimento de um projeto no Reino Unido que usa poemas e músicas para ajudar pessoas em idade avançada a recuperarem a memória (veja aqui, mas veja mesmo). Não duvido que a poesia que habita poemas, músicas, pinturas ou qualquer outra expressão de arte seja a cura para muitos males do espírito.
O fascínio causado pela poesia nos faz viver um instante divino no universo em forma de pensamentos e sensações. Somos tocados por algo especial, uma luz suave que não ofusca os olhos e não carece de esforço algum para ser entendida, apenas se veste de metáforas que sublimam a razão. “Quer se queira ou não, - admitiu Bachelard (filósofo francês) - as metáforas seduzem a razão”.
Um religioso dirá que esse poder da poesia é dom gratuito de Deus, um cético admitirá ser um inexplicável estado de leveza da alma fruto da criação humana.
É que a poesia desperta nossa memória e serve de espelho para belas cenas e paisagens adormecidas dentro nós. Ela desvela nossa sensibilidade, desnuda-nos, revela nossa essência fazendo simpatizarmos pelo que somos. “O poema nos revela o que somos e nos convida a ser o que somos”, ensina Octávio Paz em O arco e a lira.
Portanto, não duvido do poder curador da poesia, que chega de mansinho, enamora nossas ideias, desarma nossas preocupações, sopra as poeiras da memória como um esbaforido amante, colore um caleidoscópio dentro de nós e num instante estamos extasiados com a beleza desperta no mundo: um campo de girassóis, uma orquídea, um sorriso, um olhar, um por do sol."

18 de agosto de 2014

Por...

"A cobra que não consegue livrar-se de sua casca morre
O mesmo acontece com os espíritos que não mudam suas opiniões
Eles deixam de ser espírito" 
Nietzsche
Por uma semana de mudanças de opinião
Janelas, portas e mentes abertas
Por pensarmos fora da casca, da casa, do lugar comum
Por fazermos parte das mudanças alheias de opiniões
Por adaptabilidade
Por espiritualidade, valores, paz e bem

16 de agosto de 2014

Das não leituras

"Pensamos demasiadamente
Sentimos muito pouco
Necessitamos mais de humildade
Que de máquinas
Mais de bondade e ternura
Que de inteligência
Sem isso
A vida se tornará violenta e
Tudo se perderá"
Simplesmente Chaplin
Essa semana  uma amiga me contou que leu antes da filha ler (fiz muito isso) um dos livros de literatura pedidos pelo colégio. O livro foi um de três do mesmo autor da lista de leituras paradidáticas para o ano letivo, desde esse ponto, não achei muito didático, uma vez que a turma é da faixa etária de 9 anos e variações são importantes para o caso de uma não identificação com o estilo do autor e mais ainda pela temática dos três livros serem a mesma, também pelo valor da apresentação de mais de um nome de escritor, editora etc. No tal terceiro livro há descrições e relatos de muita violência, verdadeiras barbáries feitas por e com crianças. Vale ressaltar, sem uma conotação ou desfecho de sonho, tom de ficcionalidade ou lição de moral nas entrelinhas. Absurdo é o mínimo! O livro ganhou o prêmio Jabuti e o autor é super reconhecido, ela disse na descrição que me fez do tal e pensei: Como pode?
Pesquisei sobre o livro, o autor e dentre as muitas ponderações a de que é um registro social e político da época da ditadura, que a recomendação de idade para leitura é inapropriada, que a idade das crianças não contempla tal percepção e trabalho da obra nesse sentido de registro histórico de enfrentamento do mundo real e violento em que se viveu e que vivemos, e ainda não sendo para crianças, é um tipo de leitura questionável para um prêmio literário infanto-juvenil ao meu ver, como foi o que o referido livro ganhou.
Não achei importante citar obra e autor, mas achei interessante dividir essa indignação com certos prêmios, essas incoerências entre combater a violência, ver e se chocar com casos de crimes em escolas e fazer uso na escola de literaturas que ilustram e narram violência. As leituras escolares, devem  circular entre o lúdico e o real em tom educacional, uma realidade compreendida e processada de forma agregadora pelo leitor e sua faixa etária. A escola e se não ela os pais devem atentar para o uso de um material tão contraprodutivo.
Vale para pais, tios avós, além de acompanhar e conferir as tarefas que vão para casa, passar o olho nas feitas na escola, nas questões das provas e questionar questões absurdas, seja do tipo um pássaro arremessado na parede para criar uma questão de física, seja qualquer tipo de proposição agressiva, ou preconceituosa, em qualquer contexto. Muita modernidade, interdisciplinaridade, interatividade, novos métodos, mas ainda é de pequeno que se faz os grandes, colhe-se o que planta-se é invariável esse processo. E tenho dito!

13 de agosto de 2014

Por mais Gils

Eu estava assistindo a um programa de auditório e ouvindo Gilberto Gil falar, esperando ele terminar cada frase, concluir o raciocínio, no tempo dele, com pausas de notas musicais e olhos nos olhos do apresentador. Fala mansa, argumentos simples, cuidado em escolher as palavras. E nas entrelinhas de minha audição e admiração, o lamento, pela certeza de a maioria das pessoas não param para ouvir pessoas que falam assim, além da lamentável constatação de haver bem poucas que falem assim; com cadência, olhos nos olhos, tom suave e poesia.
Praticasse com normalidade não dar atenção, do tipo ouvir e não escutar, divagar ou até mesmo fazer algo ao mesmo tempo que alguém demora para falar.
Adoro ouvir  Gil cantar, falar, opinar sobre diversos assuntos, ver ele na idade dele ainda e com todo gingado, sambar e vim aqui para desejar aos quatro ventos: mais Gils, para falar do novo trabalho dele, fazer merchan sem ele nem saber e sem nada em troca ganhar, na verdade, se alguém ouvir e se alegrar e o horizonte ao som de suas voz e letras das canções alargar, para mim já é recompensa.
O trabalho novo é uma homenagem ao também baiano João Gilberto, que o nome é pura criatividade: Gilbertos samba. E a medida que escrevi me perguntei, será coisa de Gilberto falar manso? Uma quarta mansa, bamba e boa!

12 de agosto de 2014

Adeus! Ah Deus!

"Comprimidos aliviam a dor
Mas só o amor diminui o sofrimento"
É uma frase dita pelo doutor palhaço interpretado por Robin Williams, em Patch Adams, que vou emendar numa frase dita por Paula Gomes, parceira de meu irmão nos muitos filmes circenses que produziram: "O circo chega aonde o cinema não chega". O cinema chegou para ele e ele para o cinema, o nariz de palhaço caiu nele tão bem e através dele, o ator e seu personagem chegaram em muitos hospitais, em muitos corações. E o coração dele? 
Como diz a sabedoria popular, coração é terra em que ninguém passeia, logo ele que passeou pela Terra do Nunca, protagonizou o menino que nunca cresce, que passou pelas aventuras de Jumanji, pelo Museu de História Natural, incorporou um homem bicentário, se vai, por um desatino, aos 63 anos. Indomável como tantos outros gênios que vemos nas telonas e perto de nós, perdendo para as drogas, para as perturbações mentais.
Pessoas com talento, com carisma, com fortunas, com oportunidades e que não conseguem administrar os insucessos ou para quem o sucesso, a fortuna, as limitações profissionais talvez e muitas vezes pessoais, tomam rumos nocivos. Fazem desconsiderar que o melhor delas para muitos que os cercam ou distante os admiram, é aquele dia fora de cena, uma reação humana qualquer. O filme preferido é o que ela não ganhou o Oscar, é o sorriso natural dela, aquela história que não teve palco, não teve aplausos.
Como disse, em seu personagem de Uma noite no Museu: "Alguns homens nascem grandes, outros tem a grandeza imposta a eles", que era pequeno e foi grande, tenha sido por imposição ou não, parece que lhe pesou. Alguns filmes inéditos entrarão em cartaz com ele e todos os filmes que fez o manterão vivo, falando, andando, atuando. Para mim, dos seus papéis, o do gênio indomável lhe cabe pelo nome do filme e o fim que ele teve em vida, lhe cabe pelas perturbações do personagem, pelo jeito doce, sorriso terno e ao mesmo tempo um olhar triste.
Lhe cabe como uma luva também, o papel de palhaço, pois ele tinha um ar alegre e triste. Nessa foto de sua estrela na calçada da fama, tem uma sombra, não sei do que, uma sombra havia em sua vida, sabiam as pessoas ou não, sabia ele ou não o porque. Agora é tarde para questionar ou ajudá-lo.
Tem ainda outro filme encenado que acho fabuloso, tanto a história quanto sua atuação, a arte do filme, a poesia. Amor além da vida é o nome.
Na história, ele morre e não vai para um céu com arcanjos e harpas, pois o céu seria como um universo particular e o dele era uma pintura. A mulher dele coordenava uma galeria de arte e enquanto o personagem tentava entender tudo aquilo fica sabendo que ela, dominada pela dor, comete suicídio. Assim, ele nunca poderá encontrá-la, pois os suicidas como se diz em todos os credos, são mandados para outro lugar. Mas, mesmo assim, ele decide achar ela, e é avisado de que se a encontrar, não a reconhecerá. É isso que senti ontem, quando vi a notícia de seu suicido, não o reconheci.
Mais um poeta morto! Exclamação com pesar para encerrar em referência e reverência ao filme Sociedade dos poetas mortos, que vi muitas vezes ea ele não pela sua última atuação no palco da vida, mas pelo conjunto da obra. Adeus Sr. Robin!