Cronicalizei aqui dia desses
sobre as minhas primeiras panelas, que tinham a Nicette Bruno e o Paulo Goulard
de casal propaganda e na emenda eu ia prosear por cá sobre ser maioria chefs
homens e ganhadores de concursos gourmet homens e meu estranhar dos tais não
saberem e não se envergonharem de não saber fazer o trivial, tipo arroz branco
e feijão e pior quem é do avental todo sujo de ovo não ser as estrelas das
cozinhas e competições de panelas.
Enfim, eis que recebo uma
resenha, um contar, com recantos paulistas e encantos baianos meus, do prosaico
e poético de panelas velhas que fazem comida boa. Autoria de Ana Paula Amaral.
"Conversávamos eu e marido no sábado da minha precisão em comprar panelas.
As que tenho cumprem sua boa função de nos preparar o alimento, mas estão
exaustas, desgastadas.
Reclamei a ele dos programas
Master Chefes, que nunca assisto, mas bem sei do espírito. Por causa desses
programas, as panelas se elevaram na condição gourmet, ou talvez top, como se
fossem modelo de passarela paga a preço de diamante. Mostrei a ele nos sites
que consultei o nome pomposo que aparece: Zwilling. Uma panela, mais de
quinhentos reais. Ele me perguntou se havia ouro ali. Não, respondi, há a França
e seus chefes. Lembramos saudosos da loja de rua no centro de Guarulhos, onde o
dono ficava ali na porta, com os braços atrás, nas costas, uma mão a segurar a
outra. Utilidades domésticas, copos
avulsos, colher e garfo soltos, escorredor de macarrão de plástico verde, prato Duralex e panelas, muitas, diversas. Soltas, que a gente tirava a tampa para
espiar-lhe o interior. Será que alguém ali imaginava se o arroz do dia a dia
caberia, ficaria bem branquinho ou tingido de açafrão?
Alguma dona vi bater com o
ossinho do dedo no fundo da caçarola. Levou. Devia o som corresponder a algo
que ela procurava.Tinha também os jogos em grandes caixas. Comprei lá em
momentos distintos duas panelas e uma frigideira. Foi enterrar o dono e na
semana seguinte os herdeiros venderam a loja que se tornou uma grande loja de
cosméticos com o maior corredor de esmaltes da cidade.
Era ele, o “Seu Mesquita” que
mantinha viva a loja Mesquita, que tinha uma ou outra finura para presentear e
comprar. Mas tinha de um tudo sortido, que tanto agradava sem ter nomes
impronunciáveis como Zwilling. Afirmo, sem mesmo ter presenciado, que lá esteve
Nicete e Paulo, a estampar com sorriso verdadeiro a tampa de caixa de panelas,
a mostrar que o companheirismo e amor de quem divide o feijão, o macarrão, a
farofa, a dificuldade passageira, são essenciais para se viver.
Nunca vi a caixa da panela da
tal panela com ares franceses. Imagino porém, um chef carrancudo a dizer que
tem pimenta de mais na quiabada. Nicette, foi-me a segunda Dona Benta que eu assistia
com gosto com as crianças ainda pequenas. A pequena Nicette engrandecendo o
sítio do pica-pau amarelo. Que tenham mais amor dentro das panelas do que
glamour em suas etiquetas."

